2010-09-30

Diálogo sobre a triste evidência

I: Então lá nos arranjaram maneira de continuar a pagar as inúmeras mordomias do chamado estado social.

V: Incompetência de uns para pagarmos todos.

I: Podes crer. É tão fácil governar este país. Pode-se fazer tudo, se faltar dinheiro, aumenta-se os impostos e volta-se a aumentar os impostos. Não há maneira de criminalizar esta gente. Responsabilidade política não chega.

V: À responsabilidade política não é imputável responsabilidade judicial.

I: Pois o problema é esse.

V: A desresponsabilização dos actos leva a qualquer tipo de governação. Incompetência equivale a muita coisa - mas politicamente corresponde também a falta de seriedade.

I: Todos lesam o Estado em milhões que provocam pobreza e dificuldades. E a consequência? Talvez não seja reeleito. O problema reside na base: este sistema ou dá uma volta de 180 graus ou daqui a 4 ou 5 anos estamos pior e com medidas piores.

V: E toda a gente sabe disso há 10 anos. É certo que gerir um Estado não é como gerir uma empresa - a brutalidade de escala assim nos engole - mas os princípios de gestão são os mesmos, e sendo o dinheiro de todos, mais rigor se obriga a ter, com bom senso e sentido de Estado.

I: É verdade, a complexidade e dimensão do Estado relativiza análises simplistas. Mas pode-se fazer uma comparação básica: se na nossa casa começarmos a recorrer ao crédito para ir ao supermercado e para comprar roupa, ou mudamos de vida ou acabamos na miséria. O Estado neste momento está assim, já necessita de financiamento para pagar os ordenados da função pública. Isto não pode acabar bem, só quem é muito burro não consegue ver isto.

V: Como milhares de famílias estão hoje aflitas, desde os EUA até cá. Actos inconscientes provocaram ilusões inconsequentes.

I: É mesmo. Vivemos no mundo das ilusões e são os Estados a fomentar essa ilusão, E não são estas medidas que vão resolver nada. É muito mais profundo do que aumentar o IVA até aos 50%.

V: Existe muito mais despesa do Estado para cortar, como em tantos institutos que existem. É frase feita que "o poder corrompe", eu acrescento que "o poder alucina". Para o Governo tudo sempre esteve e estará bem.
Lembras-te do "óasis" do ministro de Cavaco, Braga de Macedo?

I: Se lembro. E a culpa ao contrário do que querem fazer crer não é só deste governo. Vem de há 15 ou 20 anos a esta parte. Os princípios são os mesmos. Somos de facto um país mais moderno que há 20 anos, mas com o dinheiro dos outros.

V: Que não consegue reproduzir a sua própria riqueza em quantidade suficiente.

I: Andamos a comprar roupa de marca a crédito para estarmos na moda.

V: Eu não.

I: Andamos - este país.

V: Nunca tive cartão de crédito, e roupas de marca compro nos saldos. É esta sensação de incompreensão de "eu n contribui para isto, mas tenho de pagar!?"

I: Sentes tu e toda a gente séria que trabalha com afinco e paga os seus impostos. Quase tudo o que está feito é na base da aparência. O modo de vida dos portugueses vai ser pago mais à frente e não temos capacidade para o fazer.

V: Não se entende. É quase sangue, suor e lágrimas e cada ano que passa é pior que o anterior.

I: É verdade. Estão sempre a pedir sacrifícios e paciência e já ninguém consegue perceber com que objectivo.

V: Uma vez li que como forma de luta seria não pagar os impostos - mas isso seria tão trágico como anarquista.

I: Parece aquelas casas que entram em obras com os moradores lá dentro e que pensam: isto é uma chatice, ficamos com a vida ao contrário, mas quando a obra acabar esta vai ser a casa que sempre sonhámos ter. O problema é esta "obra" não ter fim.

V: Continuo a pensar que uma forma de protesto - para além de sair às ruas, veja-se o caso dos franceses - seria incentivar e tornar real a ficção de José Saramago em Ensaio sobre a Lucidez - o voto maciço em branco.

I: Sim há muitos anos que defendo isso. Aliás sempre o pratiquei. Mas esta gente é tão sem vergonha que acho que nem assim tirariam conclusões. A sério, estou mesmo desiludido com este país. Com as supostas elites que são medíocres e com a generalidade das pessoas que são uns acomodados.

V: Sempre votei em quem acreditava merecer um voto útil. A desilusão com este país é um dos grandes males auto-infligidos. Verdade comunitária, a indignação leva-nos à resignação pelo facto de as alterações não acontecerem. Acabamos por desistir por ser mais fácil, porque difícil o suficiente é resistir na nossa luta diária para nos sustentarmos.

I: Mas observa: em todas as grandes convulsões históricas em quase todas as sociedades havia alguém ou alguns que tinham um objectivo (discutível na sua génese, em grande parte dos casos) mas que lideravam. Nada disso existe nos dias de hoje. A miséria chegou até aí.

V: Se te recordas dos últimos textos que escrevi sobre esta "governação" e "este" país, em A insustentável situação do ser, A estratégia da anestesia e Dias de Abril procuro demonstrar tudo isso.

I: Eu sei, eu li.

V: É um cliché, mas absoluta verdade - estamos mergulhados numa crise de ideias e de valores.

I: Eu diria que estamos fechados num copo virado ao contrário.

V: Essa é uma metáfora extraordinária. Muito bom.

I: Não vejo como voltar a pôr o copo direito. Não vejo mesmo.

V: Apetece fugir, mas não é sempre uma opção viável.

