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2011-11-21
2011-02-17
2011-02-11
Renovar a Democracia

Democracia etimologicamente significa o poder do povo, e como tal, enquanto sistema político, não sendo perfeito, é aquele que melhor garante os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Como tudo na vida é política, tal sistema nunca é garantido por completo, pelo que cabe aos mesmos cidadãos velar pela execução, manutenção e melhoramento da democracia. Impende sobre os cidadãos o dever de intervenção e defesa desses tão intrínsecos valores, tal como objectivamente promover a ética, a responsabilidade e a defesa do bem comum. Porque é possível fazer melhor.
Por isso criámos o blog Renovar a Democracia, um espaço dedicado a todos os que no seu quotidiano, sentem a necessidade de reflectir sobre aquilo que os rodeia. Sobretudo em matérias como a condução do destino colectivo, a vida em sociedade e a necessidade de mudança que o presente teima em mostrar. É um espaço que procura a reflexão ética e responsável, independentemente da sua origem ideológica ou social.
Não fomos por arrasto de movimentos que entretanto foram surgindo. Trata-se de um projecto cuja idealização data alguns meses e que viu finalmente inaugurado o seu espaço público.
Porque achamos que a mudança começa em cada um de nós, desafiamos todos os que sentem essa necessidade de mudança a contribuir na procura de soluções que nos indiquem um futuro mais justo. Pensamos que a crítica das acções e a denúncia dos problema são relevantes, mas mais importante é contribuir com opiniões e propostas que possam ter efeito no decurso das nossas vidas. A vida de cada um de nós e a organização da sociedade é demasiado importante para só pensarmos profundamente sobre elas quando se marcam eleições. Ou julgar que apenas a alguns compete. Porque para contrariar um tempo de degradação é necessário um tempo de mudança.
Não nos movemos pela demagogia nem pelo populismo, não somos apolíticos quando tudo na verdade é objecto da política. Somos democratas e cidadãos que crêem na racionalidade e na verdade, na transparência e na pluralidade, no debate são de ideias construtivas e progressistas.
A Democracia é um projecto em curso, em continuada reformulação. A Democracia pode ser renovada. Defendemos a transformação do sistema: pela reforma da Constituição na diferenciação dos objectivos, poderes, checks and balances e responsabilidades partilhadas; pela reformulação do sistema eleitoral e a representatividade dos partidos; pela reorganização territorial; pela reafirmação da ética e valores democráticos e republicanos; pela fraternidade e o respeito da individualidade; pela justiça e a igualdade.
A luta por um amanhã brilhante está nas mãos de cada um. A audácia não pode sucumbir ao medo que nos comprime. A esperança num futuro sorridente é energia pura que nos fará vencer. Nenhum caminho é fácil de trilhar, mas é possível chegar ao fim. É possível acreditar. O tempo para mudar é agora, chegou o momento da lucidez. Por uma Democracia renovada, vamos criar a mudança.
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Victor Barreiras e Ivo Gomes
11.02.2011
The day of victory and joy
Amel Pain / EPA
After 18 days of struggle and democratic urge for change, Mubarak at lasts resigns as President of Egypt.
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Depois de 18 dias de luta e uma urgência democrática para a mudança, Mubarak finalmente demite-se.
Hoje é um dia de vitória, de alegria. Vitória da razão e do povo. Uma vitória para o Egipto. Um evento histórico que é um farol de esperança, significando que a liberdade e a justiça podem ser alcançadas. Que um novo começo é um amanhã brilhante.
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2011-01-26
Reflexão pós-presidencial
1.
Portugal encavacou-se. Rejeitou uma proposta alegre. Não assumiu uma alternativa nobre. Tolerou (mais) um xico comunista. Engraçou-se com um coelho atrevido à moda da Madeira. Desprezou um defensor de nada para além de si próprio.
O país aprofundou a distância à política. Aumentou o desprezo aos políticos. Definiu-os longe da vista e longe do coração.
Os níveis de abstenção constragem. A não-participação do eleitorado tem várias culpas por distribuir, sendo a primeira dos próprios políticos e do sistema político vigente.
O aumento da quantidade de votos em branco (191.159) é um prenúncio objectivo de um protesto claro que parece finalmente modificar, ao olhos de cada vez mais gente, a real importância política de tal acção.
Este desfasamento crescente poderia ter tido um primeiro combate no discurso de vitória.
Mas não teve.
Assistimos porém, à prova oral de um presidente que de alegre e nobre nada possui. Perdidas duas excelentes oportunidades para ser inspirador, positivo, magnânimo até, mas foram substituídas por palavras de rancor e azedume, negatividade e vitimização, demagogia e populismo barato. Cavaco Silva pode oficialmente ser o Presidente de Portugal, mas não é decidamente - quer pelos votos (apenas 2,2 milhões) quer pelo conteudo demonstrado - o presidente de todos os portugueses. Esperará ele pela tomada de posse para comunicar esperança e mobilização? Conseguirá ele, lesado que está pelas polémicas recentes, um capital de confiança nacional que o país carece? A vir, que duvido, virá tarde e de forma inconsequente. Cavaco Silva é o prolongamento institucional da (podre) estabilidade vigente, mas promoveu a divisão e o afastamento, quando Portugal precisa do contrário.
2.
Tudo continuará num marasmo hipócrita. O país permanecerá encerrado em incertezas do tamanho de um rectângulo de 92 mil km2. Apesar da luta, do altruísmo e do estoicismo de muitos portugueses, o país prossegue, hoje como ontem, num caminho de cabras ladeado de campos abandonados e florestas disformes, sem meta e sem rumo, à espera de uma qualquer queda fatal. Somos um navio ancorado com correntes corrompidas, preso a equívocos, incapaz de flutuar pelos buracos no casco. O que nos impede de renovar, regenerar e partir de novo são as mesmas nulas políticas sem ideias que ano após ano nos cobrem de uma imobilizadora camada de ferrugem e fungo, diminuindo a energia individual e a beleza identitária colectiva de uma nação única.
3.
Mas estas eleições provaram que certas derrotas, também expectáveis, serão plataforma adequada para repensar estratégias. A (real) consequência delas estará por vir.
O resultado eleitoral de Manuel Alegre provou a essência de um candidatura construída de forma errada.
4.
A independência de Fernando Nobre foi a segunda grande vitória. A candidatura de uma alternativa da cidadania e da ética tiveram uma expressão contundente, com potencial de crescimento na proporção futura do descontamento e das propostas inteligentes e mobilizadoras que se apresentarem. Fernando Nobre foi um rosto livre de que a urgência de mudar o estado das coisas multiplica a vontade de participar.
5.
O caminho seguinte é provar que as ideias e a seriedade para mudar o sistema actual têm força suficiente para melhorar Portugal. As etapas do futuro próximo serão intervir e abrir o corpo à luta. Lançar ideias e propôr as mudanças. Debater alternativas e agir para melhorar.
