2007-09-16

Realpolitik, por razões óbvias

Pela segunda vez o Dalai Lama veio a Portugal. E ainda não foi desta que foi recebido pelo Governo português, nem tão pouco a Presidência da República "inventou" um encontro como Jorge Sampaio havia feito em 2001. Para além de uma falta de respeito e indelicadeza pessoais, é um profundo desprezo político e humanitário. Como muito bem disse Ana Gomes, não se sabe que alguém tenha sido comido por Pequim, mas o que é certo - ou melhor, "por razões óbvias" - Portugal tem medo que isso lhe aconteça. A sua posição de fragilidade face à pressão da China apenas reforça a real insignificância que Portugal tem no panorama das relações internacionais. Pelo menos a este nível. O medo de afrontar para não prejudicar o "investidor" chinês é sintomático da hipocrisia e baixo nível intelectual desta diplomacia. O facto de sermos uma nação com uma relação longa e única com a China, ao fim e ao cabo, não trouxe vantagem alguma. Durante décadas se dizia que Macau era a porta de entrada de Portugal no Oriente, mas a China nunca foi muito nessa conversa não se interessando por fazer o percurso inverso quando tinha a todo-poderosa Hong Kong mesmo ali ao lado. Assim como se continua a clamar que as ex-colónias são portas de entrada em África. Falso. A pequenez lusa cai sob o poderio chinês - e de outros - que tem se estendido por quase todo o continente sem precisar deste ou daquele para lá entrar. A China entra para obter poder, "por razões óbvias".

Portugal diplomaticamente rege-se por estranhas e contraditórias atitudes, onde apenas Timor foi a causa justa. Aliás, de causas justas está o mundo cheio, mas são atitudes justas que escasseiam. De forma a romper isto está o governo de Gordon Brown a opôr-se a Mugabe. A cimeira UE-África, a realizar-se Dezembro em Lisboa poderá ficar marcada negativamente pela vinda do ditador do Zimbabwe e a ausência do PM britânico. Mas de ditadores continua África a ter demais, e eles virão cá também. Contudo, uma posição de força está o Reino Unido a tomar contra actualmente o pior déspota africano, que continua no poder defendido, por exemplo, por Angola - que muitos se esquecem, ou fazem por isso, de que se trata de um Estado autocrático. Com a mesma mão que recusou apertar a do Dalai Lama, apertará o Governo português a de Mugabe, José Eduardo dos Santos, entre outros. Os valores humanistas e humanitários continuam somente nas conversas coloquiais de conferências mediáticas. A hipocrisia e a falta de atitudes correctas continuam a dominar as agendas.

2007-08-30

O poder da influência



Temos sobre os nossos filhos diversas responsabilidades e deveres, sendo uma delas essencial, fazer deles seres humanos. Cabe a nós pais definir e conduzir a sua educação segundo regras e formas de conduta que consideramos as mais correctas - sendo estas tão ambíguas como variadas de família para família - mas existem ideais comuns a todos: a honestidade, a argúcia, o respeito, a tolerância. Possuímos sobre eles um poder imenso para moldá-los à nossa semelhança, ao que gostaríamos que fôssemos, ao que desejamos que sejam, às leis universais democráticos e humanistas, aos cânones da nossa sociedade e civilização. Tudo isto é a base para o futuro das crianças, seja agora, seja quando adultas.

Também na Palestina isso é claramente visível. Mas é por demais conhecido o ódio palestiniano ao ocupante israelita, conflito demasiado longo e demasiado complexo, mas igualmente demasiado importante para o Médio Oriente e o resto do mundo. E este ódio vive todos os dias, faz parte da existência de muita gente na dura realidade do que é um povo aprisionado na sua própria terra, subjugado diariamente à humilhação, à pobreza, à miséria, ao não-futuro, à morte. Mas a luta pela liberdade não pode socorrer-se de determinados meios. Enraizada entre todos, a política olho-por-olho, dente-por-dente, nunca foi, nem nunca será o caminho. Durante cinquenta anos gerações de palestinianos sobrevivem à custa de algo inacreditavelmente poderoso, e intrinsecamente humano: o ódio. Sucessivas gerações têm-se alimentado desse ódio como arma vital contra o inimigo, apenas para prolongar o sofrimento de todos e inviabilizar soluções justas e libertárias.

