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2009-03-26

Pensar a Cidade



ONTEM
A humanidade vive em grupos. Aldeias, vilas, cidades, ao longo de milénios, sempre nos reunimos em densidades mais ou menos intensas, e com isso moldamos esse novo espaço com vida, com construção, com crescimento, mudança. Com as cidades introduzimos espaços privados e públicos, de recreio e de comércio. Construímos habitação, locais de culto, equipamento administrativo e de lazer. Nas suas ruas nos transportamos para o trabalho e tantos outros sítios. Nos seus bairros fizémos amigos, jogámos à bola, brincámos. Por tantas vezes houve momentos trágicos e felizes. Nas cidades fizémos história, levantámos barricadas e fizémos revoluções. Nas cidades nascemos, vivemos, estudamos, casamos, trabalhamos, socializamos, morremos. A cidade é um compósito de emoções e de vida, de tudo isto que nos define enquanto indivíduos, de tanto que nos forma enquanto cidadãos. É um local único que a cada década se intensifica, cresce e se estrutura como sociedade particular, pois as cidades são as comunidades que nela residem e trabalham, mas também estas se moldam pelo modo como são feitas essas mesmas cidades.

HOJE
Contudo as cidades têm evoluído para formas não amigas do cidadão. O abandono dos centros, seja pela sua degradação, seja pela especulação imobiliária, afasta-os para periferias sem alma, mas trá-los de volta em invasões diárias de veículos e poluição. Tempo perdido em viagens e stresse equivalente à diminuição do conforto individual e familiar, no equilíbrio social e económico, na escassez de liberdade para divertir, respirar, melhor viver.
Os problemas que as cidades hoje enfrentam foram construídas ao longo de décadas de desleixo, insensatez, substancial demanda de espaço para cada vez mais migrantes, desinteresse pelo bem comum, desentendimento de que uma sociedade desenvolvida é apenas construída sobre objectivos, planeamento, equilíbrio, justiça e natureza. A sustentabilidade das cidades, que ao longo deste século se tornaram em aglomerados cada vez mais numerosos e densos, está posta em causa pelas condições, práticas e políticas actuais. Os factores de desenvolvimento das sociedades estarão lesados ou diminuídos se o status quo se mantiver. Urge portanto, promover o debate, questionar quem de direito, encontrar soluções, encetar mudanças. O paradigma presente não colhe - há que alterar o modo como construir o futuro, ou melhor, elaborar mecanismos e projectos que possam edificar um amanhã para todos co-habitarem.

AMANHÃ
As cidades do futuro não são projecções futuristas, irrealistas ou utópicas. A cidade de amanhã deve ser fundada sobre os valores que dela fizeram algo especial - a história, a cultura, a economia - em conjugação com o equilíbrio e a originalidade; na inclusão da diferença e o respeito pela natureza; numa reestruturação urbana e arquitectónica combinada com verdadeiros espaços verdes, vias de comunicação e equipamento habitacional e público em concordância com o espaço que a rodeia, eliminado a ocupação desordenada do território; reduzir elementos factores de poluição. Ou seja, pensada e trabalhada por técnicos e políticos, com profissionalismo, dignidade e ética, empenhados em contribuir para a comunidade.
Uma cidade tem uma imagem a defender, a preservar, a projectar. As novas urbes do século XXI não sobreviverão sem um plano estratégico que não seja atractivo, de desenvolvimento, e coerência sustentáveis. Necessita de uma identidade própria que a defina - encontrar boas razões para que as pessoas tenham um sentimento de pertença e orgulho; evidenciar nos planos social, económico, cultural e regional a construção de um conceito de Place Branding - ou Marca Local. Este pressupõe analisar factos e problemas existentes, pensar soluções de desenvolvimento, elaborar conceitos alternativos e criativos que, assente na realidade dessa mesma cidade ou região, possam dotar o local com factores e eventos de competitividade e appeal, para habitantes, negócio e turismo, assente em valores de confiança, prestígio, cidadania e solidariedade. A cidade deve evidenciar as suas potencialidades e solucionar as suas debilidades. Promover a participação dos cidadãos nos aspectos político e social, de discussão pública, de responsabilização colectiva.
Maus exemplos abundam por tudo o que é sítio. Mas boas cidades existem por exemplo na Europa, no Canadá e nos EUA.
Contudo o que interessa agora é colocar as questões necessárias e elaborar sobre esses bons exemplos e outras boas ideias no que nos é mais próximo. O local onde cada um de nós vive é precioso de diversas maneiras. A nossa participação, individualmente ou em grupo, não deve ficar restrito (pese a costumeira abstenção) aos actos eleitorais. Não devemos ficar refém de promessas vagas ou de encher o olho. Ou inconformarmo-nos, ou julgar mal. Cabe-nos agir, pelos meios que forem possíveis, pelo bem do sítio onde vivemos, pela defesa da honra e da justiça, contra caciquismos e falsos altruísmos, inépcia e inconsequência. Pois a construção de uma sociedade justa, civilizada e moderna parte de dentro para fora, de baixo para cima. Cada indivíduo é um cidadão. Cada cidadão é responsável pelos seus actos. E cada acto bem pensado pode fazer a mudança.