Os valores e os princípios de liberdade, fraternidade, igualdade e justiça não podem sucumbir perante a passividade ou na falsa expectativa num sistema que já não corresponde à realidade e não responde aos desafios actuais.
Tal como o Presidente Barack Obama disse ontem no Discurso do Estado da União: "O futuro é nosso para vencer. Mas para lá chegar, não podemos ficar parados".
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Portugal encavacou-se. Rejeitou uma proposta alegre. Não assumiu uma alternativa nobre. Tolerou (mais) um xico comunista. Engraçou-se com um coelho atrevido à moda da Madeira. Desprezou um defensor de nada para além de si próprio.
O país aprofundou a distância à política. Aumentou o desprezo aos políticos. Definiu-os longe da vista e longe do coração.
Os níveis de abstenção constragem. A não-participação do eleitorado tem várias culpas por distribuir, sendo a primeira dos próprios políticos e do sistema político vigente.
O aumento da quantidade de votos em branco (191.159) é um prenúncio objectivo de um protesto claro que parece finalmente modificar, ao olhos de cada vez mais gente, a real importância política de tal acção.
Este desfasamento crescente poderia ter tido um primeiro combate no discurso de vitória.
Mas não teve.
Assistimos porém, à prova oral de um presidente que de alegre e nobre nada possui. Perdidas duas excelentes oportunidades para ser inspirador, positivo, magnânimo até, mas foram substituídas por palavras de rancor e azedume, negatividade e vitimização, demagogia e populismo barato. Cavaco Silva pode oficialmente ser o Presidente de Portugal, mas não é decidamente - quer pelos votos (apenas 2,2 milhões) quer pelo conteudo demonstrado - o presidente de todos os portugueses. Esperará ele pela tomada de posse para comunicar esperança e mobilização? Conseguirá ele, lesado que está pelas polémicas recentes, um capital de confiança nacional que o país carece? A vir, que duvido, virá tarde e de forma inconsequente. Cavaco Silva é o prolongamento institucional da (podre) estabilidade vigente, mas promoveu a divisão e o afastamento, quando Portugal precisa do contrário.
2.
Tudo continuará num marasmo hipócrita. O país permanecerá encerrado em incertezas do tamanho de um rectângulo de 92 mil km2. Apesar da luta, do altruísmo e do estoicismo de muitos portugueses, o país prossegue, hoje como ontem, num caminho de cabras ladeado de campos abandonados e florestas disformes, sem meta e sem rumo, à espera de uma qualquer queda fatal. Somos um navio ancorado com correntes corrompidas, preso a equívocos, incapaz de flutuar pelos buracos no casco. O que nos impede de renovar, regenerar e partir de novo são as mesmas nulas políticas sem ideias que ano após ano nos cobrem de uma imobilizadora camada de ferrugem e fungo, diminuindo a energia individual e a beleza identitária colectiva de uma nação única.
3.
Mas estas eleições provaram que certas derrotas, também expectáveis, serão plataforma adequada para repensar estratégias. A (real) consequência delas estará por vir.
O resultado eleitoral de Manuel Alegre provou a essência de um candidatura construída de forma errada.
4.
A independência de Fernando Nobre foi a segunda grande vitória. A candidatura de uma alternativa da cidadania e da ética tiveram uma expressão contundente, com potencial de crescimento na proporção futura do descontamento e das propostas inteligentes e mobilizadoras que se apresentarem. Fernando Nobre foi um rosto livre de que a urgência de mudar o estado das coisas multiplica a vontade de participar.
5.
O caminho seguinte é provar que as ideias e a seriedade para mudar o sistema actual têm força suficiente para melhorar Portugal. As etapas do futuro próximo serão intervir e abrir o corpo à luta. Lançar ideias e propôr as mudanças. Debater alternativas e agir para melhorar.
Os valores e os princípios de liberdade, fraternidade, igualdade e justiça não podem sucumbir perante a passividade ou na falsa expectativa num sistema que já não corresponde à realidade e não responde aos desafios actuais.
Tal como o Presidente Barack Obama disse ontem no Discurso do Estado da União: "O futuro é nosso para vencer. Mas para lá chegar, não podemos ficar parados".
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2011-01-21
Crónicas de uma reflexão presidencial - III
Esta campanha eleitoral não ficará para a história. Um presidente-candidato que nada comenta e cinco opositores que barafustam. Pairou um conclave sobre o BPN, a crise e o FMI primeiro, e depois, entre disparates, enganos e parangonas paternalistas ignoraram-se eventuais ideias, perdendo-se oportunidades de discussão entre brumas mediáticas sem conteudo relevante.
A cumprir-se o resultado das sondagens, domingo não passará de um mero acto referendário. Contudo, a haver segunda volta, tudo mudará. E é aí que o desafio existe. Difícil sim, ainda para mais quando PR e Governo, por "tradição" da democracia portuguesa, são contrapoder um do outro. Mas qualquer que seja o vencedor, poderá o Presidente da República funcionar, em concreto, como um contrapoder?
A dictomia política esquerda-direita, ao contrário do que muitos afirmam, não morreu. A sanidade do confronto ideológico e democrático viverá enquanto visões diferentes e alternativas da realidade coexistirem na sociedade. O problema surge quando a Esquerda incorre no habitual erro da multiplicação de candidaturas, fugindo a um denomindador comum, perdendo capacidades afirmativas (ao contrário da Direita) para definir um elemento federador da pluralidade deste campo político. Uma hipótese vencedora é substituída por redutoras vitórias de Pirro, algumas tão narcísicas quanto ridículas. O pragmatismo perde lugar para a demagogia. O ruído dos candidatos dá lugar ao silêncio dos eleitores. Fica tudo à espera de ganhar o seu quinhão, na esperança (vã) de forçar uma segunda volta, aí sim "federadora".
Repugna-me um pouco o voto para aumentar quotas de possibilidades. O voto no menos mau pode ser solução atraente, mas carece sempre de verdade e falta de livre escolha.
Cabe decidir em consciência, em liberdade. Agir por aquilo em que acreditamos, pelas nossas convicções. Tomar uma posição e uma acção responsável pela nossa escolha, no respeito da nossa integridade individual, e pela ideia de país e de futuro.
No fundo, para o PS de Sócrates até é preferível que ganhe Cavaco, pois Alegre, seria uma pedra no seu sapato. Este governo cairá mais cedo ou mais tarde e o próximo PM será Pedro Passos Coelho, pelo que o aspecto de um contrapoder, seja Cavaco ou Alegre, funcionaria de modos muito diversos.