A meio do primeiro semestre deste ano, a TV do movimento Hamas (o governo da Autoridade Palestiniana até Julho, agora confinado a Gaza) iniciou um programa destinado às crianças, no mínimo suis generis. Nele surgia um rato em muito semelhante a Mickey Mouse (a estratégia da sedução), de seu nome Farfour. Este, em conjunto com a jovem apresentadora apelava à Jihad anti-sionista e a supremacia islâmica (a estratégia da mensagem) em linguagem tão conhecida como incrivelmente inocente na voz destes interlocutores. Do mesmo modo como quem ensina uma criança a contar. Crianças telefonavam tecendo palavras violentas que ouvimos de tantos adultos (a estratégia da fraternização). Entretanto, numa maior dramatização, a par dos intensos conflitos pró-guerra civil entre facções do Hamas e do Fatah, o querido Farfour foi capturado pelos serviços secretos israelitas, interrogado e sumariamente executado (a estratégia do inimigo). Tudo isto encenado. "Devemos dar graças ao nosso mártir Farfour, que sucumbiu sob o nosso inimigo sionista" informava a menina (a estratégia da vitimização).
Nascem e crescem milhares de crianças entre os escombros de uma sociedade votada ao ódio e à vingança. Como poderão eles fazer do seu futuro um horizonte de liberdade? Haverá hipótese de alcançar a paz num ambiente que, por sua culpa e do ocupante hebraico, apenas conhece a violência e a prisão? Crescerão como adolescentes que atiram pedras nas ruas contra os soldados, e tornar-se-ão militantes armados ou suicidas mártires. O ciclo repetir-se-á e a esperança de mudança nunca se poderá erguer. É o radicalismo em todas as suas variantes que determina o futuro destas crianças. A influência dos adultos sobre as novas gerações fá-los acreditar que apenas a luta armada é o caminho, o ódio uma arma poderosa, a morte a salvação. Não é isto que devemos ensinar às crianças, por mais justa que seja a luta do povo da Palestina.

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Aqsa TV
16 Abril: http://www.youtube.com/watch?v=jB4bKLnXPIQ
30 Abril: http://www.youtube.com/watch?v=2zSR2QnJ0Z4


CNN: Teaching kids to hate
http://www.youtube.com/watch?v=IbOHZp3Ru_4

Islamic militant group takes the Mickey
The Islamic militant group Hamas enlisted a familiar-looking rodent to spread its message of armed resistance. This giant mouse, now pulled from screens, had been preaching in a high-pitched squeak to kids on a popular TV show about fighting Israel.

2007-08-27

icon - Manifesto issue

Apple Keyboard



2007-08-03

Férias

2007-08-02

Africa as an investment

Diálogos




Diálogo sobre uma proposta de identidade, trabalhado sobre um conceito promissor e muito interessante, mas após a apresentação teve de ser adaptada aos gostos do cliente.
Como assimilar o que nos é pedido? Até onde a interferência? Como aceitar alterações opostas ao apresentado? Como é possível compreensões conceptuais tão diversas?


V:
Não consigo entender a falta de cultura visual de algumas pessoas. Em nada, mas nada está o que eu associo ao tema. Posso até admitir que as nossas primeiras propostas não fossem bem aquilo que o cliente afinal queria. Mas... desta forma?

F: Talvez tenhas razão, mas de uma série de ideias que fiz, o cliente rejeitou-as.
E no fundo caímos sempre no mesmo: Ou fazemos como o cliente quer e paga. Ou não fazemos o trabalho.
Infelizmente não me é possível ser selectivo em relação aos projectos.

V: Afinal, quem pode?