Publicado na Gazeta das Caldas de 10 de Abril

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2007-05-02

Reino (des)Unido-IV



300 anos de União

Completam-se três centenas de anos de um inovador projecto político. Mas existem hoje razões para festejar? Certamente que se podem celebrar diversos feitos e efeitos de um casamento exemplar, mas dada a conjuntura actual, onde milhares de soldados ingleses, escoceses, galeses e irlandeses combatem na mais sangrenta e ilegítima das guerras em nome de um governo britânico que mentiu ao povo e ao mundo para se envolver no atoleiro do Iraque, poucos se lembrarão desta data.
O The Guardian (08.02.2007) interrogava-se se a relação entre a Inglaterra e a Escócia poderia durar outros 300 anos.


As eleições regionais
Marcadas para quinta-feira as eleições regionais poderão ser cruciais em determinados círculos eleitorais. E praticamente todos eles tenderão a provocar mossa no Partido Trabalhista que, por sua iniciativa, foi o autor de dois dos mais importantes documentos sobre os estatutos das nações que constituem o Reino Unido. O chamado Devolution Act de 1999 permitiu o regresso do Parlamento escocês e, instituição de uma Assembleia Galesa.

Com o referendo de 1998 que ratificou o Devolution Act, o sentimento nacionalista escocês foi crescendo e, segundo as últimas sondagens o SNP vai sempre na frente, relegando o Labour para segundas e, terceiras posições atrás dos Liberal Democrats.

2007-05-01

Reino (des)Unido-III



Grande Aliança


A 1 de Maio de 1707, há precisamente 300 anos o Reino de Inglaterra e o Reino da Escócia uniam-se sob o Tratado da União, como um estado novo e unitário com a designação Reino Unido da Grã-Bretanha.
O The Guardian dava destaque na sua edição de 8 de Fevereiro da seguinte forma: May 1 will mark the 300th anniversary of the Act of Union between Scotland and England. Yet there will be little celebration in either country. Does no one care any more - or are we witnessing the return of the auld enmity? Ian Jack reflects on Britishness, his experiences as a Scot in England and the rise in nationalism on both sides of the border.

Uma das grandes questões é por que razão a Escócia e a Inglaterra se uniram? O desejo de conquista do território de tradição celta pelos ingleses foi sempre grande. Diversas batalhas e controlos de poder ditaram historicamente a relação entre ambos os reinos, como já referido nos textos anteriores.

O estatuto político e nacional dos dois reinos modificou-se com um dos tratados mais originais e duradouros até hoje. Em 1707 os Parlamentos escocês e inglês decidiram fundir-se e o estatuto bi-estadual transforma-se num estado único com sede em Londres onde figuravam três nações - Inglaterra, Escócia e Gales (território anexado à Inglaterra desde 1535) formavam através do Tratado "Act of Union" o novo Reino Unido da Grã-Bretanha. Apesar da Irlanda pertencer por acréscimo a esta união, não possuía um regime autónomo pois, durante muitos séculos foi somente uma possessão inglesa.

Mas o facto de enquanto estado independente a Escócia, com as suas possessões na América via-se cada vez mais fragilizada face ao domínio e grandeza do Reino de Inglaterra. O lado prático dos interesses políticos e económicos viu a incorporação como a melhor saída para o futuro do país. O Tratado de 15 artigos estabelecia diversas condições e direitos - como o impedimento da linha sucessória de nobres católicos, o reconhecimento da Igreja Presbeteriana como a Igreja Oficial da Escócia, a transformação dos parlamentos escocês e inglês num único em Westminster (em Londres), pares do reino escoceses com assento na Câmara dos Lordes, transferências monetárias anuais para o território escocês, uma moeda e economias comuns. No entanto, a grande maioria da população nunca concordou com a perda da independência, e logo desde o início houve diversas manifestações violentas acusando os nobres escoceses de corruptos por venderam o país a Inglaterra por £20,000.