Estas eleições são mais importantes que aparentam. O que nos comprime continuará a intensificar-se na segunda-feira, e no futuro próximo alterações sociais e políticas são expectáveis. Com isso em vista, o que o país precisa em Belém, afugentando-me o máximo dos clichés, é isenção, imparcialidade, integridade. A questão fundamenta-se em quem poderá corresponder, neste contexto, para além disso.
Porque um Presidente não pode ser vulnerável, mudo, discreto. Um Presidente não deve ser serôdio, inconsequente, falso.
O mais alto magistrado da nação deve ir além da razão e do pragmatismo.
O Presidente da República deve ser inspirador, enérgico, convicto, dialogante, livre, humanista. Um PR não deverá cruzar os braços face à (in)justiça, à errância, ao desvario. O Presidente deve apelar à cidadania, ao sentido de dever e comunidade, devolver a esperança e mobilizar para o futuro. Promover o patriotismo e a identidade. O Presidente da República deve defender o bem comum, a democracia universalista, promover a ética social e política.
Porque manter as coisas como estão na esperança que algo aconteça é um engodo.
Mudar por mudar não é opção.
Mesmo que não saia vencedor (desta vez), é preciso acreditar numa visão de futuro.
Escolher pela mudança é uma acção estratégica.
A cumprir-se o resultado das sondagens, domingo não passará de um mero acto referendário. Contudo, a haver segunda volta, tudo mudará. E é aí que o desafio existe. Difícil sim, ainda para mais quando PR e Governo, por "tradição" da democracia portuguesa, são contrapoder um do outro. Mas qualquer que seja o vencedor, poderá o Presidente da República funcionar, em concreto, como um contrapoder?
A dictomia política esquerda-direita, ao contrário do que muitos afirmam, não morreu. A sanidade do confronto ideológico e democrático viverá enquanto visões diferentes e alternativas da realidade coexistirem na sociedade. O problema surge quando a Esquerda incorre no habitual erro da multiplicação de candidaturas, fugindo a um denomindador comum, perdendo capacidades afirmativas (ao contrário da Direita) para definir um elemento federador da pluralidade deste campo político. Uma hipótese vencedora é substituída por redutoras vitórias de Pirro, algumas tão narcísicas quanto ridículas. O pragmatismo perde lugar para a demagogia. O ruído dos candidatos dá lugar ao silêncio dos eleitores. Fica tudo à espera de ganhar o seu quinhão, na esperança (vã) de forçar uma segunda volta, aí sim "federadora".
Repugna-me um pouco o voto para aumentar quotas de possibilidades. O voto no menos mau pode ser solução atraente, mas carece sempre de verdade e falta de livre escolha.
Cabe decidir em consciência, em liberdade. Agir por aquilo em que acreditamos, pelas nossas convicções. Tomar uma posição e uma acção responsável pela nossa escolha, no respeito da nossa integridade individual, e pela ideia de país e de futuro.
No fundo, para o PS de Sócrates até é preferível que ganhe Cavaco, pois Alegre, seria uma pedra no seu sapato. Este governo cairá mais cedo ou mais tarde e o próximo PM será Pedro Passos Coelho, pelo que o aspecto de um contrapoder, seja Cavaco ou Alegre, funcionaria de modos muito diversos.
Estas eleições são mais importantes que aparentam. O que nos comprime continuará a intensificar-se na segunda-feira, e no futuro próximo alterações sociais e políticas são expectáveis. Com isso em vista, o que o país precisa em Belém, afugentando-me o máximo dos clichés, é isenção, imparcialidade, integridade. A questão fundamenta-se em quem poderá corresponder, neste contexto, para além disso.
Porque um Presidente não pode ser vulnerável, mudo, discreto. Um Presidente não deve ser serôdio, inconsequente, falso.
O mais alto magistrado da nação deve ir além da razão e do pragmatismo.
O Presidente da República deve ser inspirador, enérgico, convicto, dialogante, livre, humanista. Um PR não deverá cruzar os braços face à (in)justiça, à errância, ao desvario. O Presidente deve apelar à cidadania, ao sentido de dever e comunidade, devolver a esperança e mobilizar para o futuro. Promover o patriotismo e a identidade. O Presidente da República deve defender o bem comum, a democracia universalista, promover a ética social e política.
Porque manter as coisas como estão na esperança que algo aconteça é um engodo.
Mudar por mudar não é opção.
Mesmo que não saia vencedor (desta vez), é preciso acreditar numa visão de futuro.
Escolher pela mudança é uma acção estratégica.
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O sábado de reflexão funcionou.
O sábado de reflexão funcionou.
Pela cidadania, pela diferença, pelo desafio, pela mudança.
Voto Fernando Nobre.
Voto Fernando Nobre.
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2011-01-20
Crónicas de uma reflexão presidencial - II
O óbvio dos últimos cinco anos concretizou-se, pois um economista sem alma, pouco pôde. Não é que esperasse algo, mas Cavaco Silva e a sua frágil condição de mito, demonstrou que permanece como um sol enganador. A insustentável situação a que chegámos em parte ocorre pela sua conduta. Pelo conluio dissimulado da atracção fatal ao governo Sócrates. Na concreta realidade da posição presidencial e do símbolo nacional que o actual presidente não tem sido. Pela incapacidade individual para a mobilização colectiva, pela fraca defesa da identidade lusófona, pelo vazio internacional da sua presença. A sua tão propagada honradez e conhecimento dos dossiers nunca possuiram força suficiente para ocupar o cargo de presidente da república. Continuamos a não saber quais as suas ideias para além das economicistas, ora porque não responde, ora porque não as expõe. (Sim, está no site dele, mas não é a mesma coisa). Este mundo actual é o local ideal para políticos da sua estirpe, perdidos que estamos no economês que nos devassa os sentidos e a bolsa.
Há cinco anos atrás mobilizei-me a favor de Manuel Alegre. Pela inovadora candidatura de cidadania, pela fraternidade, pelos portugueses, por Portugal. Por aquilo que acredito que o poeta podia representar como impulsionador do património lusófono numa comunidade forte e global. Defendi com as palavras seguintes a crença num Presidente como "alguém íntegro e de espírito aberto, de convicções e livre, abrangente e fraterno, justo e patriótico (...) que seja símbolo do Estado mas acima de tudo da cidadania, da nacionalidade, capaz de representar todos dentro e fora do país com igual competência, serenidade e valor. Transmitir e invocar uma mensagem universalista e democrática, moderna e mobilizadora, os valores intrínsecos da nacionalidade e do respeito por todos, positivo e inovador."
Acontece que Manuel Alegre, em 2011, não se apresenta (tão) livre como afirma. As amarras que o prendem são lâminas traidoras de um projecto outrora feliz. A inevitabilidade do apoio PS e a "amizade" bloquista conferem politicamente a esta candidatura um estranho sabor de aliança conjuntural e hipocrisia escondida.
