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2011-07-06

Lixo


Mais uma óptima primeira página do i
SND 2010 Winner World's Best Newspaper Design
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2011-05-05

Vamos manter a calma e continuar em frente


O i faz uma óptima primeira página com um famoso cartaz
inglês da Segunda Guerra Mundial que já tinha referido aqui.
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2011-02-18

Ideias de Origem Portuguesa


Fundação Calouste Gulbenkian + Fundação Talento

2011-02-11

Renovar a Democracia


Democracia etimologicamente significa o poder do povo, e como tal, enquanto sistema político, não sendo perfeito, é aquele que melhor garante os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Como tudo na vida é política, tal sistema nunca é garantido por completo, pelo que cabe aos mesmos cidadãos velar pela execução, manutenção e melhoramento da democracia. Impende sobre os cidadãos o dever de intervenção e defesa desses tão intrínsecos valores, tal como objectivamente promover a ética, a responsabilidade e a defesa do bem comum. Porque é possível fazer melhor.

Por isso criámos o blog Renovar a Democracia, um espaço dedicado a todos os que no seu quotidiano, sentem a necessidade de reflectir sobre aquilo que os rodeia. Sobretudo em matérias como a condução do destino colectivo, a vida em sociedade e a necessidade de mudança que o presente teima em mostrar. É um espaço que procura a reflexão ética e responsável, independentemente da sua origem ideológica ou social.
Não fomos por arrasto de movimentos que entretanto foram surgindo. Trata-se de um projecto cuja idealização data alguns meses e que viu finalmente inaugurado o seu espaço público.

Porque achamos que a mudança começa em cada um de nós, desafiamos todos os que sentem essa necessidade de mudança a contribuir na procura de soluções que nos indiquem um futuro mais justo. Pensamos que a crítica das acções e a denúncia dos problema são relevantes, mas mais importante é contribuir com opiniões e propostas que possam ter efeito no decurso das nossas vidas. A vida de cada um de nós e a organização da sociedade é demasiado importante para só pensarmos profundamente sobre elas quando se marcam eleições. Ou julgar que apenas a alguns compete. Porque para contrariar um tempo de degradação é necessário um tempo de mudança.

Não nos movemos pela demagogia nem pelo populismo, não somos apolíticos quando tudo na verdade é objecto da política. Somos democratas e cidadãos que crêem na racionalidade e na verdade, na transparência e na pluralidade, no debate são de ideias construtivas e progressistas.

A Democracia é um projecto em curso, em continuada reformulação. A Democracia pode ser renovada. Defendemos a transformação do sistema: pela reforma da Constituição na diferenciação dos objectivos, poderes, checks and balances e responsabilidades partilhadas; pela reformulação do sistema eleitoral e a representatividade dos partidos; pela reorganização territorial; pela reafirmação da ética e valores democráticos e republicanos; pela fraternidade e o respeito da individualidade; pela justiça e a igualdade.

A luta por um amanhã brilhante está nas mãos de cada um. A audácia não pode sucumbir ao medo que nos comprime. A esperança num futuro sorridente é energia pura que nos fará vencer. Nenhum caminho é fácil de trilhar, mas é possível chegar ao fim. É possível acreditar. O tempo para mudar é agora, chegou o momento da lucidez. Por uma Democracia renovada, vamos criar a mudança.

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Victor Barreiras e Ivo Gomes
11.02.2011

2011-02-07

O país inteiro deve deixar de se sentir parvo


Têm feito de nós parvos. E tão parvos todos temos sido. Ano após ano. Governo após governo. Década após década. Crise após crise.
Mas finalmente, a percepção colectiva da urgência de actuar, da necessidade de mudança, está a alargar-se cada vez mais. Todos sentimos isto, e vai crescendo. Sinónimo disso é o surgimento de movimentos no facebook.
O sinal mais recente - e mais mediático - foi há dias quando Deolinda actuou no Coliseu do Porto com uma cançao inédita. Em menos de um fósforo, "Parva que eu sou", está a tornar-se num hino de verdade e de revolta. Quando Ana Bacalhau entoa “sou da geração do já-não-posso-mais / que esta situação dura há tempo demais” isto é um claro grito de raiva, é um clamar à acção.

O MediaMarkt tem como horrível campanha/slogan "Eu é que não sou parvo". Talvez agora, na reacção à verdade da canção dos Deolinda, na necessidade de intervir, gritar contra tantos responsáveis (ou irresponsáveis) também esta frase "eu é que não sou parvo" porque esta situação dura há tempo demais.
Não basta pedir a demissão do governo. Alternância em que nada muda não é solução. Há muito engano, muita mentira, muita demagogia. Há muita incompetência, muito deixa-andar, muita inoperância, muita desresponsabilização. Há muita desconfiança, muita crispação. Há muita impaciência, muita desigualdade, muita dificuldade, muita incerteza.

As manifestações pela mudança e pela democracia no Egipto são um óptimo exemplo a seguir. A coragem e a lucidez, a força e a capacidade colectivas demonstradas são alavanca primordial para agir, para mudar a situação.
A Democracia está doente, o país está enfermo. É preciso mudar! É necessário alterar o sistema político, afinar a sua representatividade e exigir responsabilidade.
Eu quero deixar de me sentir parvo.
O país inteiro quer deixar de se sentir parvo.
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2011-02-04

O princípio do fim



O fim da tranquilidade, do império, da paz. Há cinquenta anos atrás, Portugal entrava numa etapa crucial da sua existência. Pode ter sido uma acção fracassada, mas aquela madrugada de 4 de Fevereiro de 1961 foi o primeiro sinal de mudança.
Munidos de catanas e paus, centenas de angolanos, com o intuito de libertarem presos políticos das cadeias de Luanda, iniciaram a luta armada pela independência de Angola. A partir daqui, e com os horríveis massacres de Março, todo o império colonial tremeu.
Formaram-se três frentes de guerra que, como qualquer guerra, mostrou o melhor e o pior do ser humano


2011-01-26

Reflexão pós-presidencial

1.
Portugal encavacou-se. Rejeitou uma proposta alegre. Não assumiu uma alternativa nobre. Tolerou (mais) um xico comunista. Engraçou-se com um coelho atrevido à moda da Madeira. Desprezou um defensor de nada para além de si próprio.
O país aprofundou a distância à política. Aumentou o desprezo aos políticos. Definiu-os longe da vista e longe do coração.
Os níveis de abstenção constragem. A não-participação do eleitorado tem várias culpas por distribuir, sendo a primeira dos próprios políticos e do sistema político vigente.
O aumento da quantidade de votos em branco (191.159) é um prenúncio objectivo de um protesto claro que parece finalmente modificar, ao olhos de cada vez mais gente, a real importância política de tal acção.