Mas foi a partir daqui que uma nova Escócia floresceu. O novel e poderoso Império Britânico surge num momento exacto e glorioso. A união permitiu a constituição de forças armadas poderosas, em grande parte devido ao contributo bravo dos regimentos escoceses. No entanto seria com o periodo do Iluminismo, que diversos indivíduos de enorme qualidade foram surgindo das terras altas no seio da nova massa intelectual londrina, de tal forma que se designa o periodo entre 1730 e 1800 como o Scottish Enlightment. Se em França temos Voltaire e Rosseau entre outros, na Escócia temos vários filósofos, pensadores e outras figuras importantes para o país e para o Reino Unido. Nomes como Francis Hutcheson, David Hume, Thomas Brown, Adam Ferguson, James Burnett, Joseph Black, Robert Adam, Robert Burns, Sir Walter Scott, Adam Smith, James Watt, John Walker, etc, contribuiriam também para a evolução da civilização Ocidental no seu todo. Assim tal como com o advento da Revolução Industrial, os parceiros Escócia e Inglaterra tornaram-se nos motores comerciais, económicos e intelectuais da Europa entre 1750 e 1850.

A existência da união tornou o Reino Unido na maior potência global da história do mundo.

2007-04-28

Reino (des)Unido-II



Scotland, nação independente
No periodo do Império Romano a ilha designada como província da Britânia, a ocupação do território Scotia nunca conseguiria ser ocupada, perdida sempre em lutas contra os Caledónios. A fronteira constituída então pelo (ainda existente) Muro de Adriano (Imperador Romano entre 117-138 d.C) é semelhante à que subsiste até hoje. Orgulhosos da sua coragem, cultura e independência, os povos escoceses de tradição ancestral celta, foram criando uma sociedade única que prevalece no imaginário de todos até hoje. Os valores da bravura, da pertença ao Clã, do respeito aos Deuses, mais tarde ao Deus cristão, pouco se modificaram, nem mesmo quando da coexistência com bretões e normandos (franceses) e anglo-saxões, muito menos com os constantes invasores, primeiro os noruegueses (da cultura Viking) e os ingleses depois. O sentido de identidade escocesa ultrapassa em muito o tempo real do Reino da Escócia (Rioghachd na h-Alba, em gaélico escocês antigo), independente entre 843 e 1707. Com uma constituição sócio-política assente em clãs, cujos chefes formavam uma assembleia nacional que tinha poderes para eleger o Rei soberano entre a classe nobre. Mas a partir do séc. XI, com a influência crescente de populações vindas da Normandia, foi instituída a regra da sucessão tal como nos restantes reinos da Europa. A manutenção dos costumes celtas na governação ocorria a par das novas formas feudais da época, onde a assembleia dos clãs ainda não se pode considerar como um parlamento. Este apenas emergiu cerca de 1235, desenvolvendo-se um pouco à semelhança do Colloquiom - o original Parlamento inglês - tornando-se num fórum influente e com poder, especialmente entre 1639-51 e 1689-1707.

O primeiro grande período de perda de independência existiu no final do séc. XIII, quando se perdeu a sucessão do trono escocês. A intervenção do rei inglês Edward I estabeleceu na Escócia um soberano fantoche e uma ocupação que deu origem pouco depois à rebelião e às Guerras da Independência. A primeira grande afronta à identidade e orgulho escocesas será quando, na batalha de Dunbar em 1296, os ingleses roubam um importantíssimo símbolo nacional, a Pedra do Destino, onde os reis escoceses eram coroados (devolvido apenas em 1996).
Nas Guerras da Independência emergiram diversos líderes e heróis nacionais. William Wallace é o mais venerado na Escócia. A partir de um clã no meio da Escócia ocupada, uniu-se à rebelião e tornou-se no mais forte oponente a Edward I de Inglaterra, sendo vencedor em diversas lutas, particularmente na Batalha de Stirling Bridge em 1297. Mas a derrota em Falkirk no ano seguinte, que levou à sua captura, torná-lo-à ainda maior que a lenda heróica que era, num símbolo nacional maior, livre e bravo, martirizado em execução pública - atroz, cruel e "exemplar", apenas destinado aos traidores - em 1303. E também Robert Bruce, um nobre escocês que se unira à "Resistência" e liderara diversas lutas contra o invasor. Este tornar-se-ia rei em 1306, mas as lutas contra os ingleses e nobres escoceses leais ao Reino de Inglaterra perdurariam ainda até meados do séc. XIV.