F: O mentor do projecto até só contou comigo para o design, por ter sido recomendado pela cliente.

V: Tenho pena, pois é um trabalho com imensa visibilidade. É bom dinheiro ao menos?

F: Infelizmente é um pouco sempre assim. Talvez é falta de tanga de vendedor para abrir os olhos aos clientes, o que leva a um gajo a "adaptar" a criação para poder vender o trabalho.

V: O dinheiro sabe bem, mas nestas circunstâncias parece que nos vendemos de forma suja. Trabalho é trabalho, e há que ser remunerado por isso. Mas o empenho poucas vezes é retribuido.

F: Trabalhar para o cliente ou para os clientes do cliente? Deviam ser duas situações uniformes. Infelizmente há muitos casos em que as diferenças são enormes.

V: Refiro-me ao empenho em trabalhar, sabendo que nos esforçamos para encontrar a solução certa.

F: O problema está na definição de "solução certa".

V: Ambíguo sempre mas, como falámos antes, bem apresentado/vendido sobrepõe-se à do cliente.

F: Solução certa para o criativo: a mais de acordo com o conceito e valores? A mais apelativa? A solução certa para o cliente/empresa é a solução económica?

V: Mas ambos são conciliáveis. O problema existe quando a mente não é suficientemente aberta ou compreensiva.

F: É a discussão entre o jogador de futebol e o dirigente desportivo. O jogador é o que está no campo e conhece as dificuldades, os adversários. O dirigente tem em mente a sustentabilidade do negócio-futebol.

V: E as tricas...

F: Podem estar no mesmo "campo", mas dificilmente falam a mesma linguagem.

V: No fundo é disso que se trata sempre: comunicação.

F: Sim, entre o criativo e o cliente. Acredito também que comunicação do projecto possa ser favorecida com uma estrutura gráfica apelativa. É isso que vou tentar fazer. Cada vez mais tento não dar importância em demasia aos logotipos. O grafismo, os textos e conceito, tudo deve estar bem coordenado ou de nada vale um bom logotipo. Aliás, os grafismos e as peças onde o logotipo está inserido devem comunicar por si só, tal como se o logotipo não existisse.
Por exemplo. Se vir só o logotipo da "Virgin" num fundo branco, acho-o super desactualizado. Agora, quando o vejo aplicado num site ou outra peça, já me agrada. Agrada-me a imagem que vejo, as cores, o tipo de letra, etc. Ou seja, admiro todo o conjunto e nunca um pormenor específico da peça, como o logotipo.
Ou seja, quando crio tento guardar parte dos cartuchos para os projectos pós-logotipo. Assim, o trabalho vai-se renovando, o cliente vai ficando mais espantado com os resultados obtidos ao longo do tempo. E, claro, motivo-me mais.

V: O logotipo por si, para além de difícil, nunca poderá definir toda a comunicação. Obviamente que a comunicação em si é dada pelas diversas peças delineadas. O conjunto definirá o conceito de forma mais ampla e original. Agora para vender um projecto, a apresentação do conceito deverá ser clara, apelativa, cativante. Mostrando todas as peças ou não de inicio caberá ao briefing, ou à relação com o cliente. A comunicação visual e oral são sempre elementos primordiais. Entregar uma proposta sem apresentação oral pode ser um ponto a desfavor do trabalho. Mas isso pode ser colmatado com um breve apresentação em flash.

F: Flash, talvez resultaria. Mas torna-se trabalhoso e dispendioso.
Mas acontece que há quem diga sempre: "Entendo perfeitamente o que queres dizer. Mas estava a pensar noutra coisa..."

V: Mas quando o cliente diz isso é porque:
1 - não sabe o que quer, afirmando-o
2 - não disse tudo o que queria dizer
3 - não se entendeu o que o cliente pediu

F: Concordo.