Este desfasamento crescente poderia ter tido um primeiro combate no discurso de vitória.
Mas não teve.
Assistimos porém, à prova oral de um presidente que de alegre e nobre nada possui. Perdidas duas excelentes oportunidades para ser inspirador, positivo, magnânimo até, mas foram substituídas por palavras de rancor e azedume, negatividade e vitimização, demagogia e populismo barato. Cavaco Silva pode oficialmente ser o Presidente de Portugal, mas não é decidamente - quer pelos votos (apenas 2,2 milhões) quer pelo conteudo demonstrado - o presidente de todos os portugueses. Esperará ele pela tomada de posse para comunicar esperança e mobilização? Conseguirá ele, lesado que está pelas polémicas recentes, um capital de confiança nacional que o país carece? A vir, que duvido, virá tarde e de forma inconsequente. Cavaco Silva é o prolongamento institucional da (podre) estabilidade vigente, mas promoveu a divisão e o afastamento, quando Portugal precisa do contrário.

2.
Tudo continuará num marasmo hipócrita. O país permanecerá encerrado em incertezas do tamanho de um rectângulo de 92 mil km2. Apesar da luta, do altruísmo e do estoicismo de muitos portugueses, o país prossegue, hoje como ontem, num caminho de cabras ladeado de campos abandonados e florestas disformes, sem meta e sem rumo, à espera de uma qualquer queda fatal. Somos um navio ancorado com correntes corrompidas, preso a equívocos, incapaz de flutuar pelos buracos no casco. O que nos impede de renovar, regenerar e partir de novo são as mesmas nulas políticas sem ideias que ano após ano nos cobrem de uma imobilizadora camada de ferrugem e fungo, diminuindo a energia individual e a beleza identitária colectiva de uma nação única.

3.
Mas estas eleições provaram que certas derrotas, também expectáveis, serão plataforma adequada para repensar estratégias. A (real) consequência delas estará por vir.
O resultado eleitoral de Manuel Alegre provou a essência de um candidatura construída de forma errada.

4.
A independência de Fernando Nobre foi a segunda grande vitória. A candidatura de uma alternativa da cidadania e da ética tiveram uma expressão contundente, com potencial de crescimento na proporção futura do descontamento e das propostas inteligentes e mobilizadoras que se apresentarem. Fernando Nobre foi um rosto livre de que a urgência de mudar o estado das coisas multiplica a vontade de participar.


5.
O caminho seguinte é provar que as ideias e a seriedade para mudar o sistema actual têm força suficiente para melhorar Portugal. As etapas do futuro próximo serão intervir e abrir o corpo à luta. Lançar ideias e propôr as mudanças. Debater alternativas e agir para melhorar.

Os valores e os princípios de liberdade, fraternidade, igualdade e justiça não podem sucumbir perante a passividade ou na falsa expectativa num sistema que já não corresponde à realidade e não responde aos desafios actuais.
Tal como o Presidente Barack Obama disse ontem no Discurso do Estado da União: "O futuro é nosso para vencer. Mas para lá chegar, não podemos ficar parados".
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2011-01-21

Crónicas de uma reflexão presidencial - III

Esta campanha eleitoral não ficará para a história. Um presidente-candidato que nada comenta e cinco opositores que barafustam. Pairou um conclave sobre o BPN, a crise e o FMI primeiro, e depois, entre disparates, enganos e parangonas paternalistas ignoraram-se eventuais ideias, perdendo-se oportunidades de discussão entre brumas mediáticas sem conteudo relevante.

A cumprir-se o resultado das sondagens, domingo não passará de um mero acto referendário. Contudo, a haver segunda volta, tudo mudará. E é aí que o desafio existe. Difícil sim, ainda para mais quando PR e Governo, por "tradição" da democracia portuguesa, são contrapoder um do outro. Mas qualquer que seja o vencedor, poderá o Presidente da República funcionar, em concreto, como um contrapoder?

A dictomia política esquerda-direita, ao contrário do que muitos afirmam, não morreu. A sanidade do confronto ideológico e democrático viverá enquanto visões diferentes e alternativas da realidade coexistirem na sociedade. O problema surge quando a Esquerda incorre no habitual erro da multiplicação de candidaturas, fugindo a um denomindador comum, perdendo capacidades afirmativas (ao contrário da Direita) para definir um elemento federador da pluralidade deste campo político. Uma hipótese vencedora é substituída por redutoras vitórias de Pirro, algumas tão narcísicas quanto ridículas. O pragmatismo perde lugar para a demagogia. O ruído dos candidatos dá lugar ao silêncio dos eleitores. Fica tudo à espera de ganhar o seu quinhão, na esperança (vã) de forçar uma segunda volta, aí sim "federadora".

Repugna-me um pouco o voto para aumentar quotas de possibilidades. O voto no menos mau pode ser solução atraente, mas carece sempre de verdade e falta de livre escolha.
Cabe decidir em consciência, em liberdade. Agir por aquilo em que acreditamos, pelas nossas convicções. Tomar uma posição e uma acção responsável pela nossa escolha, no respeito da nossa integridade individual, e pela ideia de país e de futuro.

No fundo, para o PS de Sócrates até é preferível que ganhe Cavaco, pois Alegre, seria uma pedra no seu sapato. Este governo cairá mais cedo ou mais tarde e o próximo PM será Pedro Passos Coelho, pelo que o aspecto de um contrapoder, seja Cavaco ou Alegre, funcionaria de modos muito diversos.