Será posteriormente, entre os séculos XV e XVI, que haverá maior prosperidade e desenvolvimento social, económico e político na Escócia independente. A época do Renascimento permitiu o florescimento cultural e universitário, e também o surgimento de correntes cristãs reformistas protestantes que tornaram o país maioritariamente Calvinista.

Mas as novas conquistas, no séc.XVII, de expansão ultramarina nas Américas (Nova Escócia no Canadá, e o Panamá) trazem para o país grandeza, mas mais incertezas e falhanços, pela incapacidade de gestão de tão longínquos territórios, a insuficiente população, mas principalmente face à crescente hegemonia inglesa no contexto global.



A primeira aliança

Como se vê, a história deste território do norte da ilha britânica está cheia de heroísmos, batalhas, traições e outras histórias não menos gloriosas, trágicas ou famosas. Sempre cobiçada pelos reis ingleses do sul, o Reino da Escócia teve uma vida tão conturbada quanto Portugal face a Espanha. No entanto, apesar de eternos inimigos, escoceses e ingleses sempre tiveram laços comuns, entre eles a mais importante é a língua. O inglês antigo era falado por quase todos os cantos da ilha, em partilha com dialectos antigos de origem gaélica, especialmente em locais de Gales e da Escócia. Mas a fusão dos vários idiomas de tantos povos que habitaram ou passaram pela Britânia promoveram a evolução para uma língua comum. Tal como Fernando Pessoa dizia "a minha pátria é a minha língua", a expansão do inglês foi a também a expansão da identidade e do poder político a toda a ilha da Grã-Bretanha e mais tarde à Irlanda.
Com diversos interesses comuns para além da língua - o território, a economia, a expansão ultramarina nas Américas - a relação entre ambos teve a partir de 1603 uma inovação suis generis. Com a Union of the Crowns, tratado entre os dois reinos, criava-se uma ligação política estreita, onde basicamente se respeitavam as independências de cada Estado, mas cujo chefe máximo era único, ou seja o Rei era soberano tanto de Inglaterra como da Escócia, sendo até a bandeira dos dois países sido unificada, com a cruz de St Andrew combinada com a cruz de St George, embora apenas a partir de 1707 tenha sido adoptada de facto. Apesar de costumeiras intrigas e conspirações, desejos de retomar a independência total e extensos debates nos parlamentos, a união foi existindo ao longo de todo esse século, onde a mudança do mundo com as novas colónias era cada vez mais veloz.

Mas parte dos contornos políticos dos dois reinos também advém de diferentes orientações religiosas que foram tão divisórias como unificantes. A Inglaterra (Protestante) temia que a Escócia (Católica) pudesse unir-se ao arqui-inimigo França (aliás parceira antiga dos Highlanders), que poria em causa a linha sucessória ou a sua independência. Confirmado em tantos episódios como o famoso caso de Mary Queen of Scots, prima francesa de Elizabeth I (filha de Henrique VIII fundador da Igreja Anglicana), condenada à morte por conspiração contra o Estado em 1587. E entre 1688 e 1697 na Guerra da Grande Aliança, o movimento escocês Jacobita encontraria novamente na França um poderoso aliado.