V: Imagina que é um concurso, ou é primeiro mostrado a uma pessoa dentro da empresa e não o "chefe", dificilmente reproduzirá o que lhe dissémos. Vantagens: apresentação clara, apelativa, cativante, sempre. Em qualquer altura.
Mas isto desta forma, claro que dependerá do tipo e forma de contacto com o cliente. Tal como na medicina, cada caso é um caso

F: Mas ao contrario da medicina, todos se julgam criativos, até o próprio cliente.

V: Verdade infelizmente.

2007-07-29

Porsche Museum



2007-07-28

2007-07-26

Lusofonia a (R)evolução



Está online uma short-version do excelente documentário Lusofonia a (R)evolução produzido pela Red Bull Music Academy em colaboração com a RTP (transmitido na RTP1 num sábado do mês passado), e com a usual óptima pós-produção e montagem da Subfilmes. Grande parte do conceito que defendo está aqui, numa linguagem única e de potencialidade imensa.

Para ler mais em:
http://www.myspace.com/lusofoniaarevolucao
http://www.danceplanet.com/modules/noticias/noticia.php?id=842


Sinopse
Está a afirmar-se em Lisboa uma geração de músicos, produtores e DJs que, atenta às mutações estéticas e tecnológicas na música, não deixa de pugnar por um traço distintivo herdado pela cultura de que fazem parte: a Lusófona. É esta que favorece a singularidade dos nossos artistas num contexto histórico em que a uniformização na criação ofusca a singularidade. Lusofonia, a (R)Evolução é um cartão de visita sobre a identidade musical Lusófona.

O movimento de músicos de Lisboa – de Sara Tavares, Lura, Chullage, Buraka Som Sistema ou Sam The Kid – emana características únicas: sejam ritmos, melodias, vocábulos que sintetizam através dos sons cinco séculos de história conjunta entre os territórios que hoje partilham o idioma Português.“Lusofonia, A (R)Evolução” está dividido em várias partes:

1. As Raízes da Fusão
A música funcionou como um meio de integração social desde o séc.XV - início da exploração marítima de Portugal. As trocas sociais e culturais fomentaram o aparecimento de géneros musicais tendo como base um entreposto de escravos, Cabo Verde. O saudoso Raul Indipwo revela uma visão atenta e credível sobre as ligações entre, por exemplo, Fado e Morna, numa óptica em tudo idêntica à de José Ramos Tinhorão, publicada no livro “Os Negros Em Portugal: Uma Presença Silenciosa” - que serviu de base bibliográfica a este segmento do documentário.

2. A canção é uma Arma
A música também desempenhou um papel preponderante nos países lusófonos, quando estes viviam sob regimes ditatoriais (em Portugal e Brasil) e coloniais (em África). O movimento brasileiro Tropicália nasceu neste contexto e artistas nacionais e dos PALOP usavam a música como um meio de consciencialização social.

3. O Boom dos Anos 80
Não apenas nasceu uma indústria discográfica no decénio 1980-1990, como também começaram a chegar músicos africanos a Lisboa iniciando-se um processo de intercâmbio – que daria poucos frutos nesta década.

4. A Nova Mestiçagem
Foi nos anos 90 que a ideia de lusofonia ganha uma nova vida graças a uma geração de música urbana, influenciada pelo hip hop. Filhos de imigrantes despontaram através da compilação “Rapública”; bandas como os Cool Hipnoise davam uma nova abordagem aos ritmos brasileiros; os Kussundolola promoviam um Reggae angolanizado e editoras como a Nylon pugnavam por um produto português feito por executantes lusófonos. Os anos 90 foram uma época de transformação mas uma fusão musical lusófona decorre no segundo milénio. “Talvez um dia quando falarem em Lusofonia não vão estar a falar só do Português, mas também de tudo o que isso derivou...”Chullage (Músico), in “Lusofonia, A (R)Evolução”

5. Sons em (R)Evolução
Depois de 2000 os fenómenos de cruzamento lusófono tornam-se por demais evidentes. Marcelo D2, no Brasil, cruza Samba com Hip Hop; Nigga Poison e Chullage dão ao crioulo uma nova roupagem; os Buraka Som Sistema pegam no Kuduro para criarem uma nova música de dança, lisboeta; Lura e Sara Tavares, ambas naturais de Lisboa, operam na world music, seja seguindo a tradição de Cabo Verde, no caso da primeira, seja amalgamando elementos, no caso da segunda.

