2006-01-23

Foi à tangente

Por 0,6%. Nunca uma margem tão pequena permitiu eleger um Presidente da República.
Foi apenas por décimas que não houve segunda volta, o que levaria Manuel Alegre a disputá-la com Cavaco.

Retrato
Os resultados demonstram com particular interesse como cada um dos candidatos se representa de facto no eleitorado. A vitória de Cavaco foi tangencial (ao contrário do que se tentava impôr desde há meses), importante a todos os níveis sem dúvida.

Cidadania
A percentagem obtida por Manuel Alegre foi expressivamente positiva. Segundo em todos menos um distrito, mais de um milhão de votos em Alegre prova como um movimento de cidadania, um projecto político de ideais justos, fraternos e livres têm uma expressão significativa no espectro nacional, e como há lugar para outra visão e maneiras de pensar e fazer a política que de forma tão importante urge aplicar-se.

Derrotado número 1
O resultado de Soares - apenas 778.389 - é bastante curiosa (no mínimo) e quase humilhante diria.

Os comunistas
Os restantes são, outro campeonato, considerando que o grande derrotado é Francisco Louçã, pela sua posição obtida nas Legislativas, pela sua postura nesta campanha.

Sujeira
À espera estava, tal como tanta gente, do discurso de Manuel Alegre, e um minuto depois de começar acontece o momento mais triste da noite, profundamente deselgante e grosseiro diria também. É que viu-se tão bem que foi de propósito. A sobreposição do discurso de Sócrates deixou-me profundamente indignado. O PM foi de uma falta de educação enorme, fosse qual o candidato que fosse que estivesse a falar, mas o simples facto de ter sido Manuel Alegre demonstra um frio acto de vingança perante a campanha e os resultados eleitorais.
Excertos do que Pacheco Pereira escreveu no seu blog à medida que os acontecimentos se sucediam:

22:01 (JPP)
ISTO ESTÁ BONITO!
Sócrates a interromper Manuel Alegre que vergonha!
Se fosse Alegre repetia a declaração.
Se fosse a televisão dava o PM em diferido, porque Sócrates não é candidato.
(António Lobo Xavier assina por baixo).
Há alguma revolta aqui na SIC vinda de vários lados.

22:06 (JPP)
SÓCRATES
pensa que pode fazer tudo. E fez uma asneira revelando um dos seus aspectos mais negativos, prepotência e arrogância. Ao interromper Alegre, foi o que pior se portou nesta noite.

22:43 (JPP)
SÓCRATES QUER-NOS CONVENCER
que ninguém na campanha de Mário Soares estava a ver a televisão e não se apercebeu que Alegre, o arqui-adversário, começava a falar...
A questão é outra. É que lhe correu mal a cena.

e hoje acrescentou:
"A interrupção do discurso de Alegre por Sócrates gerou, na pequena multidão que estava dentro da SIC, imediatas e sonoras manifestações de protesto, que ultrapassaram partidos e amizades políticas. Eu protestei alto e bom som na minha mesa, Helena Roseta na dela e, atrás de mim, no grupo a que a SIC chamou da "sociedade civil" ouviam-se também protestos. Os jornalistas que conduziam a emissão ficaram também perplexos e incomodados pela evidente e grosseira manobra de ocultação de Alegre, mas não era fácil não dar a prioridade ao discurso de Sócrates,no tempo real em que estas emissões se fazem. Sócrates é o Primeiro-Ministro e um dos responsáveis pelo desastre do PS e forçou ser ouvido. Justiça seja feita neste caso à SIC que se apercebeu de imediato que tinha que encontrar uma forma de reparar Alegre, que denunciou de imediato a malfeitoria e anunciou a repetição da declaração de Alegre. Não sei o que fizerem as outras televisões, mas tenho curiosidade em saber."

Abstenção
É impressionante como 3.301.589 de pessoas não foram votar, 37,39% dos portugueses optaram por não contribuir com a sua escolha/opinião. É muita gente, mais que os votos em Cavaco, quase tantos como juntando os de Alegre.

1 comment:

  1. Jorge VarelaJanuary 23, 2006

    Meu grande amigo,

    Vitória à tangente?!?
    Se este tivesse sido o resultado numa segunda volta, aí sim, seria à tangente. Agora, entre seis candidatos, um deles obtem mais votos do que os outros cinco todos somados... não parece ser à tangente.
    É verdade que passa a ser o presidente eleito com menor percentagem de sempre, mas isso porque também é o primeiro presidente de sempre a ser eleito (e não re-eleito) numa primeira volta em que todos os outros candidatos foram às urnas.
    A divisão da esquerda fez com que os eleitores que não preferiam Cavaco tivessem várias opções entre as quais escolherem, baixando assim a percentagem de Cavaco.
    A tua crónica, muito bem escrita como sempre, leva quase a pensar que o grande vencedor da noite foi Alegre; leva quase a ignorar que Alegre nem chegou a ter metade dos votos de Cavaco; leva, por fim, quase a esquecer que o vencedor foi Cavaco... e, quiçá, Sócrates.
    Um abraço.

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