Estas eleições são mais importantes que aparentam. O que nos comprime continuará a intensificar-se na segunda-feira, e no futuro próximo alterações sociais e políticas são expectáveis. Com isso em vista, o que o país precisa em Belém, afugentando-me o máximo dos clichés, é isenção, imparcialidade, integridade. A questão fundamenta-se em quem poderá corresponder, neste contexto, para além disso.
Porque um Presidente não pode ser vulnerável, mudo, discreto. Um Presidente não deve ser serôdio, inconsequente, falso.
O mais alto magistrado da nação deve ir além da razão e do pragmatismo.
O Presidente da República deve ser inspirador, enérgico, convicto, dialogante, livre, humanista. Um PR não deverá cruzar os braços face à (in)justiça, à errância, ao desvario. O Presidente deve apelar à cidadania, ao sentido de dever e comunidade, devolver a esperança e mobilizar para o futuro. Promover o patriotismo e a identidade. O Presidente da República deve defender o bem comum, a democracia universalista, promover a ética social e política.

Porque manter as coisas como estão na esperança que algo aconteça é um engodo.
Mudar por mudar não é opção.
Mesmo que não saia vencedor (desta vez), é preciso acreditar numa visão de futuro.
Escolher pela mudança é uma acção estratégica.

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O sábado de reflexão funcionou.
Pela cidadania, pela diferença, pelo desafio, pela mudança.
Voto Fernando Nobre.
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2011-01-20

Crónicas de uma reflexão presidencial - II

O óbvio dos últimos cinco anos concretizou-se, pois um economista sem alma, pouco pôde. Não é que esperasse algo, mas Cavaco Silva e a sua frágil condição de mito, demonstrou que permanece como um sol enganador. A insustentável situação a que chegámos em parte ocorre pela sua conduta. Pelo conluio dissimulado da atracção fatal ao governo Sócrates. Na concreta realidade da posição presidencial e do símbolo nacional que o actual presidente não tem sido. Pela incapacidade individual para a mobilização colectiva, pela fraca defesa da identidade lusófona, pelo vazio internacional da sua presença. A sua tão propagada honradez e conhecimento dos dossiers nunca possuiram força suficiente para ocupar o cargo de presidente da república. Continuamos a não saber quais as suas ideias para além das economicistas, ora porque não responde, ora porque não as expõe. (Sim, está no site dele, mas não é a mesma coisa). Este mundo actual é o local ideal para políticos da sua estirpe, perdidos que estamos no economês que nos devassa os sentidos e a bolsa.

Há cinco anos atrás mobilizei-me a favor de Manuel Alegre. Pela inovadora candidatura de cidadania, pela fraternidade, pelos portugueses, por Portugal. Por aquilo que acredito que o poeta podia representar como impulsionador do património lusófono numa comunidade forte e global. Defendi com as palavras seguintes a crença num Presidente como "alguém íntegro e de espírito aberto, de convicções e livre, abrangente e fraterno, justo e patriótico (...) que seja símbolo do Estado mas acima de tudo da cidadania, da nacionalidade, capaz de representar todos dentro e fora do país com igual competência, serenidade e valor. Transmitir e invocar uma mensagem universalista e democrática, moderna e mobilizadora, os valores intrínsecos da nacionalidade e do respeito por todos, positivo e inovador."
Acontece que Manuel Alegre, em 2011, não se apresenta (tão) livre como afirma. As amarras que o prendem são lâminas traidoras de um projecto outrora feliz. A inevitabilidade do apoio PS e a "amizade" bloquista conferem politicamente a esta candidatura um estranho sabor de aliança conjuntural e hipocrisia escondida.
Na verdade, Manuel Alegre não deveria, como Mário Soares há cinco anos, ter refeito a sua candidatura. Por três razões muito concretas. Primeiro, pela posição que encetou na contenda anterior contra o PS. Segundo, pelo desbaratar do tão propalado "1 milhão de votos", plataforma fantástica para uma potencial regeneração da Esquerda. Terceiro, pela conveniência de um apoio partidário socraticamente envenenado.
Hoje, tão livre como o poeta, reconhecendo sempre o valor, carácter e simbologia política, não me vinculo (totalmente) à sua repetida candidatura presidencial.

Fernando Nobre, por todos conhecido, tentou levantar um movimento cívico à semelhança de Manuel Alegre. Tentando de certa forma ser um movimento grass-roots à maneira da candidatura de Obama, embora não tenha havido uma projecção generalizada, nem apoios, ideais para demonstrar com autenticidade uma proposta diferente. Em parte pelas fragilidades de comunicação do candidato e da sua equipa, em parte pela desvalorização elitista de uma candidatura alternativa. Não me constrange a sua inexperiência política, não duvido das suas intenções, aprecio mesmo algumas ideias e projectos, mas Nobre afirma a todos os ventos, por vezes em excesso, acções e políticas sobre os quais um presidente não tem controlo.
Mas como tenho tendência para a defesa de autonomias, desafios à norma, modos independentistas, alternativas e um profundo conceito de diferença, a sua candidatura apela a estes meus instintos. Agrada-me o desafio de outra barricada. Apraz-me a ideia de uma mudança inesperada.

E no entanto, permaneço absorto neste purgatório frio e cruel.


(Última crónica amanhã)
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2011-01-19

Crónicas de uma reflexão presidencial - I

Não consigo evitá-lo. Perco-me na busca da razão e do sentido. Entendo a pertinência do momento, mas fraquejo pela indecisão que me apoquenta a racionalidade. O tempo muda muito. Constroi desejos e futuriza alegrias que, no entanto, tendem a desfazer-se em inglórias existências, promessas fúteis e certezas diminutas. Depois o ciclo fecha-se para recomeçar outro, para se revalidar a esperança e a vontade, uns para solidificar a matéria, outros para projectar a mudança. Contudo a confiança é mutável, na implícita medida da realidade cruel que nos envolve. A projecção do amanhã bifurca-se entre uma insustentável percepção de um mundo que nos é alheio ao controlo e ao entendimento, e um caminho idealista de percurso inevitavelmente intransponível.
Não perdi todas as utopias, ainda reside em mim uma réstia de realidade. Pela primeira vez situo-me no purgatório campo dos indecisos. E é um lugar horrível.

