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2011-10-26

Federal ou nada



O sucesso futuro da UE passará apenas ao regresso dos princípios da solidariedade que a fizeram nascer, e transformar-se democraticamente numa federação. A eleição de um executivo europeu seria factor objectivo e concreto para boa/melhor governação e implementação de projectos estratégicos comuns. E assente sobre uma real representatividade dos cidadãos através de um renovado Parlamento Europeu. Urge uma nova edificação do projecto europeu baseado na participação construtiva e inclusiva de todos os cidadãos europeus. "We the People" e a Constituição Americana são bases fundacionais para uma estrutura inovadora e progressista. Um novo conceito europeu necessita de planos estratégicos para o bem comum, políticas sociais coerentes, responsabilidade ética elevada e, renovados ideais de esperança e comunidade.

O caminho descendente que actualmente a UE percorre tem demonstrado à nausea o quão baixo estão os valores de amizade, respeito e comunidade. Esta união económica sem qualquer vislumbre de objectividade política cava ano após ano um fosso sem precedentes. Não há ideias políticas capazes, não existem líderes europeus audazes, não há coragem nem originalidade. Estamos reduzidos a um bicéfalo "Merkozy" sem ideias sobre vinte e cinco inúteis ou inutilizáveis, qual Janus fatal num Olimpo à beira do desastre. Reféns de umbigos cheios de cotão nacionalista em vez de olhos de horizonte europeu.
O mais recente episódio: uma proposta (chumbada) apresentada esta semana na Câmara dos Comuns por diversos deputados Conservadores "rebeldes" que queriam, em 2012, um referendo no Reino Unido com três perguntas - Sair da UE / Ficar na UE / Renegociar relação com a UE. E última sondagem dá 49% de britânicos a favor da saída da União Europeia. É certo que o Reino Unido sempre foi o mais eurocéptico, mas imaginemos um cenário de exclusão política total - seria um golpe final cruel.
Não haja dúvidas, a Europa está moribunda e começa a cheirar mal.

A (des)construção europeia iniciada em 2008 encontrará a partir de hoje (com mais uma cimeira...) uma etapa crucial para a sua existência, se não mesmo sobrevivência. Qualquer (não)decisão marcará indelevelmente o futuro da União Europeia. A esperança no início da restauração. Ou a prova evidente do seu fim.

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2011-07-20

Europa moribunda

Reza a lenda que Zeus capturou a bela Europa sob a forma de um touro branco. Milhares de anos depois, o deus do Olimpo é representado pela cobiça dos mercados que mantêm refém a Europa, perdida na sua inércia, enganada no seu rumo, moribunda por carência de audácia política. A falta de visão estratégica da União Europeia prossegue, toda ela se move vagarosa nas decisões, recheada de calculismos egoístas, incapaz de soluções, demolidora dos ideais de solidariedade e progresso comuns.

A verdade dos factos tem conquistado mais adeptos do que sempre defendi: o federalismo. O que demasiados Tratados não souberam fazer, muitos países recearam ou repudiaram. O avanço na aproximação económica há muito que deveria ter tomado um caminho paralelo interligado, na comunhão política como um governo único. A estrutura da comunidade actual está danificada quase até à raíz, assente em pilares confusos, sem poderes e sem estratégia. O desnorte existente, quer por parte da Comissão, de um denominado Presidente da UE apenas protocolar, e dos países membros tem levado a União Europeia à beira da ruína. Presos pelos interesses individualistas da Alemanhã e da França, tudo o resto não se move. As duas maiores economias da Europa têm todos a seus pés pelas piores razões. Tudo isto nós sabemos. Tal como a evidente falta de líderes à altura dos desafios

A Europa clama por mudança, séria e audaz. A Europa precisa de liderança, visão e estratégia. Necessitamos de uma nova orgânica política e social da UE. Necessitamos de um governo eleito por todos os europeus, tal como os eurodeputados o são. Urge recuperar o ideal de progresso comum e o crédito internacional de um projecto único. É absolutamente essencial que também nas instâncias europeias os cidadãos façam parte do processo político - aproximando-os com verdade, transparência e responsabilidade. O sucesso da Europa está nas pessoas e nas suas capacidades, numa estratégia comum integradora, progressista e solidária.