Na verdade, Manuel Alegre não deveria, como Mário Soares há cinco anos, ter refeito a sua candidatura. Por três razões muito concretas. Primeiro, pela posição que encetou na contenda anterior contra o PS. Segundo, pelo desbaratar do tão propalado "1 milhão de votos", plataforma fantástica para uma potencial regeneração da Esquerda. Terceiro, pela conveniência de um apoio partidário socraticamente envenenado.
Hoje, tão livre como o poeta, reconhecendo sempre o valor, carácter e simbologia política, não me vinculo (totalmente) à sua repetida candidatura presidencial.
Fernando Nobre, por todos conhecido, tentou levantar um movimento cívico à semelhança de Manuel Alegre. Tentando de certa forma ser um movimento grass-roots à maneira da candidatura de Obama, embora não tenha havido uma projecção generalizada, nem apoios, ideais para demonstrar com autenticidade uma proposta diferente. Em parte pelas fragilidades de comunicação do candidato e da sua equipa, em parte pela desvalorização elitista de uma candidatura alternativa. Não me constrange a sua inexperiência política, não duvido das suas intenções, aprecio mesmo algumas ideias e projectos, mas Nobre afirma a todos os ventos, por vezes em excesso, acções e políticas sobre os quais um presidente não tem controlo.
Mas como tenho tendência para a defesa de autonomias, desafios à norma, modos independentistas, alternativas e um profundo conceito de diferença, a sua candidatura apela a estes meus instintos. Agrada-me o desafio de outra barricada. Apraz-me a ideia de uma mudança inesperada.
E no entanto, permaneço absorto neste purgatório frio e cruel.
(Última crónica amanhã)
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Há cinco anos atrás mobilizei-me a favor de Manuel Alegre. Pela inovadora candidatura de cidadania, pela fraternidade, pelos portugueses, por Portugal. Por aquilo que acredito que o poeta podia representar como impulsionador do património lusófono numa comunidade forte e global. Defendi com as palavras seguintes a crença num Presidente como "alguém íntegro e de espírito aberto, de convicções e livre, abrangente e fraterno, justo e patriótico (...) que seja símbolo do Estado mas acima de tudo da cidadania, da nacionalidade, capaz de representar todos dentro e fora do país com igual competência, serenidade e valor. Transmitir e invocar uma mensagem universalista e democrática, moderna e mobilizadora, os valores intrínsecos da nacionalidade e do respeito por todos, positivo e inovador."
Acontece que Manuel Alegre, em 2011, não se apresenta (tão) livre como afirma. As amarras que o prendem são lâminas traidoras de um projecto outrora feliz. A inevitabilidade do apoio PS e a "amizade" bloquista conferem politicamente a esta candidatura um estranho sabor de aliança conjuntural e hipocrisia escondida.
Na verdade, Manuel Alegre não deveria, como Mário Soares há cinco anos, ter refeito a sua candidatura. Por três razões muito concretas. Primeiro, pela posição que encetou na contenda anterior contra o PS. Segundo, pelo desbaratar do tão propalado "1 milhão de votos", plataforma fantástica para uma potencial regeneração da Esquerda. Terceiro, pela conveniência de um apoio partidário socraticamente envenenado.
Hoje, tão livre como o poeta, reconhecendo sempre o valor, carácter e simbologia política, não me vinculo (totalmente) à sua repetida candidatura presidencial.
Fernando Nobre, por todos conhecido, tentou levantar um movimento cívico à semelhança de Manuel Alegre. Tentando de certa forma ser um movimento grass-roots à maneira da candidatura de Obama, embora não tenha havido uma projecção generalizada, nem apoios, ideais para demonstrar com autenticidade uma proposta diferente. Em parte pelas fragilidades de comunicação do candidato e da sua equipa, em parte pela desvalorização elitista de uma candidatura alternativa. Não me constrange a sua inexperiência política, não duvido das suas intenções, aprecio mesmo algumas ideias e projectos, mas Nobre afirma a todos os ventos, por vezes em excesso, acções e políticas sobre os quais um presidente não tem controlo.
Mas como tenho tendência para a defesa de autonomias, desafios à norma, modos independentistas, alternativas e um profundo conceito de diferença, a sua candidatura apela a estes meus instintos. Agrada-me o desafio de outra barricada. Apraz-me a ideia de uma mudança inesperada.
E no entanto, permaneço absorto neste purgatório frio e cruel.
(Última crónica amanhã)
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2011-01-19
Crónicas de uma reflexão presidencial - I
Não consigo evitá-lo. Perco-me na busca da razão e do sentido. Entendo a pertinência do momento, mas fraquejo pela indecisão que me apoquenta a racionalidade. O tempo muda muito. Constroi desejos e futuriza alegrias que, no entanto, tendem a desfazer-se em inglórias existências, promessas fúteis e certezas diminutas. Depois o ciclo fecha-se para recomeçar outro, para se revalidar a esperança e a vontade, uns para solidificar a matéria, outros para projectar a mudança. Contudo a confiança é mutável, na implícita medida da realidade cruel que nos envolve. A projecção do amanhã bifurca-se entre uma insustentável percepção de um mundo que nos é alheio ao controlo e ao entendimento, e um caminho idealista de percurso inevitavelmente intransponível.
Não perdi todas as utopias, ainda reside em mim uma réstia de realidade. Pela primeira vez situo-me no purgatório campo dos indecisos. E é um lugar horrível.
Nestas eleições presidenciais qualquer visão apresentada afigura-se como uma consequência sem fundo, questionando de novo a valor da existência de um presidente, muito particularmente face ao desenlace há muito pressentido. Isto convida à inércia, a um movimento silencioso que afasta a participação. Na verdade, com os poderes actuais, um Presidente deveria ter um mandato único de sete anos, findo o qual a renovação obrigatória do detentor do cargo elevaria e mobilizaria a disputa e a participação política e civil. O próprio exercício do cargo nestas condições evitaria leituras ou atitudes da simples busca da reeleição, tornando mais livre e presente a sua acção.
O voto em branco, na situação presente, torna tão ineficaz como inútil porque há sempre algo a evitar e uma visão por defender. "No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise", escreveu Dante.
O exercício da abstenção activa - o voto em branco - como emergente arma democrática, encontrará noutra ocasião, palco maior e decisivo para a sua aplicação.
Das candidaturas em disputa tenho um claro contra (Cavaco) e, um estranho dilema por resolver (Alegre ou Nobre). Os dias seguintes me conduzirão a uma reflexão e, consequentemente fundamentado, à decisão final.
(Continua amanhã)
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Não perdi todas as utopias, ainda reside em mim uma réstia de realidade. Pela primeira vez situo-me no purgatório campo dos indecisos. E é um lugar horrível.