Nestas eleições presidenciais qualquer visão apresentada afigura-se como uma consequência sem fundo, questionando de novo a valor da existência de um presidente, muito particularmente face ao desenlace há muito pressentido. Isto convida à inércia, a um movimento silencioso que afasta a participação. Na verdade, com os poderes actuais, um Presidente deveria ter um mandato único de sete anos, findo o qual a renovação obrigatória do detentor do cargo elevaria e mobilizaria a disputa e a participação política e civil. O próprio exercício do cargo nestas condições evitaria leituras ou atitudes da simples busca da reeleição, tornando mais livre e presente a sua acção.

O voto em branco, na situação presente, torna tão ineficaz como inútil porque há sempre algo a evitar e uma visão por defender. "No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise", escreveu Dante.
O exercício da abstenção activa - o voto em branco - como emergente arma democrática, encontrará noutra ocasião, palco maior e decisivo para a sua aplicação.

Das candidaturas em disputa tenho um claro contra (Cavaco) e, um estranho dilema por resolver (Alegre ou Nobre). Os dias seguintes me conduzirão a uma reflexão e, consequentemente fundamentado, à decisão final.

(Continua amanhã)
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2010-12-22

Se queremos um país novo

"Para pôr Portugal no futuro, temos de voltar às ideias que sonham e às palavras que transformam, e fazer da política aquilo que ela é: a viva possibilidade de um sempre-começo."

Jacinto Lucas Pires

2010-11-24

A insuficiência da greve

Razões para a greve existem. O cerne da questão reside hoje na forma do protesto. Até onde vale uma greve? Que resultados concretos se obtêm?
O direito à manifestação é óbvio, contudo peca por escassa pela razão que é o país inteiro que, estando contra as medidas, está muito mais contra este governo e a situação nacional que este degradou.
Esta luta necessita de uma mobilização mais audível e transformadora. Não, não é uma revolução. Não no sentido tradicional. Será algo mais inteligente e inovador.
Por exemplo: recordam-se do povo nas ruas da Argentina em 2001? Durante dias a fios milhões bateram em tachos, panelas e tampas contra o descalabro que o governo provocou ao país, forçando a sua demissão e proporcionando uma mudança drástica mas inovadora com as políticas económicas do novo presidente Nestor Kirchner (falecido no início deste mês).

É algo do género que (alguns) irlandeses, civicamente conscientes têm manifestado, cansados de errâncias e mentiras por parte do seu governo que, finalmente cedeu às evidências e ao "bailout" europeu.
Apesar de todos argumentarem que Portugal é diferente da Irlanda, também esta é um caso diferente da Grécia. Um após outro tombam face aos "mercados", mas essencialmente sucumbem à mercê da sua própria incompetência e inoperância.
Está muito em causa neste momento. Portugal e os portugueses. O euro e a Europa. Um futuro evitável que se torna na pior inevitabilidade, tão previsível quanto incompreensível.

A luta, meus senhores, será depois intensa. A enfermidade que grassa as nossas democracias é porta aberta a transformações perigosas e eventualmente fatais. Seja pela regressão das nossas liberdades e garantias por um sistema descredibilizado, seja por mudanças drásticas e extremistas que ano após ano florescem pela Europa.
A ética, a justiça, a igualdade e a pluralidade, alicerces do verdadeiro paradigma da democracia estão submetidos a sorrateiro e constante ataque. Os valores de comunidade e responsabilidade diluem-se perante uma passividade colectiva, pois vulnerável na sua existência, impotente na sua exclusão.

O poder último estará nas mãos do povo. Seja no voto, seja na voz, seja na rua. Em cada um existem acções inovadoras ainda por explorar - massivo voto em branco, por exemplo.
Uma greve é uma luta. Mas é claramente insuficiente.
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2010-10-27

Trintões, Filhos dos Anos 70

Somos filhos de um tempo longínquo, peculiarmente muito nosso. Nascemos e crescemos num país entre regimes, num tempo transitório entre um mundo artesanal para outro pré-digital. Somos gente de outra realidade, que permanece estranhamente agarrada a uma profundidade nostálgica. Abraçámos uma bela ideia de um futuro que não se cumpriu, uns perderam a utopia do sonho enquanto outros perdem-se no sonho dessa mesma utopia.

Firmes nos erguemos, na certeza que à beira dos quarenta muito mais que ternura nos suportará a existência, pois entre nós perdura um passado inigualável e comum, especiais momentos construtivos de nós próprios, fantasias e experiências irrepetíveis, imbuídos de valores e dúvidas que tanto nos movem como nos retraem. Somos uma geração madura que procura o seu lugar, insiste na eficácia, valoriza o mérito, ama a liberdade.

Somos adultos de entre-tempos, repartidos entre o arcaico e a modernidade, entre o passado lento e a alta velocidade do século novo, tentando perceber melhor quem é na verdade, pesquisando-se para implantar em si mesmo à medida de um envelhecer vagaroso uma permanente necessidade de se definir e pacificar.

Somos únicos e isso enche-nos com um invejável orgulho.


Uma na Bravo, Outra na Ditadura é um documentário exemplar (conteudo, montagem, conceito) da autoria de Andre Valentim Almeida onde, nós filhos trintões dos anos 1970, nos revemos em absoluto em cada depoimento.




"Retrato", JP Simões

A minha geração, já se calou, já se perdeu, já amuou,
já se cansou, desapareceu, ou então casou, ou então mudou
ou então morreu: já se acabou.

A minha geração de hedonistas e de ateus, de anti-clubistas,
de anarquistas, deprimidos e de artistas e de autistas
estatelou-se docemente contra o céu.

A minha geração ironizou o coração, alimentou a confusão
brincou às mil revoluções amando gestos e protestos e canções,
pelo seu estilo controverso.

A minha geração, só se comove com excessos, com hecatombes,
com acessos de bruta cólera, de mortes, de misérias, de mentiras,
de reflexos da sua funda castração.

A minha geração é a herdeira do silêncio,
dos grandes paizinhos do céu,
da indecência, do abuso.
E um belo dia esqueceu tudo, fez-se à vida,
na cegueira do comércio

A minha geração é toda a minha solidão, é flor da ausência, sonho vão,
aparição, presságio, fogo de artifício, toda vício, toda boca
e pouca coisa na mão.