Arrastar o problema nunca foi solução eficaz, mas andamos nisto há anos. Se a Europa não der um passo novo, a sua condição moribunda prevalecerá até um desfecho inaceitável.
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2009-11-20

Quem? / Who?



Podem muito bem ser uns senhores com profissionalismo mas... São quase tão anónimos como o resto de nós!
Balkenende, Felipe González, David Miliband, Mary Robinson e Carl Bildt têm demasiado poder mediático que ofuscam Merkel, Sarkozy e Brown.
Enquanto estes dois novos cargos não forem de eleição directa, o "Directório" permanecerá como o verdadeiro poder da União Europeia. Isto foi uma oportunidade perdida para um bom começo.

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They might even be very good professionals and very polite but... They're almost as anonymous as the rest of us!
Balkenende, Felipe González, David Miliband, Mary Robinson and Carl Bildt have too much media power and shine more than Merkel, Sarkozy and Brown.
As long as these two new jobs aren't elected by the people, the "Directorate" will remain as the true real power in the EU. This was a lost chance for a good start.
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2009-11-09

A queda



As divisões, quando sucedem, são-no por diversas razões. Os desentendimentos e as desconfianças também. Mas submeter durante quase três décadas uma cidade - e por conseguinte um povo em dois países - à sombra de um muro físico-ideológico é ir longe demais. A Guerra Fria produziu muitas situações dificeis, perigosas e bizarras. O Muro de Berlim era o símbolo máximo da divisão político-militar-ideológica do mundo. A opressão e a repressão, a intriga e o isolacionismo, os dogmas e as mentiras do lado de lá da Cortina de Ferro acabaram por levar à implosão de todo um sistema politico-social.

Faz hoje 20 anos que os leste-berlinenses sentiram o lindo e doce sabor da liberdade, o ar puro que um muro derrubado deixou passar, uma alegria imensa própria das revoluções justas e verdadeiras.
Eu lembro-me, quase como se estivesse lá. Em directo pela TV a revolução aconteceu em directo nessa jovem noite. Recordo os meses que a antecederam: a abertura das fronteiras Hungria-Áustria, a visita de Gorbatchov à moribunda RDA e o metafórico beijo de morte que o líder soviético deu a Erich Honecker, a manifestação pacífica e contundente de 2 milhões de pessoas em fila ao longo das três repúblicas soviéticas do Báltico. Lembro também as mirabolantes semanas que se seguiram: a queda do regimes Socialistas em mais de dez países, a Revolução de Veludo na Checoslováquia, os dias sangrentos da Roménia que culminaram no fuzilamento de Ceausescu. Tudo "floresceu" numa ânsia para tentar saber o máximo e sentir a contagiante e repentina onda de liberdade dos povos do "lado de lá".

Dia 9 de Novembro de 1989 foi um enorme símbolo transformador. Para a própria Alemanha foi um momento de catarse único que coincidiu com os cinquenta e um anos depois da Kristallnacht (Noite de Cristal) de 1938, o início do terror Nazi anti-semita. Neste horrífico aniversário os alemães libertaram-se de toda a opressão.

A queda do Muro da Vergonha foi o último dia da Guerra Fria. Simbolicamente diz-se que foi o ano em que acabou o século XX. No entanto persistem outras barreiras cujos efeitos esta noite não conseguiu atingir: Belfast, Chipre, e as Coreias. E assistimos diariamente à construção de outros muros na Palestina e na fronteira EUA-México.
Há vinte anos atrás foi o primeiro dia de um tempo novo, o desabrochar de novos desafios, novos objectivos, e novas incertezas, o recomeçar para uma Europa nova, um mundo diferente.
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2009-10-28

Blair is not The One

Benoit Tessier/Reuters

Because Tony Blair has an eternal ghost called Iraq. Because even as the most european prime-minister in decades the UK had, he did not stregthen the ties of Britain within the european project. Because the job wasn't made for him. Because Tony Blair is no longer the star in international politics.

Because the European Union is not a federation, nor a uniform and one-voice political project. Because the path of the european build-up is long and the Lisbon Treaty, not being perfect, is stil the best common stage to move forward. Because the President is not elected by the citizens. Because Europe needs a european vision.