Nestas eleições presidenciais qualquer visão apresentada afigura-se como uma consequência sem fundo, questionando de novo a valor da existência de um presidente, muito particularmente face ao desenlace há muito pressentido. Isto convida à inércia, a um movimento silencioso que afasta a participação. Na verdade, com os poderes actuais, um Presidente deveria ter um mandato único de sete anos, findo o qual a renovação obrigatória do detentor do cargo elevaria e mobilizaria a disputa e a participação política e civil. O próprio exercício do cargo nestas condições evitaria leituras ou atitudes da simples busca da reeleição, tornando mais livre e presente a sua acção.
O voto em branco, na situação presente, torna tão ineficaz como inútil porque há sempre algo a evitar e uma visão por defender. "No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise", escreveu Dante.
O exercício da abstenção activa - o voto em branco - como emergente arma democrática, encontrará noutra ocasião, palco maior e decisivo para a sua aplicação.
Das candidaturas em disputa tenho um claro contra (Cavaco) e, um estranho dilema por resolver (Alegre ou Nobre). Os dias seguintes me conduzirão a uma reflexão e, consequentemente fundamentado, à decisão final.
(Continua amanhã)
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2010-07-09
2010-06-22
Dignificar símbolos
Os símbolos são códigos de linguagem, real, histórica, imaginativa, perceptiva, emocional, política, cultural. Dão rosto e forma a ideias, legados, atitudes. Os símbolos têm uma representação física impossíveis de ignorar. O desrespeito pelos valores que o identificam pode entender-se, no mínimo, como uma ofensa.
O Presidente da República é o símbolo político do Estado. É a figura maior da estrutura republicana de uma nação. Um Presidente - seja ele quem for - é presidente de todos. Um Presidente não tem espírito, nem sexo, nem querelas. Um Presidente está acima de questões estéreis e conflitos de personalidade. Um Presidente existe e enquanto tal representa um país, uma nação.
O Presidente Cavaco Silva, em mais umas das suas decisões misteriosas, ignorou um símbolo de dimensão infinitamente maior. Ao não estar presente na homenagem a José Saramago, Cavaco Silva deu uma má lição de respeito e educação, retirou o significado institucional que lhe é conferido pela Constituição e pelo povo enquanto Presidente da República Portuguesa. Uns poderão dizer que a ausência foi coerente e que se comparecesse seria uma acto de cinismo e hipocrisia. Mas conhecida antipatia mútua, apesar de notoriamente pessoal e política, é algo que não podia prevalecer como uma alma-penada sobre as exéquias fúnebres, pois quem estaria presente seria, não o cidadão Aníbal Cavaco Silva, mas sim o Presidente da República em representação de todos os portugueses numa cerimónia oficial de homenagem nacional. Podia até Saramago não querer que estivesse presente, mas as circunstâncias da vida colocaram Cavaco como o alto magistrado da nação, e como tal a sua presença seria óbvia. Cavaco Silva, apesar da mensagem breve mas correcta que emitiu no dia do falecimento, com a sua ausência tirou dignidade ao seu próprio cargo, alimentou um desconforto institucional evitável e demonstrou desprezo pelo valor do maior símbolo nacional cultural e com maior projecção mundial dos últimos 40 anos.
O Presidente da República é o símbolo político do Estado. É a figura maior da estrutura republicana de uma nação. Um Presidente - seja ele quem for - é presidente de todos. Um Presidente não tem espírito, nem sexo, nem querelas. Um Presidente está acima de questões estéreis e conflitos de personalidade. Um Presidente existe e enquanto tal representa um país, uma nação.
O Presidente Cavaco Silva, em mais umas das suas decisões misteriosas, ignorou um símbolo de dimensão infinitamente maior. Ao não estar presente na homenagem a José Saramago, Cavaco Silva deu uma má lição de respeito e educação, retirou o significado institucional que lhe é conferido pela Constituição e pelo povo enquanto Presidente da República Portuguesa. Uns poderão dizer que a ausência foi coerente e que se comparecesse seria uma acto de cinismo e hipocrisia. Mas conhecida antipatia mútua, apesar de notoriamente pessoal e política, é algo que não podia prevalecer como uma alma-penada sobre as exéquias fúnebres, pois quem estaria presente seria, não o cidadão Aníbal Cavaco Silva, mas sim o Presidente da República em representação de todos os portugueses numa cerimónia oficial de homenagem nacional. Podia até Saramago não querer que estivesse presente, mas as circunstâncias da vida colocaram Cavaco como o alto magistrado da nação, e como tal a sua presença seria óbvia. Cavaco Silva, apesar da mensagem breve mas correcta que emitiu no dia do falecimento, com a sua ausência tirou dignidade ao seu próprio cargo, alimentou um desconforto institucional evitável e demonstrou desprezo pelo valor do maior símbolo nacional cultural e com maior projecção mundial dos últimos 40 anos.
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2010-06-14
A insustentável situação do ser
1.
Tenho como norma não entrar no velho e caquético modo lusitano de queixa permanente, ou tão pouco disparar antes de perguntar. Porque falar mal por falar está este país cheio, seja através de barbaridades comuns e insultos ordinários, seja por palavras demagógicas e circunstanciais. Procuro sempre analisar e reflectir antes de opinar ao confrontar-me com a extensão de problemas e questões que atravessam todo o espectro do que no fundo é Portugal, sendo que não é possível fugir do óbvio ou ignorar as características do ser.
Tenho como norma não entrar no velho e caquético modo lusitano de queixa permanente, ou tão pouco disparar antes de perguntar. Porque falar mal por falar está este país cheio, seja através de barbaridades comuns e insultos ordinários, seja por palavras demagógicas e circunstanciais. Procuro sempre analisar e reflectir antes de opinar ao confrontar-me com a extensão de problemas e questões que atravessam todo o espectro do que no fundo é Portugal, sendo que não é possível fugir do óbvio ou ignorar as características do ser.
2.
Este passado dia 10 de Junho celebrou-se mais um Dia de Portugal. Contudo até que ponto é isto transposto numa identidade colectiva que de uma forma ou de outra desvaloriza, ou desonra, como nas palavras de António Barreto, a memória de feitos e pessoas? Que povo é este que não sente o destino de uma nação para além de um triste fado a todos condenado, que se resigna às situações com receio da mudança?
Este passado dia 10 de Junho celebrou-se mais um Dia de Portugal. Contudo até que ponto é isto transposto numa identidade colectiva que de uma forma ou de outra desvaloriza, ou desonra, como nas palavras de António Barreto, a memória de feitos e pessoas? Que povo é este que não sente o destino de uma nação para além de um triste fado a todos condenado, que se resigna às situações com receio da mudança?