Vai minha geração, ergue a cabeça e solta os teus filhos no esplendor do lixo e do descuido,
Deixa-te ir enquanto o sabor acre da desistência vai corroendo a doçura da sua infância.
Vai minha geração, reage, diz que não é nada assim,
Que é um lamentável engano, erro tipográfico, estatística imprecisa, puro preconceito,
Que o teu único defeito é ter demasiadas qualidades e tropeçar nelas.

Vai minha geração, explica bem alto a toda a gente
Que és por demais inteligente, para sujar as mãos neste velho processo, triste traste de Deus.
De fingir que o nosso destino é ser um bocadinho melhor do que antes.
Vai minha geração, nasceste cansada, mimada, doente, por tudo e por nada, com medo de ser inventada
O que é que te falta, agora que não te falta nada?
Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração ou só te resta morrer desintegrada?

Mas minha geração,
Valeu a trapaça, até teve graça, tanta conversa, tanta utopia tonta, tanto copo, e a comida estava óptima! O que vamos fazer?

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2010-09-30

Diálogo sobre a triste evidência

I: Então lá nos arranjaram maneira de continuar a pagar as inúmeras mordomias do chamado estado social.

V: Incompetência de uns para pagarmos todos.

I: Podes crer. É tão fácil governar este país. Pode-se fazer tudo, se faltar dinheiro, aumenta-se os impostos e volta-se a aumentar os impostos. Não há maneira de criminalizar esta gente. Responsabilidade política não chega.

V: À responsabilidade política não é imputável responsabilidade judicial.

I: Pois o problema é esse.

V: A desresponsabilização dos actos leva a qualquer tipo de governação. Incompetência equivale a muita coisa - mas politicamente corresponde também a falta de seriedade.

I: Todos lesam o Estado em milhões que provocam pobreza e dificuldades. E a consequência? Talvez não seja reeleito. O problema reside na base: este sistema ou dá uma volta de 180 graus ou daqui a 4 ou 5 anos estamos pior e com medidas piores.

V: E toda a gente sabe disso há 10 anos. É certo que gerir um Estado não é como gerir uma empresa - a brutalidade de escala assim nos engole - mas os princípios de gestão são os mesmos, e sendo o dinheiro de todos, mais rigor se obriga a ter, com bom senso e sentido de Estado.

I: É verdade, a complexidade e dimensão do Estado relativiza análises simplistas. Mas pode-se fazer uma comparação básica: se na nossa casa começarmos a recorrer ao crédito para ir ao supermercado e para comprar roupa, ou mudamos de vida ou acabamos na miséria. O Estado neste momento está assim, já necessita de financiamento para pagar os ordenados da função pública. Isto não pode acabar bem, só quem é muito burro não consegue ver isto.

V: Como milhares de famílias estão hoje aflitas, desde os EUA até cá. Actos inconscientes provocaram ilusões inconsequentes.

I: É mesmo. Vivemos no mundo das ilusões e são os Estados a fomentar essa ilusão, E não são estas medidas que vão resolver nada. É muito mais profundo do que aumentar o IVA até aos 50%.

V: Existe muito mais despesa do Estado para cortar, como em tantos institutos que existem. É frase feita que "o poder corrompe", eu acrescento que "o poder alucina". Para o Governo tudo sempre esteve e estará bem.
Lembras-te do "óasis" do ministro de Cavaco, Braga de Macedo?

I: Se lembro. E a culpa ao contrário do que querem fazer crer não é só deste governo. Vem de há 15 ou 20 anos a esta parte. Os princípios são os mesmos. Somos de facto um país mais moderno que há 20 anos, mas com o dinheiro dos outros.

V: Que não consegue reproduzir a sua própria riqueza em quantidade suficiente.

I: Andamos a comprar roupa de marca a crédito para estarmos na moda.

V: Eu não.

I: Andamos - este país.

V: Nunca tive cartão de crédito, e roupas de marca compro nos saldos. É esta sensação de incompreensão de "eu n contribui para isto, mas tenho de pagar!?"

I: Sentes tu e toda a gente séria que trabalha com afinco e paga os seus impostos. Quase tudo o que está feito é na base da aparência. O modo de vida dos portugueses vai ser pago mais à frente e não temos capacidade para o fazer.

V: Não se entende. É quase sangue, suor e lágrimas e cada ano que passa é pior que o anterior.

I: É verdade. Estão sempre a pedir sacrifícios e paciência e já ninguém consegue perceber com que objectivo.

V: Uma vez li que como forma de luta seria não pagar os impostos - mas isso seria tão trágico como anarquista.

I: Parece aquelas casas que entram em obras com os moradores lá dentro e que pensam: isto é uma chatice, ficamos com a vida ao contrário, mas quando a obra acabar esta vai ser a casa que sempre sonhámos ter. O problema é esta "obra" não ter fim.

V: Continuo a pensar que uma forma de protesto - para além de sair às ruas, veja-se o caso dos franceses - seria incentivar e tornar real a ficção de José Saramago em Ensaio sobre a Lucidez - o voto maciço em branco.

I: Sim há muitos anos que defendo isso. Aliás sempre o pratiquei. Mas esta gente é tão sem vergonha que acho que nem assim tirariam conclusões. A sério, estou mesmo desiludido com este país. Com as supostas elites que são medíocres e com a generalidade das pessoas que são uns acomodados.

V: Sempre votei em quem acreditava merecer um voto útil. A desilusão com este país é um dos grandes males auto-infligidos. Verdade comunitária, a indignação leva-nos à resignação pelo facto de as alterações não acontecerem. Acabamos por desistir por ser mais fácil, porque difícil o suficiente é resistir na nossa luta diária para nos sustentarmos.

I: Mas observa: em todas as grandes convulsões históricas em quase todas as sociedades havia alguém ou alguns que tinham um objectivo (discutível na sua génese, em grande parte dos casos) mas que lideravam. Nada disso existe nos dias de hoje. A miséria chegou até aí.

V: Se te recordas dos últimos textos que escrevi sobre esta "governação" e "este" país, em A insustentável situação do ser, A estratégia da anestesia e Dias de Abril procuro demonstrar tudo isso.