I: Não, não é.
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2010-09-28

30



On this day, thirty years ago, a flight marked my departure. A physical one at least. Despite growing up in different circumstances I could never forget those early years, and have tried ever since to keep some kind of connection.
I often think "what if I never left?". Who and how would I be? Other friends, other loves, other experiences for sure. Would I be better or the same? Would I become a designer anyway? And what about the lives of those I would never encounter if I had remained in London? I don't look back with a sense of nostalgia or loss. Ok, maybe I do. But without denying or despising my life today, I can't help wondering how everything would be so much different. Only a parallel universe could answer my questions.

Neste dia, há trinta anos atrás, um vôo marcou a minha partida de Londres. Física pelo menos. Apesar de crescer sob circunstâncias muito diferentes, nunca poderia esquecer aqueles primeiros anos, e tenho mantido desde então alguma forma de contacto, de conexão.
Por vezes pergunto-me "e se nunca tivesse ido embora?". Quem e como seria eu? Outros amigos, outros amores, outras experiências seguramente. Seria melhor ou igual? Tornar-me-ia designer à mesma? E aqueles que aqui se cruzaram comigo, como seriam as suas vidas? Não olho para trás com nostalgia ou sentimento de perca. Ok, talvez. Mas sem alguma vez negar ou desprezar a minha vida hoje, é inevitável imaginar como tudo seria tão diferente. Apenas um universo paralelo poderia responder às minhas questões.
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2010-09-24

Pink Nounou



"O fantástico não está fora do real,
mas no sítio do real que de tão visível não se vê"

Vergílio Ferreira


Pink Nounou é como uma floresta mágica. É um local fantástico onde o mundo dos sonhos toma o lugar que lhe cabe por direito. E está mesmo à nossa frente. Entramos para lá do caminho de tijolos amarelos e encontramos bonecos que nos encantam, fazendo-nos regressar à beleza da inocência, ao florir da felicidade, ao suave abraço das manhãs que antecedem o verão.
Pink Nounou é um maravilhoso universo criativo da designer Ana Fernandes, que muito me alegra ter como muito estimada amiga de longa data.
Entrem neste mundo novo, há muito mais para conhecer.



Pink Nounou is just like a magic forest. It's a fantastic land where the world of dreams takes its rightful place. And it stands right in front of us. We go beyond the yellow brick road and find these charming loving dolls that take us back to the beauty of innocence, to the blossom of happiness, into the gentle embrace of those mornings before summer.
Pink Nounou is a wonderful creative universe by designer Ana Fernandes, who I gladly have as a long dearing friend.
Walk into this new world, there's much more to come.

2010-09-14

Rebranding Britain



September issue of Monocle magazine brings an interesting look
upon UK's (new possible) brand.

A edição de Setembro da revista Monocle apresenta uma abordagem
interessante sobre um rebrand da marca Reino Unido.
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2010-09-10

Jaime Lerner


Jaime Lerner é um arquitecto brasileiro de renome, particularmente conhecido pelo seu inovador trabalho enquanto prefeito de Curitiba que a tornou na cidade "Capital Verde do Brasil". Foi foi governador do Estado do Paraná e, mantém-se sempre como activo promotor da sustentabilidade das cidades e das comunidades que nelas vivem.
Lerner é um caso extraordinário de ideias claras e eficazes, como um criativo estratega que soube ser um político visionário e inteligente, e que muitos deveriam seguir o seu legado e exemplo.
Jaime Lerner estará presente hoje na conferência GreenFest em Lisboa.



Aqui, a sua intervenção no TED, em Março 2007

2010-09-07

Objectified



"Objectified" is a remarkable documentary about our relationship with objects, its design, their designers and the design process. A glance at creativity and function, observation and environment, expression and emotion, identity and consumption.
Interviews with Paola Antonelli (MoMA), Chris Bangle (BMW Group, Munich), Ronan & Erwan Bouroullec, Jonathan Ive (Apple), David Kelley and Bill Moggridge (IDEO), Marc Newson (London/Paris), Dieter Rams, Karim Rashid, Rob Walker (New York Times Magazine), and many others
Produced and directed by Gary Hustwit, "Objectified" is the second part of a three-film “design trilogy”, being the first one "Helvetica".

2010-09-06

Broken world


Photo: Mohammad Sajjad/AP


This is a picture of a broken world, so powerful and so painfull. Its graphic monstrosity is yet another reminder of a reality that so many of us tend do forget, or even despise. These children from flodded Pakistan, first shown on The Guardian, are an offense to every thing one can hold as sacred. It brings everlasting questions of why and what for; how can one help, understand the meaning of things, cope or accept facts and events of continued amounts of unfairness, injustice, disregard, selfishness. Every drop of sorrow and outrage that anyone may feel is nothing - nothing - compared to what these and other victims face every day, worldwide, with hunger, disease, war, fear, without home and hope. We share the same world, but we still live worlds apart...


Esta é uma imagem de um mundo destroçado, tão poderosamente dolorosa. O seu conteudo de tal monstruosidade pornográfica é (mais) uma demonstração de uma realidade que muitos de nós tentam esquecer, ou mesmo desprezar. Estas crianças de um Paquistão inundado (primeiro mostrada no jornal britânico The Guardian) são uma ofensa a tudo o que podemos considerar de sagrado. Traz-nos intermináveis perguntas de porquê e para quê; como podemos ajudar, entender a razão das coisas, pactuar ou aceitar factos e eventos de imensa injustiça, desrespeito e egoísmo. Cada pingo de tristeza e ultraje que qualquer um de nós possa sentir é nada - nada - comparado com o que estas e outras vítimas enfrentam todos os dias, por todo o mundo, com fome, doença, guerra, medo, sem casa e sem esperança. Partilhamos o mesmo mundo, mas continuamos a mundos de distância...
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2010-09-02

Sherlock