2007-07-24

A 21st century catastrophe

MILK please




2007-07-17

Vanity Fair Africa

The 21 people who put their famous faces to work for this issue say it all. Annie Leibovitz paired them up on 20 different covers—shout-outs for the challenge, the promise, and the future of Africa.

A Vanity Fair lançou uma edição especial sobre África, tendo Bono, como no The Independent, sido o Guest-Editor. Colocar o assunto em 20 capas diferentes foi pôr na imprensa - principalmente a americana - um projecto editorial de grande envergadura, pela emergência da situação, pela necessidade de intervenção, por uma nova atitude política.

Fotos de Annie Leibovitz a 21 personalidades empenhadas (Bush também?) em salvar África, como Barack Obama, Don Cheadle, Oprah, Desmond Tutu e a Rainha Rania da Jordânia.





2007-07-16

Lá vai Lisboa

Cremos todos que ficou demonstrado como, nestas eleições, a política se afastou -ainda - mais do interesse, do entusiasmo dos cidadãos. A elevada abstenção vai para além das férias, do sol e praia (onde?), é sintoma evidente do descrédito no sistema, no modo como estas intercalares se processaram, na proliferação de candidatos como galos à procura de poleiros. E têm razão os lisboetas, mas arriscam-se a dar de barato a governação de uma cidade para depois se queixarem novamente ou mais ainda. É um voto de castigo para com o sistema de partidos, para com (certos) candidatos, mas também, por causa de outros. Um voto de castigo também para a democracia, onde má gestão, suspeição e processos judiciais agora contam (ou se desvalorizam) para o currículo de um político. Vimos em Lisboa, com o resultado de Carmona Rodrigues, aspectos medíocres de tantas outras Câmaras deste país. O que se reflecte por via do sistema administrativo das cidades. Há muito que defendo a gestão das autarquias pelo partido vencedor ao modo de uma governação única (como nos EUA, no Reino Unido) ao contrário de poderes vários, obrigando a consensos, úteis sim, mas factores de inoperância e atraso. É grande a lista de autarcas dinossauros (a nova lei vai exterminá-los) e mandatos sucessivos de vereadores multicolores, onde trabalho visível muitas vezes não existe, onde assembleias municipais são tribunas de discussão democrática sim, mas impeditivas - juntamente com o próprio poder - de projectos mais exequíveis para as cidades e os seus concelhos. A execução eficaz dá-se mais pela ousadia, originalidade e energia de determinados presidentes de Câmara (veja-se o exemplo de Óbidos) do que pelos mecanismos legais que hoje existem, que tanto prendem quem quer trabalhar para os eleitores, como "liberta" outros que não se importam de os prejudicar e possuem o poder pelo poder.

Mas também assistimos à arrogância subtil e fria. Novamente este PS demonstra falta de cultura democrática e ética política ao interromper, como nas Presidenciais com Manuel Alegre, o discurso de Helena Roseta. Antes, os vencedores eram os últimos a falar, com respeito e paciência após todos os outros se pronunciarem. Carmona fez o mesmo a António Costa, mas saiu-se quase como o verdadeiro vencedor da noite.
Já poucos se mobilizam pela política, e muito menos se festejam por ela. Até é ridículo, confesso. Multidões a gritar o nome de um partido ou de um candidato como se fosse um santo, ou Deus. Por isso vimos também nesta noite eleitoral a superficialização e a manipulação. Pelos actos e palavras de Costa, mas acima de tudo pelo povo a festejar que era tão somente um grupo de idosos de Mafra que não sabiam ao que iam. Triste.

Helena Roseta obteve um óptimo resultado - acima das sondagens - onde vemos que a política, para além de ideias e partidos é constituída por cidadãos. Integridade e ideias serão sempre os principais factores de confiança e de vitória.