I: Eu sei, eu li.

V: É um cliché, mas absoluta verdade - estamos mergulhados numa crise de ideias e de valores.

I: Eu diria que estamos fechados num copo virado ao contrário.

V: Essa é uma metáfora extraordinária. Muito bom.

I: Não vejo como voltar a pôr o copo direito. Não vejo mesmo.

V: Apetece fugir, mas não é sempre uma opção viável.

I: Não, não é.
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2010-06-22

Dignificar símbolos

Os símbolos são códigos de linguagem, real, histórica, imaginativa, perceptiva, emocional, política, cultural. Dão rosto e forma a ideias, legados, atitudes. Os símbolos têm uma representação física impossíveis de ignorar. O desrespeito pelos valores que o identificam pode entender-se, no mínimo, como uma ofensa.
O Presidente da República é o símbolo político do Estado. É a figura maior da estrutura republicana de uma nação. Um Presidente - seja ele quem for - é presidente de todos. Um Presidente não tem espírito, nem sexo, nem querelas. Um Presidente está acima de questões estéreis e conflitos de personalidade. Um Presidente existe e enquanto tal representa um país, uma nação.

O Presidente Cavaco Silva, em mais umas das suas decisões misteriosas, ignorou um símbolo de dimensão infinitamente maior. Ao não estar presente na homenagem a José Saramago, Cavaco Silva deu uma má lição de respeito e educação, retirou o significado institucional que lhe é conferido pela Constituição e pelo povo enquanto Presidente da República Portuguesa. Uns poderão dizer que a ausência foi coerente e que se comparecesse seria uma acto de cinismo e hipocrisia. Mas conhecida antipatia mútua, apesar de notoriamente pessoal e política, é algo que não podia prevalecer como uma alma-penada sobre as exéquias fúnebres, pois quem estaria presente seria, não o cidadão Aníbal Cavaco Silva, mas sim o Presidente da República em representação de todos os portugueses numa cerimónia oficial de homenagem nacional. Podia até Saramago não querer que estivesse presente, mas as circunstâncias da vida colocaram Cavaco como o alto magistrado da nação, e como tal a sua presença seria óbvia. Cavaco Silva, apesar da mensagem breve mas correcta que emitiu no dia do falecimento, com a sua ausência tirou dignidade ao seu próprio cargo, alimentou um desconforto institucional evitável e demonstrou desprezo pelo valor do maior símbolo nacional cultural e com maior projecção mundial dos últimos 40 anos.
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2010-06-14

A insustentável situação do ser

1.
Tenho como norma não entrar no velho e caquético modo lusitano de queixa permanente, ou tão pouco disparar antes de perguntar. Porque falar mal por falar está este país cheio, seja através de barbaridades comuns e insultos ordinários, seja por palavras demagógicas e circunstanciais. Procuro sempre analisar e reflectir antes de opinar ao confrontar-me com a extensão de problemas e questões que atravessam todo o espectro do que no fundo é Portugal, sendo que não é possível fugir do óbvio ou ignorar as características do ser.

2.
Este passado dia 10 de Junho celebrou-se mais um Dia de Portugal. Contudo até que ponto é isto transposto numa identidade colectiva que de uma forma ou de outra desvaloriza, ou desonra, como nas palavras de António Barreto, a memória de feitos e pessoas? Que povo é este que não sente o destino de uma nação para além de um triste fado a todos condenado, que se resigna às situações com receio da mudança?
A inevitabilidade constante do ser português conduz ciclicamente a estas situações insustentáveis. E o problema emperra na falta condições de saída pela simples questão, igualmente nacional, de falta de planeamento, de falta de coragem. Não pensar o futuro como um objectivo tem conduzido o país a soluções de curto prazo e vistas curtas. Na verdade, tudo é curto. Seja na laboração, seja nos resultados, seja no bolso. Até a força expressiva de ser português peca na curta dedicação individual e colectiva, peca na desesperança pelo bem comum, peca na curta miragem de um sonho que já não existe. O país perdeu estima e respeito próprios, onde só o futebol é razão para patriotismo.

Portugal foi perdendo o seu caminho. Por uma monarquia de feudos, por um republicanismo confuso, por um nacionalismo retrógado, por uma utopia inconsequente, e finalmente por um capitalismo facilitista. Os últimos vinte anos conduziram a um laxismo por demais evidente, e que rapidamente se transformou em lixismo igualmente generalizado, significando que a única visão palpável de um futuro que já começou, se situa entre lixados (quase todos) e lixo (de diversa espécie).

Portugal vive ciclicamente de oportunidades perdidas. Por não saber organizar-se, por apenas queixar-se, por premiar a mediocricidade, por invejar e desvalorizar o mérito sem lhe seguir o bom exemplo. É tanto uma questão nacional como individual. De nada serve ambicionar ser como finlandeses ou espanhois. Eles são como são porque possuem as suas peculiares características nacionais de finlandeses e espanhois que todos sabemos como são. Mas nem eles próprios são perfeitos, o que nos obriga que a mudança de atitude e objectividade nacionais seja entendida como um factor de mudança de como ser português. Cai-se sempre na mitologia que "antes éramos os maiores do mundo" sem se entender isso como um alicerce para o futuro. Sonhamos com o passado embora presos num presente sem futuro. Soundbyte ou não, Portugal não consegue libertar o futuro. Porque para isso é preciso pensar, organizar, planear tudo o que seja necessário para construir um futuro sustentável - na educação, na justiça social, na mobilidade, na integridade territorial, na valorização do melhor que cá se produz, no regressar à agricultura. Tudo isto necessita de bom senso, seriedade, objectividade e planeamento. O que claramente tem faltado e que leva cada vez mais as pessoas a afastarem-se e a revoltarem-se contra a política. Mas, se o português num modo geral assim é, como poderia a classe dirigente não ser afinal um retrato do povo que o elege? Estamos condicionados a um sistema político-eleitoral de partidos que sobrevivem no seguidismo cerceadora na sua maioria da liberdade de pensamento e responsabilidade individuais dos seus deputados, que na essência não conhecemos, e que apesar da presente legislatura possuir poderes para alterar a Constituição, repetidamente se manifestam contra modificar para uma representatividade directa, proporcional e uninominal como no Reino Unido, em França e nos EUA.