A inevitabilidade constante do ser português conduz ciclicamente a estas situações insustentáveis. E o problema emperra na falta condições de saída pela simples questão, igualmente nacional, de falta de planeamento, de falta de coragem. Não pensar o futuro como um objectivo tem conduzido o país a soluções de curto prazo e vistas curtas. Na verdade, tudo é curto. Seja na laboração, seja nos resultados, seja no bolso. Até a força expressiva de ser português peca na curta dedicação individual e colectiva, peca na desesperança pelo bem comum, peca na curta miragem de um sonho que já não existe. O país perdeu estima e respeito próprios, onde só o futebol é razão para patriotismo.
Portugal foi perdendo o seu caminho. Por uma monarquia de feudos, por um republicanismo confuso, por um nacionalismo retrógado, por uma utopia inconsequente, e finalmente por um capitalismo facilitista. Os últimos vinte anos conduziram a um laxismo por demais evidente, e que rapidamente se transformou em lixismo igualmente generalizado, significando que a única visão palpável de um futuro que já começou, se situa entre lixados (quase todos) e lixo (de diversa espécie).
Portugal vive ciclicamente de oportunidades perdidas. Por não saber organizar-se, por apenas queixar-se, por premiar a mediocricidade, por invejar e desvalorizar o mérito sem lhe seguir o bom exemplo. É tanto uma questão nacional como individual. De nada serve ambicionar ser como finlandeses ou espanhois. Eles são como são porque possuem as suas peculiares características nacionais de finlandeses e espanhois que todos sabemos como são. Mas nem eles próprios são perfeitos, o que nos obriga que a mudança de atitude e objectividade nacionais seja entendida como um factor de mudança de como ser português. Cai-se sempre na mitologia que "antes éramos os maiores do mundo" sem se entender isso como um alicerce para o futuro. Sonhamos com o passado embora presos num presente sem futuro. Soundbyte ou não, Portugal não consegue libertar o futuro. Porque para isso é preciso pensar, organizar, planear tudo o que seja necessário para construir um futuro sustentável - na educação, na justiça social, na mobilidade, na integridade territorial, na valorização do melhor que cá se produz, no regressar à agricultura. Tudo isto necessita de bom senso, seriedade, objectividade e planeamento. O que claramente tem faltado e que leva cada vez mais as pessoas a afastarem-se e a revoltarem-se contra a política. Mas, se o português num modo geral assim é, como poderia a classe dirigente não ser afinal um retrato do povo que o elege? Estamos condicionados a um sistema político-eleitoral de partidos que sobrevivem no seguidismo cerceadora na sua maioria da liberdade de pensamento e responsabilidade individuais dos seus deputados, que na essência não conhecemos, e que apesar da presente legislatura possuir poderes para alterar a Constituição, repetidamente se manifestam contra modificar para uma representatividade directa, proporcional e uninominal como no Reino Unido, em França e nos EUA.
3.
Estamos tão adormecidos ou perdidos nisto que nem o melhor instrumento para a introspecção e a revolta funciona. Um país que já nem consegue rir-se de si próprio é um país justamente amorfo na sua condição vazia. Onde está o pensamento crítico do humor? Que aconteceu ao humor político que tão bem funciona em momentos de crise? A subjectividade da análise crítica através do humor é uma poderosa arma para abrir olhos, forçar mudanças, reavivar combates. Parecem-me todos resignados a não tocar no desinteressante (que não deixa de ser verdade) mas que atinge a todos de uma forma ou de outra. Falta-nos os Contemporâneos, falta-nos um Jon Stewart português. Não fosse o "aburguesamento" dos Gato Fedorento e poderiam ser eles o porta-estandarte de uma nova condição crítica, de uma opinião pública que pressione, tão essencial para uma sociedade que se pretende moderna e participativa.
Estamos tão adormecidos ou perdidos nisto que nem o melhor instrumento para a introspecção e a revolta funciona. Um país que já nem consegue rir-se de si próprio é um país justamente amorfo na sua condição vazia. Onde está o pensamento crítico do humor? Que aconteceu ao humor político que tão bem funciona em momentos de crise? A subjectividade da análise crítica através do humor é uma poderosa arma para abrir olhos, forçar mudanças, reavivar combates. Parecem-me todos resignados a não tocar no desinteressante (que não deixa de ser verdade) mas que atinge a todos de uma forma ou de outra. Falta-nos os Contemporâneos, falta-nos um Jon Stewart português. Não fosse o "aburguesamento" dos Gato Fedorento e poderiam ser eles o porta-estandarte de uma nova condição crítica, de uma opinião pública que pressione, tão essencial para uma sociedade que se pretende moderna e participativa.
Uma coisa é nos revermos numa identidade nacional colectiva outra é projectar uma ideia de modificar a identidade nacional individual. Se não queremos ser como a maioria, cabe a cada um encetar a sua própria mudança. Se detestamos o José Sócrates, há que chutá-lo para fora. Se admiramos o José Mourinho, há que ser como ele.
A exigência deve começar em casa para se espalhar à comunidade. É um trabalho árduo e longo, que começa com a transmissão de ideias, valores e acções democráticas, justas e sérias aos nossos filhos. Quantos mais colaborarem neste objectivo melhor será a capacidade de renovar mentalidades, características, trabalhadores, dirigentes e elites.
Pois esta insustentável mediocridade actual, se não cair este Verão, manter-se-á por mais um ano, e será mais um ano perdido a somar a tantos e tantos outros.
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2010-05-12
A new kind of Government
To be quite honest and direct, the outcome of a coalition government held by the Conservative Party and the Liberal Democratic Party seems, not necessarily the best, but as the only way forward. The past days showed us much of the pros and cons of all hipothesis. Changing the electoral and political system has become even more urgent.
As I always believed, Labour had already sentenced is fate and had no other way out than to stay out. Gordon Brown left Number 10 with dignity. If David Miliband presents his much desired candidacy for leadership, it might seem too late, but it's an obvious outcome of inner political strategy.
The LibDem result was a frustrating surprise. But my support for Nick Clegg continues, as I believe in his political views and his honesty, a leader who will do his best to carry out the changes needed to build a fairer future for the United Kingdom, trying to avoid too many right-wing policies that float around the Tories minds.
Politics is an art of compromise, and pulling out the best of ideas in a diverse and plural project is in fact a new cornerstone for a new kind of government. And - lets hope - must be achieved by this team lead by David Cameron and Nick Clegg.
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2010-05-07
2010-05-04
A fresh start
Where we stand today
It is time for something different. Not a cliché that almost every party shouts out, but truely a belief that difference can be possible this time. These last years have brought too many reasons for effective change to happen, the absolute need to turn things around in order to clean up politics and ensure a better future.
Entering the second decade of the 21st Century gave us an insight that the world changes ever more faster and the present methods aren't powerfull enough to make things better.