All the respect and admiration for Tony Blair (not excluding the disapointments) are not enough to support his bid to the job. I've said it before (here and here).

However, there is no other person in Europe with the "grandeur" of Blair. And the illusion of an american-style presidency helped to maintain the wish of many. Tony Blair included. The usual "guerrilla" among big and small countries will dictate who will get the job. Getting it is an eternal european-style negotiation.


Teresa de Sousa perfectly summarizes a concern I share:

"You can feel the outcome. A small Europe. And a lost opportunity. The opposite will occur within the order of miracles. For example, if the presidents can be from the same party, then they can also be from the same region. At least Felipe González would be something. A good thing."


Copyright © Martin Rowson 2009


Blair não é o Escolhido


Porque Tony Blair tem uma bagagem eterna chamada Iraque. Porque mesmo sendo o Primeiro-Ministro britânico mais europeu das últimas décadas, não aprofundou a integração do Reino Unido no projecto europeu. Porque este posto não foi feito para ele. Porque Tony Blair não tem mais lugar cimeiro na política internacional.

Porque a União Europeia não é uma federação, nem um projecto político uniforme e uníssono. Porque o caminho da construção europeia é longo e o Tratado de Lisboa não sendo uma etapa perfeita ainda é o melhor caminho consensual de avanço. Porque o Presidente não é eleito pelos cidadãos. Porque a Europa precisa de uma visão europeia.


Todo o respeito e admiração por Tony Blair (sem excluír as delisusões) não chegam para eu apoiar sequer a sua candidatura. Já o disse em vezes anteriores (aqui e aqui).

Contudo, a grandiloquência de outra personagem como Blair é inexistente. E a ilusão de uma presidência à americana contribuiu para acalentar o desejo de vários. Tony Blair incluído. A costumeira "guerrilha" entre países grandes e pequenos ditará quem deverá ficar com o lugar. A atribuição do posto é uma negociação eterna à europeia.


Teresa de Sousa resume no essencial e na perfeição uma preocupação que partilho:

"Já se pressente o resultado. Uma Europa pequena. E uma oportunidade perdida. O contrário será da ordem dos milagres. Por exemplo, se os presidentes podem ser do mesmo partido, então também pode ser da mesma região. Ao menos Felipe González já era alguma coisa. Era uma boa coisa."

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2009-06-07

Vota Europa

Não pude acompanhar mais uma campanha para as eleições europeias. Mas do que percebi, mais uma vez a discussão para o Parlamento Europeu se centrou em tudo menos na Europa. É certo que um deputado em Estrasburgo é Portugal na Europa, mas onde está o alcance desta no país? A percepção colectiva da União Europeia é positiva, mas o entendimento de que se trata de um projecto político original e modificador continua longe do comum dos cidadãos. O único momento em que se discutiu a Europa foi quando Vital Moreira defendeu a criação de um imposto europeu. Logo caiu o Carmo e a Trindade. E logo desapareceu um tema já lançado por Mário Soares há muito tempo. Não pretendo defender ou criticar tal medida. Apenas realço a perda de oportunidade de debater uma questão pertinente e que se debruça sobre o que queremos e o que pretendemos fazer da UE.

Assim, no meio dos habituais falatórios todos-contra-o-governo, e o governo-contra-todos, o afastamento dos cidadãos revela-se maior a cada escrutínio. Problema não inédito por cá, o que só prova a falta de capacidade e de talento dos políticos europeus actuais. Onde deveria haver convergência de ideias e mobilidade para avançar melhor para um fantástico projecto comunitário, assistimos, particularmente desde o alargamento a Leste, a um conceito de quase Babel. Há quatro anos atrás referi esta mesma preocupação. Estes últimos anos demonstraram um conjunto de afrontamentos e desigualdades (invasão do Iraque, oposição polaca e checa ao Tratado de Lisboa, por exemplo) que não permitiram intensificar com acutilância o projecto europeu. A falta de liderança e a falta de sentido visionário, elementos que tanto fizeram nas primeiras décadas (Schumann, Adenauer, Brandt, Mitterrand, Kohl, González, Soares, Delors) emperraram esta fabulosa iniciativa.