Cabe agora, nestes dois anos, aos eleitos trabalharem para o bem da cidade. É uma etapa dificil mas muito importante para os anos que se seguem. Veremos se afinal estarão à altura dos seus compromissos e das nossas exigências.

2007-07-13

Eu amei Lisboa como nunca tinha amado uma cidade

Eu amei-te como nunca amei outra. Foste uma amante louca que abandonei, mas cuja paixão perdura. Anos me levam que não te esquecerei. Sonhos me tragam até ti, que longe demais fujo sem razão para lugar nenhum.



O que queremos de facto, de bom, para as cidades? Como devemos vivê-las? Qual o futuro sustentável para todos aqueles que trabalham e habitam a urbe? Nos últimos anos estas e outras questões estiveram sempre longe da cabeça e das acções de quem governou Lisboa. E se pensarmos bem, a gravidade da presente situação é "apenas" mais um capítulo do desrespeito da cidadania em todos os aspectos da sua razão etimológica e da actualidade da sua importância.

Veículos e betão têm dominado a cena lisboeta, denegrindo a sua qualidade de vida, a sua sustentabilidade, a sua imagem, ao que se ligam uma gestão ruinosa e uma crescente falta de ética e cidadania. Entre 1994 e 1999 vivi numa Lisboa excitante, dinâmica, sedutora (os tempos de estudante universitário permitiam diversos modos de viver e sentir a cidade), mas não sem os seus problemas e pontos negativos. Tendo a sorte de viver mesmo no centro, a confusão diária era suportável e até mesmo curiosa para quem havia vivido a infância em Londres e depois na imensa pacataz de uma cidade como Caldas da Rainha. A descoberta de uma cidade única, linda e luminosa, com um imenso potencial de desenvolvimento foi sempre, depois de partir, uma das melhores recordações que ficaram. Temos as cidades-desejo e as cidades-paixão e, as cidades-ódio e as cidades-desprezo. Lisboa tem na última década atravessado todas estas designações, e ela não merece isto. Eu amei Lisboa como nunca tinha amado uma cidade, e quero continuar a amá-la e pensar que melhores dias virão. Assim como não merece a barreira que é a APL. Lisboa está bloqueada a partir do rio que é seu. Arrogantemente, esta estranha empresa pública mas de peculiar autonomia, é como um município dentro de um município. Há anos ouço tantos contra o Porto de Lisboa e nenhuns para resolver o assunto.

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Todos sabemos o que se passou. Culpamos Santana e Carmona, mas também deveremos responsabilizar outros presentes na Câmara que em nada contribuíram para encontrar soluções ou somente desafiar o desvario. Restou-nos José Sá Fernandes, cavaleiro solitário (pela) da cidade, o único que soube, desde sempre, mesmo antes de ser vereador, ter uma posição e atitude clara em favor da capital e dos lisboetas.

É com incredulidade que vejo como a vitimização santanista fez escola e como isso está inacreditavelmente a render votos. Vejam-se as sondagens. O ex-Presidente Carmona Rodrigues é o (último) principal responsável pelo estado que chegou Lisboa, e considero uma enorme lata a sua recandidatura, alicerçada num projecto independente, como se isso fosse factor que o ilibe de tudo o que de errado aconteceu, em desvínculo ao partido que o apoiou como se de lá tivesse vindo todo o mal para uma correcta governação da cidade. Assim como é absolutamente inverosímel a candidatura PSD, em que Fernando Negrão surge como um salvador judiciário, igualmente longe das actividades que o seu partido teve ao longo de seis anos.