O sucessor da Rainha "Virgem", dentro do Union of the Crowns Act, foi em 1603 o rei escocês James VI, que se tornava assim James I de Inglaterra. Contudo a sua relação com o Parlamento, nada pacífica - inclusivé com a histórica conspiração falhada de Guy Fawkes para explodir o Parlamento de Westminster, o chamado Gunpowder Plot - colocou o status quo político de Inglaterra sempre em confrontação contra o absolutismo do Rei. Que seria reconfirmado pela actuação do seu filho, Charles I, que acreditavam no direito divino enquanto soberano e desvalorizando o Parlamento e os direitos deste registado na inovadora Magna Carta de 1215 onde se reconhece que o Rei responde perante os súbditos e o Parlamento apenas. O sentimento anti-monárquico foi crescendo ao longo quatro décadas, o que por fim irrompeu numa trágica guerra civil entre Royalists (monárquicos) e Parliamentarians (republicanos). Em 1649 Charles I foi executado e foi declarada a República. Contudo, dada a insuficiente cultura republicana (como hoje o conhecemos) pelo Lord Protector Oliver Cromwell e o carácter tradicional e mais eficaz da triáde Rei-Casa dos Lordes-Casa dos Comuns, a monarquia foi restaurada em 1660, curiosamente através do próprio parlamento.
Foram tempos igualmente conturbados para a Escócia o chamado periodo do Protectorado. Cromwell entrarria em conflito aberto contra forças escocesas que haviam nomeado o filho do rei decapitado como sucessor soberano do reino. Com fim da Guerra Civil, fora a Escócia a grande oponente do domínio militar republicano sobre o seu território, e uma das primeiras bases do Royalists para derrotar Cromwell que iria falecer em 1658.

Um século XVII tão conturbado, lutas de poder, mudanças de regime político e revoluções várias (a última em 1688 que culminou na Carta de Direitos), intrigas e conspirações, as tragédias de Londres (a peste de 1665 e o Grande Incêndio de 1666), os movimentos da Contra-Reforma, guerras contra os franceses foi moldando sentimentos e orientações polítcas e económicas que determinariam os acontecimentos futuros, em especial no início do século seguinte.

2007-04-23

Reino (des)Unido-I

Nacionalismos na Europa
A questão dos nacionalismos na Europa é uma questão tão interessante quanto preocupante. Séculos de conflitos onde territórios fizeram parte de uns e de outros, criaram nalguns locais sentimentos eternos de inferiorização, de submissão, noutros de assimilação e integração ímpares. Vejamos, no lado ocidental da Europa, os que, sendo territórios de afirmação diferenciadora cultural e linguisticamente, possuem relativa autonomia, mas cujas ambições nacionalistas podem pôr em causa o Estado onde actualmente se integram: Espanha (Galiza, País Basco e Catalunha), França (País Basco) e Bélgica (Flandres).

Agora no Reino Unido novos focos de sentimento e desejo independentista existem. O ímpeto nacionalista da Escócia e Gales tentam romper as amarras da União, particularmente com as eleições regionais do próximo dia 3 de Maio - dois dias depois de se completar exactamente 300 anos depois da constituição do Reino Unido, cuja designação oficial e completa é The United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland, Estas eleições podem, em cenários diferentes, ter consequências políticas para o Governo de Tony Blair e até mesmo para a entidade Reino Unido enquanto Estado. Nos próximos textos analisarei os diversos contextos e aspectos de como correntes nacionalistas podem pôr em causa a unidade do país.



Saint George's Day
A curiosidade do Estado Britânico é que, enquanto uma união de nações, é somente na Escócia e em Gales que o sentimento nacionalista é mais forte. Durante séculos a hegemonia inglesa sobre os outros povos da ilha roçou a arrogância e a sobranceria, mas agora não existe de facto um verdadeiro sentimento nacional inglês - excepto quando toca os conjuntos nacionais desportivos. De tal forma que hoje mesmo, 23 de Abril, é o Dia de São Jorge, santo patrono de tantos países e cidades mas que, venerado em Inglaterra como símbolo nacional (a bandeira de Inglaterra com a cruz vermelha sobre fundo branco é a St George's Cross), seja pela figura histórica, seja pelo mito da luta vitoriosa contra o dragão, não é afinal um feriado nacional. E muito se tem discutido estes dias esta questão e para torná-lo um feriado, ainda para mais quando é também o aniversário da morte de William Shakespeare, o mais famoso dramaturgo inglês reforçando a objectividade e a celebração da identidade nacional inglesa. Tem-se colocado diversas questões sobre como afirmar a nacionalidade, tal como os escoceses (St Andrew) e os irlandeses (St Patrick) com dias festivos e feriados nacionais. Creio que a questão da identidade inglesa se perdeu enquanto razão de ser a partir do momento em que a Inglaterra liderou o novo Estado, onde todos se tornaram britânicos. Ao longo do tempo e com os novos valores de tolerância e coexistência das últimas décadas, como em Portugal em afastamento da chaga salazarista, construi-se uma certa aversão ao nacionalismo, uma vergonha de quase existir com medo de provocar sentimentos negativos historicamente e xenófobos actualmente, indo até ao receio de que tal afirmação possa, também ela, pôr em causa a união. O que não significa que não haja uma percentagem que se supõe superior a escoceses e irlandeses, o que advém dessas mesmas contingências históricas e políticas.
Acontece que mesmo politicamente não tem existido qualquer partido nacionalista inglês, como vemos na Escócia ou em Gales. O British National Party, extrema direita xenófoba, defende a identidade britânica e o UKIP (United Kingdom Independent Party) defende a saída da União Europeia. Mas, ressurgido do anterior English National Party, afirma-se o English Democrats Party, cujos objectivos não são os mesmos de uma normal formação partidária nacionalista. Defendem que a Inglaterra deva ter os mesmos direitos e instituições como a Escócia e Gales, ou seja, o reconhecimento enquanto nação, e um Executivo e Parlamento próprios eleitos pelo povo, sempre na refundação dos princípios democráticos e do Reino Unido. É a questão da Devolution Act que abriu o precedente e o interesse renovado em que os ingleses possam governar-se a si próprios em iguais circunstâncias aos seus parceiros da União, pois afinal é o governo do Reino Unido que tutela a Inglaterra, através de nove territórios administrativos.
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2007-03-25