Então como fazer para contornar a questão quando ninguém consegue criar bons líderes? O Parlamento Europeu. O aumento dos seus poderes tem revelado e procurado tornar esta instituição na base democrática da UE. O voto depositado na urna deverá ser também um voto de confiança num deputado que, ao contrário do que acontece para a Assembleia da República, sabemos quem é.
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2008-02-20

Stop Blair

We, European citizens of all origins and of all political persuasions, wish to express our total opposition to the nomination of Tony Blair to the Presidency of the European Council.

Na "penumbra" o nome de Tony Blair vai ganhando força para o primeiro Presidente da UE. Mas é com frontalidade que a oposição à sua nomeação ganha cada vez mais notoriedade. Particularmente através de uma petição alojada no site Stop Blair, onde se enuncia as razões contra o ex-PM britânico.
Já aqui manifestei o ano passado a minha opinião sobre Tony Blair: "Tony Blair, prejudicou o seu enorme capital político — o maior defensor da reabilitação de África — pelo que o seu futuro até poderia passar, por exemplo, como um próximo Presidente da Comissão Europeia, porventura mais eficaz que a última presidência da UE pelo Reino Unido." Muito fez pelo seu país, até avançou muito pela Europa dentro ao contrário de governos anteriores, mas recuou em diversas e demasiadas decisões e opções chave para a construção europeia. E a grande mancha no seu currículo será sempre o Iraque. Qualquer cargo que possa almejar estará sempre condicionado a este passado.
Por tudo isto, por muito que simpatize e admire Blair (tal como pensa a Chanceler Angela Merkel) existem princípios e valores que deverão permanecer e falar mais alto que uma simples notoriedade. Escolher uma figura reconhecida pela maioria dos europeus não será fácil. Fossem mais novos e com alegria se aclamava Jacques Delors ou Helmut Kohl. Lionel Jospin teria capital político suficiente? Sarkozy foi quem publicamente avançou com Blair, defenderia ele este compatriota socialista? Felipe González talvez não tenha hipóteses por causa do igualmente "sulista" Presidente da Comissão Barroso.
Personalidades de indiscutível valia e dedicação à causa europeia existem, mas candidatos fortes - e seria importante que o primeiro presidente o fosse - serão poucos. Nos próximos meses, a luta nos bastidores intensificar-se-à.

2007-12-13

Uma Nova Europa



2007-03-23

Europeus há 50 anos



Dia 25 de Março completam 50 anos sobre o início do mais fascinante projecto político. A assinatura do Tratado de Roma em 1957 foi um marco inovador num continente que durante séculos viveu dividido. Europeísta convicto, apoiante de um sistema híbrido de federação de nações, e não de uma união federal de estados ou mera associação de nações, a relevância deste passo em frente para a unidade, desenvolvimento e solidariedade pan-europeia foi enorme. A construção europeia ao longo destas décadas reforçou os ideais de democracia, valorizou a potencialidade dos povos, criou um grupo político, económico e cultural ímpar no mundo. Falta ainda um maior intercâmbio entre os povos, indo para além da união económica. Não haverá verdadeira união política sem unidade social e um verdadeiro sentimento "eu sou europeu". O futuro é ainda um caminho de construção, incerto mas convicto de que unidos, seremos melhores.

2006-11-07

Birthday Logo for EU


A Comissão Europeia promoveu um concurso para um logo que celebrasse os 50 anos do que é hoje a União Europeia. Foi este o vencedor. A ideia está muito bem, particularmente a escolha do autor pela palavra. Mas indo para o conhecidíssimo conceito United Colours of Benetton perde alguma originalidade e peca um pouco no seu conjunto como confusa.

O meu favorito é este:

2006-10-17

Dixit

"O que a Europa deve exigir à Turquia não é que reconheça oficialmente o genocídio, é que reconheça o direito ilimitado a discuti-lo, com a mesma liberdade para os que o aceitam e os que o recusam."