Desconfiança, embora desejo de vitória sobre o PSD e Carmona, é o que sinto da candidatura de António Costa. O PS procurou claramente meter as mãos no assunto de modo a terminar de vez com a errática liderança da cidade. E é disto que mais se ouve falar do ex-ministro - liderança. Tem toda a razão, terá de haver uma liderança clara e objectiva na câmara, e António Costa é homem para isso. Mas não haverá liderança sem um projecto exequível e verdadeiramente centrado em Lisboa, por Lisboa, para Lisboa. No fim de contas o que precisamos é de um Projecto, mas um bom projecto. Tirar o aeroporto da Portela (uma discussão imensa que não vou agora ter) é o primeiro ponto para eliminar esse ideal. O trunfo poderá ser o arquitecto Manuel Salgado, pois para além dos enormes problemas financeiros e administrativos da capital, há o factor urbanismo que importa dedicar especial atenção, outro factor que tanto influencia todos aqueles que por Lisboa passam.

E daí chego à candidatura de Helena Roseta. Vivesse eu em Lisboa e seria nela o meu voto. Porquê? Para além da personalidade idealista e combativa que possui e que sempre admirei, para além de ser Presidente da Ordem dos Arquitectos - onde a sua liderança deu outra visibilidade, respeito e importância à profissão - Helena Roseta tem ideias e projectos que concordo e partilho. Lisboa precisa de um projecto de intervenção imediata para estes curtos dois anos, planos objectivos e concretizadores para resolver pequenos grandes enfermidades que grassam pela capital. Mas também pelo ideal de mobilização e de cidadania, características novas para a política e igualmente para a sociedade. Lisboa precisa dos novos conceitos de urbanismo e convivência, espaços públicos e espaços verdes para todos e para a cidade. Lisboa precisa de qualidade de vida. Lisboa precisa de pessoas que a habitem.



A reabilitação da cidade como um todo passa por novas políticas de habitação, mais expeditas e inclusivas. Reabilitar e rehabitar as dezenas de milhares de fogos vazios em Lisboa é uma prioridade absoluta. Mais do que de grandes bairros novos, a cidade precisa de "acupunctura urbana", ou seja, de intervenções pequenas e estratégicas.

Lisboa precisa de um projecto que a reabilite urbanamente e socialmente devolvendo aos munícipes o uso e fruição do espaço público aprazível e convidativo. A gestão urbanística tem de deixar de se subordinar aos interesse privados de alguns e passar a ser determinada pelo interesse comum e pela transparência de procedimentos e decisões.

Assim como a qualidade da vida urbana está cada vez mais ligada às oportunidades de desenvolvimento educativo e social que a cidade oferece aos seus habitantes. De certo modo, o novo modelo social europeu tem de se refundar à escala da cidade.

Lisboa precisa de um quotidiano mais fácil, onde os transportes públicos sejam mais acessíveis e eficientes, onde as pessoas com deficiência não sejam cidadãos de segunda, onde haja tempo e lugar para a vida familiar e para os amigos, onde haja menor solidão e onde seja agradável viver e conviver não é uma utopia.

As cidades que têm sucesso no contexto da globalização são as que tiram partido da sua história, do seu património, da vitalidade da sua cultura e se abrem à inovação científica, tecnológica, empresarial e social.

Lisboa urge possuir medidas necessárias para melhorar a qualidade ambiental de Lisboa, tendo em conta o conceito actual de sustentabilidade urbana, que envolve o ambiente, a qualidade de vida, a eficiência económica e a cidadania.

A participação está na ordem do dia. Os sistemas de governo local têm de incorporar a noção de governança, sinónimo de bom governo com o envolvimento dos interessados. Os métodos participativos têm de estar presentes em todas as fases do governo local. A descentralização para as freguesias é indissociável da participação.

Os novos desafios que se colocam a Lisboa exigem uma maior eficiência dos seus serviços municipais, o que implica processos de modernização, mobilização e racionalização de recursos humanos e técnicos que são urgentes. A mudança passa inevitavelmente por aqui.

Lisboa mudou. Mudaram os hábitos e ritmos de vida. Mudaram as redes de relações e os padrões familiares. Os novos lisboetas que nos demandam trazem consigo novas visões e novos problemas. É uma oportunidade histórica para uma cidade que está em perda demográfica.