3.
Estamos tão adormecidos ou perdidos nisto que nem o melhor instrumento para a introspecção e a revolta funciona. Um país que já nem consegue rir-se de si próprio é um país justamente amorfo na sua condição vazia. Onde está o pensamento crítico do humor? Que aconteceu ao humor político que tão bem funciona em momentos de crise? A subjectividade da análise crítica através do humor é uma poderosa arma para abrir olhos, forçar mudanças, reavivar combates. Parecem-me todos resignados a não tocar no desinteressante (que não deixa de ser verdade) mas que atinge a todos de uma forma ou de outra. Falta-nos os Contemporâneos, falta-nos um Jon Stewart português. Não fosse o "aburguesamento" dos Gato Fedorento e poderiam ser eles o porta-estandarte de uma nova condição crítica, de uma opinião pública que pressione, tão essencial para uma sociedade que se pretende moderna e participativa.

Uma coisa é nos revermos numa identidade nacional colectiva outra é projectar uma ideia de modificar a identidade nacional individual. Se não queremos ser como a maioria, cabe a cada um encetar a sua própria mudança. Se detestamos o José Sócrates, há que chutá-lo para fora. Se admiramos o José Mourinho, há que ser como ele.
A exigência deve começar em casa para se espalhar à comunidade. É um trabalho árduo e longo, que começa com a transmissão de ideias, valores e acções democráticas, justas e sérias aos nossos filhos. Quantos mais colaborarem neste objectivo melhor será a capacidade de renovar mentalidades, características, trabalhadores, dirigentes e elites.
Pois esta insustentável mediocridade actual, se não cair este Verão, manter-se-á por mais um ano, e será mais um ano perdido a somar a tantos e tantos outros.
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2010-05-14

A estratégia da anestesia



O Demónio não soube o que fez quando criou o homem político;
enganou-se, por isso, a si próprio"
William Shakespeare

Diz-se que coincidências não existem. Mas quando surgem são uma oportunidade a não desperdiçar. A combinação de elementos num dado momento podem ser minuciosamente trabalhados para empolar argumentos, ou dissimular eventos.
Interessante é verificar a evolução da comunicação e na forma como a Política, criada segundo Aristóteles com o objectivo de "criar a amizade entre membros da cidade" se assume claramente "não como ciência exacta, mas uma arte" (Otto Bismarck, 1815-1898, unificador da Alemanha). Pois a Política, na sua essência, é a arte de seduzir, de comunicar, do encontrar o compromisso, até mesmo de enganar. E o problema surge claramente quando se emancipa em forma de arte do engano, da dissimulação, do esconder a verdade, roçando a mediocridade. O político grego Demóstenes (384-322 a.C) dizia que "é necessário que os princípios de uma política sejam justos e verdadeiros", mas continuadamente observamos e nos indignamos com falsas promessas, erradas ideias, enganos matemáticos, escolhas infundadas, decisões comprometedoras, despesismos de umbigo.

As dificuldades atravessadas surgem num ciclo habitual e infeliz, mergulhando tantos num atavismo mórbido, onde certa estratégia política se alimenta num quadro geral de anestesia para prosseguir por caminhos que de novo afectam mais os que menos têm e incapacitam muitos de ultrapassar as adversidades.
É claro como água que as decisões governamentais para enfrentar o défice foram estrategicamente anunciadas entre o Benfica campeão e a visita papal. Enebriados pela vitória benfiquista (são 6 milhões de adeptos), tolerâncias de ponto (para se perderem entre 34 e 70 milhões de euros) para a concentração religiosa (não se passa mesmo outra coisa neste país?), a dura realidade esconde-se entre ambos na expectativa de lá permanecer, pois a seguir temos o Mundial de Futebol e depois as férias do Verão. Ou seja, pelo menos até Setembro.
Na verdade, voltámos à velha tríade Fátima-Fado-Futebol. Mergulhados neste agri-doce engano, os portugueses e o Governo tentam - de novo - a todo o custo sobreviver de mansinho ("manso é tua tia, pá"), lutando ao máximo que as soluções apresentadas magoem ao mínimo.
O que não será de todo verdade ou possível. A gravidade da situação de Portugal, mesmo que estas medidas sejam eficazes, continuarão a não esconder (ou solucionar) a dura realidade da falta de competitividade, da baixa produtividade, presentes no país desde sempre. Apesar do esforço individual e colectivo.
O nosso fado tem revelado sistematicamente a incapacidade do país em proteger-se adequadamente e pela inépcia em desenvolver-se com sustentabilidade. Os erros sistémicos repetem-se década após década, governo após governo. A incapacidade de aprender com os erros revela também que reside entre políticos a persistência enunciada de forma muito verdadeira pelo escritor Robert L. Stevenson - "A política é talvez a única profissão para a qual se pensa que não é precisa nenhuma preparação".

Benjamin Disraeli (1804-1881) Primeiro-Ministro britânico do século XIX numa arrepiante lucidez para o nosso caso afirmou o seguinte: "Nenhum governo pode ser sólido por muito tempo se não tiver uma oposição temível". Parte do problema, em especial dos últimos anos passou igualmente por aqui. Com inglória notoriedade o PSD nunca conseguiu afirmar-se credível, tal como o PS falhou em crescendo na sua governação.
A nossa indignação cai por vezes num conflito de como entender qual a solução correcta. Governo confia por um caminho, oposição ataca pelo contrário, analistas e economistas catastrofisam.
O que nos parece a todos é que o caminho não é por aqui, mas as soluções parecem vagas e oportunistas, urgentes e de curto prazo, inconsequentes ou insuficientes, e andamos nisto numa clara e constante rota sem estratégia.

Mas entretanto lá nos vão/vamos distraindo com o futebol e com a visita do Papa. Talvez mesmo sem a maioria querer acordar da anestesia.
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2010-04-30

Dias de Abril

Durante 48 anos Portugal foi sobrevivendo dogmatizado na Ditadura. Uma madrugada de Abril desbloqueou o país para implentar uma visão disruptiva e no regresso "ao fórum das nações livres e amantes da paz" tomando como deslumbrante lema "Democratizar, Descolonizar, Desenvolver". Entrou depois num processo que quase provocou o descalabro, mas os desafios que enfrentou permitiram devolver esperança e dinamismo para um futuro decente.
De muitas denominações iniciadas por D se pode caracterizar Portugal.