Teresa de Sousa, PÚBLICO, 17-10-2006

2006-10-13

The pen is mightier than the sword

"O que é verdadeiramente fatal para a Turquia é não ter uma democracia desenvolvida (...) Estou-me a marimbar para a questão da União Europeia, contando que a Turquia tenha uma democracia. Quero ser capaz de dizer tudo aquilo que desejo dizer, sem correr o risco de ser linchado por campanhas fascistas ou acabar na prisão"

"A maneira como vejo o trabalho que faço, a forma como escrevo os meus romances, tento ir ao que há de mais profundo no ser humano e trazê-lo para a superfície, para demonstrar que todos somos iguais uns aos outros"

Orhan Pamuk, Prémio Nobel da Literatura 2006
excertos de entrevista ao El Pais 24-09-2006

2006-01-28

iD Presidência Áustria



The logo for the 2006 Austrian Presidency of the Council of the EU is the work of the Dutch architect and designer Rem Koolhaas. He and his think-tank OMA originally came up with the idea of reassembling the colours of the EU countries’ flags in a “bar code” during a brainstorming session in 2001. Theme of the brainstorming: representing Europe’s diversity and unique identity in visual form. The bar code unites the EU Member States in a single symbol.
The European Union is characterised by ongoing development, dynamism and movement. This is reflected in the design of the bar code. The original 2001 design representing the flags of the then 15 Member States was thus adapted in 2004 to incorporate the flags of the 10 new countries joining. The bar code as the Austrian Presidency logo now depicts the flags of the EU-25, arranged according to the geographical location of the Member States from West (left) to East (right). It is a symbol not only of the European Union and its Member States, but also represents Europe’s diverse, colourful character.
Koolhaas’ bar code has not been used officially since its conception. This colourful symbol of Europe now has its official premiere as the logo of the Austrian Presidency of the Council of the EU in 2006.

http://www.eu2006.at/en/The_Council_Presidency/Logo.html

2005-11-04

Jusq'ici tout va mal



O que "La Haine" - filme maior de Mathieu Kassovitz - demonstrava, os últimos dias parisienses trouxeram ao rubro níveis de confronto e destruição nunca vistos. Faz-me recordar Los Angeles após o espancamento de Rodney King, onde o caos e a violência tomaram conta das ruas e do status quo político e social. Milhares de pessoas vivem em arredores-dormitório, do qual Paris apenas poderão vislumbrar num esporádico passeio dominical, ou através das paredes frias do metro, onde a luta diária por condições de vida decentes e promissoras tem, ao longo das últimas décadas, vindo a diminuir. O aumento das comunidades emigrantes e sua descendência, que apesar de se identificarem como franceses, se vê mais pobre, mais desprezada e culturalmente deslocada, têm estado longe dos parâmetros-base do Ocidente - Liberté, Igualité et Fraternité. Estes não têm actuado como verdadeiros princípios de integração e desenvolvimento, absolutamente primordiais na construção de sociedades justas e vantajosamente multiculturais, mas onde ambas as partes possuem culpas diferentes.

As tensões vividas ao longo de anos, numa espécie de Guerra-Fria com episódios perigosos, escaparam de uma aparente Caixa de Pandora. Desde há uma semana que os arredores de Paris, nos novos-velhos guettos, jovens e forças policiais se confrontam naquilo que mais tarde ou mais cedo se receava que pudesse acontecer. A desconfiança, o ódio, o desespero, a ignorância, a estupidez e a desesperança sentem-se em cada grito, em cada rua esventrada, em cada carro incendidado, em cada loja destruída, desencadeada por jovens vazios de presente, vazios de futuro. A intolerância, a ineficácia reactiva, a hipocrisia e a precipitação observam-se nas palavras, nos olhares, até mesmo no silêncio, dos políticos. A relação de forças não deve ser unicamente tomada como autoritarismo versus delinquência, com resultados desejadamente imediatos, onde cada noite mais é um vidro partido no frágil telhado do governo presidencialista, mas também deve ser considerado como um dano sério da estrutura e estabilidade democráticas pelo qual uma sociedade se deve reger.