No more Gordon
No more Gordon
Labour with its current leadership hasn't anything more to offer, because 10+3 years is enough. Blair and Brown gave Britain a new stand in Europe and the world, an exciting appeal, a brand new vision opposite of the Thatcher years, redistributive tax credits, doubled spending on the NHS, the minimum wage. But the fall of Labour became clear with the illegal Iraq war from then on, despite the recognised effort of Gordon Brown towards the world economic and financial breakdown.
Looking back we can see that Gordon failed as Prime-Minister. Indeed it started with high expectations but along these three years he gave too much evidence of weakness at home opposed to world leadership. But in the end, what matters is the job at Downing Street and what the Number 10 occupier can, and must, do for the country, for everyone living in the UK. And it is obvious that what lies ahead cannot be faced by the Labour party because they have no solutions and working projects for the future. Labour lost its chance by not being able to refresh its leadership.
Looking back we can see that Gordon failed as Prime-Minister. Indeed it started with high expectations but along these three years he gave too much evidence of weakness at home opposed to world leadership. But in the end, what matters is the job at Downing Street and what the Number 10 occupier can, and must, do for the country, for everyone living in the UK. And it is obvious that what lies ahead cannot be faced by the Labour party because they have no solutions and working projects for the future. Labour lost its chance by not being able to refresh its leadership.
A Tory illusion of change
And that it is also why neither the Conservatives have what it takes to improve the UK. David Cameron wants to brake Broken Britain by braking it another way. Big Society might seem a nice idea, but it feels a demagocic talk with no true consequence in every day life. They might look green but they have among them anti-climate change members. Their anti-Europe claims have been charmed by the Euro/Greece crisis, but it only represents a wrong position of the importance of the EU for the UK because they both need eachother in this new Europe. And what the expenses scandal brought last year doesn't seem enough for them to change the functionality of british politics, with no reform of the way the country should work better.
Cameron seems a nice chap, made his way up in five years of opposition but, as we can see in every poll, he hasn't done enough to make people trust him. The Conservative Party has old thinking with modern looks. They say they are change, with them in power change would come but not in the way to give a real choice of better change. They are selling an illusion of change.
A fresh start
Cameron seems a nice chap, made his way up in five years of opposition but, as we can see in every poll, he hasn't done enough to make people trust him. The Conservative Party has old thinking with modern looks. They say they are change, with them in power change would come but not in the way to give a real choice of better change. They are selling an illusion of change.
A fresh start
The "change" label is only reliable with a different way of politics and project, attitude and ideas, hope and fairness. Only a strategic vision can be a solution for the future. By acknowledging the flaws of yesterday and understanding the realities of today, building a new way of thinking and working can achieve the chances for a better tommorow.
It is no utopian talk, things can be made different with a new set of ideas and challenges that only the Liberal Democrats present.
The LibDems feel with accuracy that this election is a huge opportunity to reform the electoral system, to bring transparent and fair tools into politics, reflecting on how the country should and must work upon. The LibDems always had green policies, even before other parties. They believe in education as a true value. They are for a new nuclear-weapon tactical policy. The LibDems are European.
Nick Clegg is a new and fresh hope to ensure political reform, fair taxes, social mobility, sustainable economic growth. A good future for the United Kingdom can only be shaped with 21st Century policies and only the Liberal Democrats have the transformative ideas, trust and the will to make it happen.
It is no utopian talk, things can be made different with a new set of ideas and challenges that only the Liberal Democrats present.
The LibDems feel with accuracy that this election is a huge opportunity to reform the electoral system, to bring transparent and fair tools into politics, reflecting on how the country should and must work upon. The LibDems always had green policies, even before other parties. They believe in education as a true value. They are for a new nuclear-weapon tactical policy. The LibDems are European.
Nick Clegg is a new and fresh hope to ensure political reform, fair taxes, social mobility, sustainable economic growth. A good future for the United Kingdom can only be shaped with 21st Century policies and only the Liberal Democrats have the transformative ideas, trust and the will to make it happen.
On 6 May vote Liberal Democrats
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2010-05-03
2010-04-30
Dias de Abril
Durante 48 anos Portugal foi sobrevivendo dogmatizado na Ditadura. Uma madrugada de Abril desbloqueou o país para implentar uma visão disruptiva e no regresso "ao fórum das nações livres e amantes da paz" tomando como deslumbrante lema "Democratizar, Descolonizar, Desenvolver". Entrou depois num processo que quase provocou o descalabro, mas os desafios que enfrentou permitiram devolver esperança e dinamismo para um futuro decente.
De muitas denominações iniciadas por D se pode caracterizar Portugal.
Ao longo de 36 anos vimos crescer um país novo, assumindo-se moderno e europeu, com capacidades e competitividades diversas. Mas pouco a pouco descobrimos (o que quisémos esconder) um país que se sustentou no engano da sua real dimensão, na demagogia da sua doutrina, no desencontro do seu desígnio. Sem um qualquer deus Atlas para suportar o peso da desigualdade sócio-económica e o volume da sua desarticulação territorial desde a Revolução Industrial (estações ferroviárias fora dos centros das cidades como exemplo maior), Portugal é tão claramente um país desestruturado e desequilibrado não muito diferente do retratado por Eça, Bordalo ou Antero - que mais de cem anos depois até arrepia.
Portugal sofre cíclicos episódios de demência e depressão.
Portugal é bipolar.
O descrédito político que não cessa. Dou como exemplo a condição da deputada Inês de Medeiros. Será ética e moralmente justo que cada deputado tenha direito a outras remunerações quando já auferem um salário de €3815,17, constituído a partir de dinheiro de todos os contribuintes? Se nivelássemos todos os salários por este princípio onde iriam as empresas encontrar dinheiro extra tendo em conta as condições reais do mercado?
A delirante decisão no caso Domingos Névoa - Sá Fernandes, que delapida o pouco que restava da confiança na justiça ao limpar o corruptor e criminalizar o corrumpido.
O desastre diário que se tornaram as contas públicas e o perturbante drama que descodifica na essência o desacerto de um sistema global que ameaça despedaçar mais vidas e países à (má) fé de depreciativas e desprezíveis movimentações que nos escapam ao entendimento e controlo.
E agora a decisão de prosseguir com o TGV e o novo aeroporto mesmo nesta fase revela a manutenção de um caminho irresponsável por parte de um Governo errado e erróneo, com dificuldade em discernir soluções alteradoras para um país à beira de um ataque de nervos colectivo que poderá (e talvez deveria) suceder para forçar à mudança para acções concretas e decisivas.
Delegamos em pessoas (supostamente) habilitadas o ofício de gerir bens e Estados, e o que vemos são desbundas crescentes de políticas de casino e interesses individuais de curto prazo com tal distorção da verdade e justeza que assusta. O cidadão comum que honra o seu trabalho e o seu esforço, que se sacrifica, não consegue entender toda esta confusão e não encontra razões para sofrer por decisões infundadas, mal calculadas, interesseiras, narcísicas, diletantes e dolosas.