Ao longo de 36 anos vimos crescer um país novo, assumindo-se moderno e europeu, com capacidades e competitividades diversas. Mas pouco a pouco descobrimos (o que quisémos esconder) um país que se sustentou no engano da sua real dimensão, na demagogia da sua doutrina, no desencontro do seu desígnio. Sem um qualquer deus Atlas para suportar o peso da desigualdade sócio-económica e o volume da sua desarticulação territorial desde a Revolução Industrial (estações ferroviárias fora dos centros das cidades como exemplo maior), Portugal é tão claramente um país desestruturado e desequilibrado não muito diferente do retratado por Eça, Bordalo ou Antero - que mais de cem anos depois até arrepia.
Portugal sofre cíclicos episódios de demência e depressão.
Portugal é bipolar.

O descrédito político que não cessa. Dou como exemplo a condição da deputada Inês de Medeiros. Será ética e moralmente justo que cada deputado tenha direito a outras remunerações quando já auferem um salário de €3815,17, constituído a partir de dinheiro de todos os contribuintes? Se nivelássemos todos os salários por este princípio onde iriam as empresas encontrar dinheiro extra tendo em conta as condições reais do mercado?
A delirante decisão no caso Domingos Névoa - Sá Fernandes, que delapida o pouco que restava da confiança na justiça ao limpar o corruptor e criminalizar o corrumpido.
O desastre diário que se tornaram as contas públicas e o perturbante drama que descodifica na essência o desacerto de um sistema global que ameaça despedaçar mais vidas e países à (má) fé de depreciativas e desprezíveis movimentações que nos escapam ao entendimento e controlo.
E agora a decisão de prosseguir com o TGV e o novo aeroporto mesmo nesta fase revela a manutenção de um caminho irresponsável por parte de um Governo errado e erróneo, com dificuldade em discernir soluções alteradoras para um país à beira de um ataque de nervos colectivo que poderá (e talvez deveria) suceder para forçar à mudança para acções concretas e decisivas.

Delegamos em pessoas (supostamente) habilitadas o ofício de gerir bens e Estados, e o que vemos são desbundas crescentes de políticas de casino e interesses individuais de curto prazo com tal distorção da verdade e justeza que assusta. O cidadão comum que honra o seu trabalho e o seu esforço, que se sacrifica, não consegue entender toda esta confusão e não encontra razões para sofrer por decisões infundadas, mal calculadas, interesseiras, narcísicas, diletantes e dolosas.
Não entendo nada de contas. Mas eu não contribuí para esta situação. Tenho um só crédito (habitação), temos o mínimo de gastos extraordinários; suportamos despesas para equilibrar doença crónica; eu muito gostaria de ter um iPhone, eu bem necessitaria ter um computador novo. Mas sei demasiadas vezes como é o salário definhar antes do meio do mês. O risco é diário e dificuldades destas muitos portugueses enfrentam.

A gravidade da actual situação é desconcertante e muitos só agora estão a sair da fase de negação. Mas igualmente mau são aqueles que na fase de aceitação se conformam e não avançam para a etapa seguinte. Pior entre estes são os muitos que se vêem impedidos de sair, sem meios. Sobrevivem um mês de cada vez, uma semana de cada vez, um dia de cada vez. A questão é que não chegámos ainda à fase determinante, ou seja, enfrentar, agir, reagir. Resta-nos esperar que a Lei de Murphy não se aplique e nos mergulhe de novo na incredulidade e desespero.

Estes dias de Abril trouxeram definitivamente novos "D" - são o desnorte, a descrença, a dívida, o desemprego, a desilusão. Enquanto não se definir um novo rumo, construir novos paradigmas, permaneceremos aprisionados a uma diálise inútil sem qualquer vislumbre de melhorar.
Assaltam-nos dúvidas quanto ao presente e ao futuro, quanto à decência que escasseia, quanto ao desmaio dos ideais que deveriam reger o mundo.
Vivemos um momento invulgar, atravessamos um periodo de crise gritante, não só económica e social, mas acima de tudo de crenças e valores. O caminho que todo o planeta toma de seguida ditará a sua transformação, seja ela qual for.
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2010-03-26

O poder expressivo do design português

2010-03-15

uma laranja não é uma laranja é uma laranja

"Quando escorraçaram [das listas do partido] o Passos Coelho foi nessa noite que perderam"
Fernando Costa, líder da Distrital de Leiria, Presidente de Câmara de Caldas da Rainha, disruptivo como sempre, no seu discurso tocou com pertinência e acutilância diversos aspectos fundamentais deste PSD.

Pois o PSD é uma coisa e quer ser outra. Quer saciar-nos a sede mas ambiciona embriagar-se com o Poder. Este partido é uma coisa e o seu contrário. É um notável grupo heterogéneo de muitas cabeças bem-pensantes e bem-falantes mas que não encontra, ou não consegue definir bem o que é e para onde vai. Não é capaz de conceber um projecto agregador de ideias comuns, esbarra na inconstância individual de vontades e não-avanços. Enreda-se em teias de conflito e vingança, intolerância e falsas ideias. Não entende, não planeia, não comunica uma política nova, uma ideia modernizadora para um tempo bem longe e diferente da maioria cavaquista.
Atropela-se em discussões contrárias não assimilando no seu âmago os discursos claros e eloquentes de alguns dos seus membros. Perde oportunidades e possibilidades de inspiração colectiva, despotencia o seu próprio material. Cai no jogo constante de interesses mesquinhos e inválidos.

Um partido que não consegue afirmar-se uno e actual, invejoso de outros e saudoso de tempos passados, nunca evidenciará razões de alternativa suficientemente fortes, por muito dinâmicos que os seus congressos sejam.
A importância das ideias, sejam de mudança, ruptura ou unidade - de qualquer partido - de nada valerão se não oferecerem ao eleitorado consistência, substância, credibilidade, diferença, inspiração, esperança.
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