É importantíssimo conter esta espécie de intifada parisense, que noite após noite intensifica e divide ainda mais a sociedade francesa. Mas o que conta mais é depois - resolver definitivamente as carências sociais de uma parte da população que cada vez mais conta para o todo da nação. Filhos de um país que os afasta para os confins da sua ascendência exterior. A transformação das nossas sociedades uniculturais e fechadas para encontros diversos e cruzados de tão díspares agrupamentos culturais tem provocado choques vários - por ignorância estúpida ou incapacidade receptiva diversa - mas onde as vantagens e a riqueza para todos suplantam em muito as desvantagens. Ao fim e ao cabo, ao longo da História da Humanidade, os enlaces culturais e civilizacionais foram um dos motores do nosso desenvolvimento, então por que há-de ser mais difícil agora? As causas de identidade e de pertença têm hoje uma conotação negativa, assente no individualismo igualitário e desprezante, absolutamente contraditórios num mundo cada vez mais aberto e intercambial. Isto leva-nos às novas-eternas questões da globalização, mas à parte isso, não será uma reacção instintiva a tanta abertura, fecharmo-nos e ficarmos quietinhos no nosso canto, inertes e conscientemente longe do que não queremos que nos mace? No entanto não podemos viver assim. Se cada um tem alguém próximo, ou uma família, não estará o próximo, como Jesus Cristo defendia, como alguém que de facto precisa de nós, e que nós deveremos auxiliar?

Falar é fácil, escrever é-o por vezes, e o inferno está cheio de boas intenções, mas o facto é que o mundo está coberto de realidades infernais. Quando caimos no enganador caminho da violência, onde estamos afinal enquanto civilização, como pessoas? Fazer a guerra é fácil, construir a paz é muito complicado e exemplos, velhos e recentes, não faltam. Onde como aqui, se vive; ou onde por aqui, nem todos os males se sentem, devemos chegar ao fim do dia e exclamar como o protagonista do filme: jusq'ici tout va bien?

2005-09-27

Europa sem rumo

A análise que Teresa de Sousa hoje faz no Público, resume na perfeição a "má" evolução da situação. De facto, desde os atentados de Londres que não mais se sentiu a "marca" britânica na presidência da UE. Todas as expectativas saíram goradas, a ambição (talvez elevada), foi no entanto minada pelos imponderáveis que o futuro sempre nos reserva, mas igualmente e principalmente, pela crise política alemã, perfeitamente inédita e causadora de enormes transtornos para o futuro próximo da UE, precisamente num momento crucial para se avançar para novos e orientadores caminhos de reforma e desenvolvimento.

"As bombas do metro de Londres desviaram as suas energias. O Iraque gasta-as quase todos os dias, reduzindo a sua margem de manobra interna e internacional. Precisaria de um apoio em Berlim para dar força ao debate sobre o modelo social europeu que agendou para uma cimeira de líderes em finais de Outubro."

"Os mais optimistas acreditavam que uma clarificação política na Alemanha poderia ajudar a Europa a vencer a paralisia. As eleições alemãs mataram esta esperança. À crise política francesa soma-se agora a crise política alemã. As consequências são mais ou menos evidentes.
Se a presidência britânica já estava a correr mal, agora restam poucas dúvidas de que a ambição de Tony Blair de relançar a dinâmica europeia através de uma agenda de reformas económicas e sociais está definitivamente posta em causa com o impasse em Berlim. A sua aposta era poder contar com uma nova liderança alemã mais aberta às suas ideias. O mais provável é que a sua presidência, depois dos atentados de Londres e depois do impasse alemão, se fique por muito pouco."

Durão Barroso foi uma perfeita desilusão. Afinal, como poderia ser ele melhor lá fora do que aqui? Mas também, o subtil entrave francês à nova Comissão, a par do desprezo a que ex-colegas usualmente praticam quando há novo Presidente da CE, empobreceram em muito o primeiro ano de mandato.

"Há uma crise de liderança que vem de trás e que resulta não apenas do enfraquecimento gradual da Comissão praticamente desde a saída de Jacques Delors (por vontade deliberada dos grandes países, diga-se de passagem), como sobretudo da transformação progressiva do "motor" franco-alemão numa aliança de interesses imediatos dos dois países centrais da integração europeia que, progressivamente, foi sugando qualquer visão sobre o futuro colectivo da Europa."