Não entendo nada de contas. Mas eu não contribuí para esta situação. Tenho um só crédito (habitação), temos o mínimo de gastos extraordinários; suportamos despesas para equilibrar doença crónica; eu muito gostaria de ter um iPhone, eu bem necessitaria ter um computador novo. Mas sei demasiadas vezes como é o salário definhar antes do meio do mês. O risco é diário e dificuldades destas muitos portugueses enfrentam.
A gravidade da actual situação é desconcertante e muitos só agora estão a sair da fase de negação. Mas igualmente mau são aqueles que na fase de aceitação se conformam e não avançam para a etapa seguinte. Pior entre estes são os muitos que se vêem impedidos de sair, sem meios. Sobrevivem um mês de cada vez, uma semana de cada vez, um dia de cada vez. A questão é que não chegámos ainda à fase determinante, ou seja, enfrentar, agir, reagir. Resta-nos esperar que a Lei de Murphy não se aplique e nos mergulhe de novo na incredulidade e desespero.
Estes dias de Abril trouxeram definitivamente novos "D" - são o desnorte, a descrença, a dívida, o desemprego, a desilusão. Enquanto não se definir um novo rumo, construir novos paradigmas, permaneceremos aprisionados a uma diálise inútil sem qualquer vislumbre de melhorar.
Assaltam-nos dúvidas quanto ao presente e ao futuro, quanto à decência que escasseia, quanto ao desmaio dos ideais que deveriam reger o mundo.
Vivemos um momento invulgar, atravessamos um periodo de crise gritante, não só económica e social, mas acima de tudo de crenças e valores. O caminho que todo o planeta toma de seguida ditará a sua transformação, seja ela qual for.
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De muitas denominações iniciadas por D se pode caracterizar Portugal.
Ao longo de 36 anos vimos crescer um país novo, assumindo-se moderno e europeu, com capacidades e competitividades diversas. Mas pouco a pouco descobrimos (o que quisémos esconder) um país que se sustentou no engano da sua real dimensão, na demagogia da sua doutrina, no desencontro do seu desígnio. Sem um qualquer deus Atlas para suportar o peso da desigualdade sócio-económica e o volume da sua desarticulação territorial desde a Revolução Industrial (estações ferroviárias fora dos centros das cidades como exemplo maior), Portugal é tão claramente um país desestruturado e desequilibrado não muito diferente do retratado por Eça, Bordalo ou Antero - que mais de cem anos depois até arrepia.
Portugal sofre cíclicos episódios de demência e depressão.
Portugal é bipolar.
O descrédito político que não cessa. Dou como exemplo a condição da deputada Inês de Medeiros. Será ética e moralmente justo que cada deputado tenha direito a outras remunerações quando já auferem um salário de €3815,17, constituído a partir de dinheiro de todos os contribuintes? Se nivelássemos todos os salários por este princípio onde iriam as empresas encontrar dinheiro extra tendo em conta as condições reais do mercado?
A delirante decisão no caso Domingos Névoa - Sá Fernandes, que delapida o pouco que restava da confiança na justiça ao limpar o corruptor e criminalizar o corrumpido.
O desastre diário que se tornaram as contas públicas e o perturbante drama que descodifica na essência o desacerto de um sistema global que ameaça despedaçar mais vidas e países à (má) fé de depreciativas e desprezíveis movimentações que nos escapam ao entendimento e controlo.
E agora a decisão de prosseguir com o TGV e o novo aeroporto mesmo nesta fase revela a manutenção de um caminho irresponsável por parte de um Governo errado e erróneo, com dificuldade em discernir soluções alteradoras para um país à beira de um ataque de nervos colectivo que poderá (e talvez deveria) suceder para forçar à mudança para acções concretas e decisivas.
Delegamos em pessoas (supostamente) habilitadas o ofício de gerir bens e Estados, e o que vemos são desbundas crescentes de políticas de casino e interesses individuais de curto prazo com tal distorção da verdade e justeza que assusta. O cidadão comum que honra o seu trabalho e o seu esforço, que se sacrifica, não consegue entender toda esta confusão e não encontra razões para sofrer por decisões infundadas, mal calculadas, interesseiras, narcísicas, diletantes e dolosas.
Não entendo nada de contas. Mas eu não contribuí para esta situação. Tenho um só crédito (habitação), temos o mínimo de gastos extraordinários; suportamos despesas para equilibrar doença crónica; eu muito gostaria de ter um iPhone, eu bem necessitaria ter um computador novo. Mas sei demasiadas vezes como é o salário definhar antes do meio do mês. O risco é diário e dificuldades destas muitos portugueses enfrentam.
A gravidade da actual situação é desconcertante e muitos só agora estão a sair da fase de negação. Mas igualmente mau são aqueles que na fase de aceitação se conformam e não avançam para a etapa seguinte. Pior entre estes são os muitos que se vêem impedidos de sair, sem meios. Sobrevivem um mês de cada vez, uma semana de cada vez, um dia de cada vez. A questão é que não chegámos ainda à fase determinante, ou seja, enfrentar, agir, reagir. Resta-nos esperar que a Lei de Murphy não se aplique e nos mergulhe de novo na incredulidade e desespero.
Estes dias de Abril trouxeram definitivamente novos "D" - são o desnorte, a descrença, a dívida, o desemprego, a desilusão. Enquanto não se definir um novo rumo, construir novos paradigmas, permaneceremos aprisionados a uma diálise inútil sem qualquer vislumbre de melhorar.
Assaltam-nos dúvidas quanto ao presente e ao futuro, quanto à decência que escasseia, quanto ao desmaio dos ideais que deveriam reger o mundo.
Vivemos um momento invulgar, atravessamos um periodo de crise gritante, não só económica e social, mas acima de tudo de crenças e valores. O caminho que todo o planeta toma de seguida ditará a sua transformação, seja ela qual for.
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2010-04-19
2010-04-09
Think Different. Think Plaid
The UK General Elections are coming and an exciting campaign too. So the political messages and the way they are broadcasted are due to make a difference.
Like this video from Welsh nationalist party Plaid Cymru literally does. Expanding the famous Apple claim "Think Different" added by "Think Plaid", it's good to see how a political concept can be explained when made with design and simplicity, can be fresh and seductive, aims to reach out with an attitude to connect people to a common goal with meaningful objectives.
And what I most enjoy about this video is how, as seen since the SNP won in Scotland, that much more than a multicultural approach, Plaid shows a strong understanding of what our world is today. Because the whole world lives in our neighbourhoods, our towns, our countries - we are one world, we are one people - but never neglecting the sense of place and love and commitment to where we live and belong.
It is a statement that marks an alliance between the old and the new, the proud historical and cultural heritages of "natives" and newcomers, with the empowering modernity and exchange as a gateway for achievement, for fair development, for a better future.
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