Quando no início de Julho a apresentação do programa da sua presidência, Tony Blair demonstrou no seu discurso no Parlamento Europeu todo o "sentido depois do choque dos referendos em França e na Holanda que muita gente acreditou que havia um caminho possível. Blair queria uma Europa virada para fora e não para dentro de si própria, suficientemente dinâmica para se adaptar às novas realidades da globalização, capaz de crescer, de criar empregos, de vencer o declínio e de reconquistar por essa via a confiança dos cidadãos europeus."

Hoje, quando ainda faltam três meses para a presidência semestral acabar, e tudo o que se já passou parece longíquo, a sensação que fica é que todo esse tempo foi inutilizado ou inútil. Com poucas esperanças para as semanas vindouras, "infelizmente o que prevalece são as ideias feitas, as desconfianças mútuas, rivalidades antigas ou recentes e uma ausência quase total de sentimento comunitário." Encontraremos o rumo ainda até ao fim do ano? Ou ficará tudo de novo para as calendas gregas?

2005-07-11

Srebrenica



Recordo-me bem daqueles dias atrozes que, durante 5 anos ensombraram a Europa. Com muita mágoa segui todos os eventos macabros ocorridos na Croácia e na Bósnia. A maldade percorria as colinas balcânicas provocando o caos, a destruição, a fuga, a violência física e psíquica, a tortura e a morte, ausentes das nossas terras europeias há já 50 anos. Ninguém na verdade supunha que as guerras civis/libertação da Eslovénia 1991, Croácia 1991-1994, e Bósnia 1992-1995 pudessem acontecer, e muito menos deste modo. Consequência mais violenta do fim do Muro de Berlim e da desgregação do Bloco de Leste, a implosão da Jugoslávia (esse sim previsível) permitiu a abertura de uma Caixa de Pandora que só foi fechada na Revolução de Outubro 2000 com a queda de Slobodan Milosevic.

O maior massacre cometido aconteceu há dez anos, na localidade bósnia de maioria muçulmana, onde todos os homens com mais de 14 anos foram mortos. Presume-se que tenham sido assassinados 8000 pessoas em dois, três dias, pelas forças armadas sérvias - os mais diabólicos/diabilizados do conflito - estando as forças da ONU absolutamente conscientes e impotentes face ao horror que estava a ter lugar. Mas este genocídio-final foi a gota de água que forçou o fim do conflito. Não mais deixámos de ver mercados e ruas cheias de gente estropiada e abatida a partir dos cercos sérvios nas colinas. Não mais assistimos à fuga de milhares de bósnios, croatas ou sérvios. Pudémos (tentar) esquecer das nossas memórias a inumanidade impressionante naquelas paragens. O novo sonho de uma Europa unida que surgiu com o fim da Cortina de Ferro, viu naqueles anos, na Ex-Jugoslávia, um sério revés para a sua unidade, força e vontade políticas.

Mas o fim da guerra não viu ainda todos os responsáveis presos e julgados: os "irmãos do diabo" Radovan Karadzic (Presidente da Republika Srpska) e Ratko Mladic (Comandante militar das Exército Sérvio Bósnio) continuam a monte, foragidos quem nem Bin Laden, mas obviamente protegidos ao mais alto nível.
Hoje choramos os mortos, celebramos a sua memória, e tal como após o Holocausto, juramos "Nunca mais". Até o próximo sentimento de incredulidade...

2005-07-01

UK Presidency of the EU



"The design concept is 12 swans in flight (12 being the number of stars on the EU flag). Swans fly in formation using a system of leadership and co-operation to fly more efficiently; this is an imaginative and clever metaphor for the EU."

Logotipo da Presidência Britânica da União Europeia, que se inicia hoje.

2005-06-23

Blair for Europe - II

"The issue is not between a "free market" Europe and a social Europe, between those who want to retreat to a common market and those who believe in Europe as a political project. This is not just a misrepresentation. It is to intimidate those who want change in Europe by representing the desire for change as betrayal of the European ideal, to try to shut off serious debate about Europe's future by claiming that the very insistence on debate is to embrace the anti-Europe. (...) I believe in Europe as a political project. I believe in Europe with a strong and caring social dimension. I would never accept a Europe that was simply an economic market."
Discurso de Tony Blair, hoje no Parlamento Europeu

"To respond to the greatest crisis of popular confidence in the European project for 50 years by having a Franco-British row over money is like a couple reacting to the complete trashing of their house in a flash flood by bickering over who does the ironing. (...) So now it's back to Tony, the great communicator. What should he say to the European parliament? I think he should say that the great challenges to Europe do indeed lie outside our frontiers, not in the minutiae of our institutions."
Timothy Garton Ash, The Guardian

2005-06-21

Blair for Europe

"Europe just cannot wait 10 years or more for change." (...) "It is those who believe in Europe most who should be the most ardent advocates of changing it."
"The crisis is not about the failure of Europe's leaders to reach agreement with each other. The crisis is about the failure of Europe's leaders to reach agreement with the people of Europe about the issues that concern them."
Tony Blair,
ontem, perante a Câmara dos Comuns

Numa UE com líderes de fraqueza diversa e/ou que pensam que lideram alguma coisa para a Europa, Tony Blair PM britânico é, como já referi o único capaz de "dar a volta" a isto. "I want my money back" chegará ao fim na presidência inglesa a partir de 1 de Julho, e toda a forma de orçamentação e subsídios inúteis deverão acabar. Foi preferível "chumbar" um mau orçamento (sendo no entanto vergonhoso tudo o que se passou); urge encontrar uma nova e eficaz ideia para a Europa assente no futuro e não nas benesses do passado. Blair conduzirá, com importantes apoios que de certo surgirão entre os colegas-membros, a União segundo um projecto concreto e viável, que hoje, perdida a Constituição não existe de todo.

2005-06-07

The treaty is dead, long live the union

Como se esperava, Londres suspendeu a legislação que permitiria referendar o Tratado Constitucional, e com isso, a ilha simbolicamente deu novos contornos à abordagem do continente sobre o que fazer agora. Com uma provável vitória do "No", a derrota britânica - que não seria de todo inesperada - após "Non" e "Nee" funcionaria como um golpe tão fatal como estes, e os próximos referendos que/se houver, dadas as circunstâncias, não nos dão a certeza absoluta de um resultado ratificador. A especificidade - palavra tão em voga nos meandros europeus - da intervenção política inglesa na construção europeia, tornou-se com Tony Blair numa peça importantíssima no xadrez da UE. O sucesso e a experiência das suas políticas internas apesar da não integração no Euro, o poder económico e social, mas também político e militar, colocam o Reino Unido num patamar de decisão tão válido quanto a França e a Alemanha, tradicionais "motores" do projecto europeu, onde, por ironia a crise tem origem. A falha dos objectivos internos (Alemanha e França), os medos e os preconceitos (França) extravasaram para um sentimento que roça quase um anti-europeísmo de contornos vários.
Fala-se de falta de liderança, saudades de Miterrand, Kohl e Delors, homens "providenciais" e com visão. De facto hoje não temos isso, mas não faltou coragem para avançar para o projecto do Tratado. Contudo, como muitos acusam, e como vemos após referendos e
seguintes reacções, pelos desejos e objectivos comuns e diferenciados, o caminho preparado pela Convenção não foi o melhor. A ideia de uma união muito mais política e económica a implementar em breve será elaborada no retomar do trilho dos "pequenos passos", segundo o qual ao longo de quarenta anos se edificou este projecto.

A cimeira de 16 e 17 próximos, onde se decidirá se o processo de ratificação continuará ou se se opta pela sua suspensão, será a mais importante dos últimos anos. A necessidade de encontrar, de facto, um projecto político de futuro, que funcione como uma ideia verdadeiramente de encontro com os desejos dos povos europeus torna-se agora mais premente que nunca.

Ontem na RTP1, no "Prós e Contras", discutiu-se o
Tratado Constitucional. Pelo "sim" e pelo "não" se esgrimaram argumentos, todos eles válidos, tão esclarecedores para compreender, quanto confusos para uma decisão referendária. Momentos houve que apoiava o "não" e depois os argumentos do "sim" me atraíam de novo...


PS: Soube agora, a República Checa suspendeu o seu processo de ratificação...