Grandes Portugueses-V

A Final
O meu maior receio concretizou-se. Recordando de antemão que não é representativo de toda a população - obviamente é um voto militante e, sim talvez, de protesto por outro, algo que não aceito - o resultado é confrangedor e vergonhoso. Os ideais de democracia e liberdade não foram totalmente assimilados nesta parte de população? Entenderão a verdadeira vantagem do regime actual para o anterior?
Aristides de Sousa Mendes ficou muito bem classificado - por momentos pensei que vencesse - mas, pela segunda vez consecutiva - após o Pior Português de Sempre - o velho abutre venceu a "eleição". Estará ele confuso sobre como festejar esta vitória? Curioso é verificar que, em sondagens - cujo método é científico e mais representativo da sociedade portuguesa - é D. Afonso Henriques quem ganha, relegando a dupla Salazar-Cunhal para o meio ou fim da tabela. É esse o Portugal que se deseja, mas não é isso que transparece. O discurso inicial da RTP "voto dos portugueses" transformou-se na "escolha dos telespectadores" tão somente, para evitar a sensação virar feitiço contra o feiticeiro.

A vitória não deixa de ser sinónimo do momento em que estamos. Fosse este concurso há 10 anos atrás e o vencedor seria outro. Tempos dificeis atravessam o país há algum tempo, mas não podemos justificar um voto de protesto actual com o sinónimo "antes é que era bom". Falso. O Estado Novo - intromissivo, policial, anti-democrático, constrangedor, retrógado, hipócrita - é fruto de uma época de nacionalismos e fascismos que se prolongou no tempo pois os seus líderes para trás no tempo ficaram. Uma vez aprisonado Portugal vemos que este passatempo, como tanto referiu Maria Elisa ao longo da última emissão do programa, é simbolicamente e sociologiamente sintomático de como grande parte dos portugueses se encontram ainda aprisionados, na derrota da assimilação dos valores democráticos e de algumas das suas conquistas - que todos sabemos incompleto - o falhanço da Educação e do Civismo. Quando antes se vivia em maior paz e as exigências eram menores, prensadas pelo regime, onde ambição era sinónimo contrário aos "bons costumes", o mundo também era outro. O mundo mudou, e para nós a mudança aconteceu muito mais tarde que no resto da Europa. Décadas e séculos de democracia no Reino Unido, em França ou nos países Escandinavos, tornaram esses paises sempre muito melhores que este rectângulo luso. Sempre a contemporaniedade nos relegou para o fim do pelotão, e o Estado Novo é o último responsável disso. O facto de o ensino obrigatório ter sido reduzido de 4 para 3 anos somente é pedra angular do mal que ainda subsiste no país. À parte o negativismo dos seus anteriores regimes, os novos membros da UE ex-comunistas, são muito mais evoluídos educacional e culturalmente e isso é uma alavanca enorme, com resultados visíveis a cada ano, na supressão das dificuldades, na evolução e no desenvolvimento. O problema é que o português sempre foi amorfo, acordando e trabalhando mais nas horas de contra-relógio. O país sempre padeceu de ambição, de sede de conhecimento e valorização, basta vermos a expulsão dos melhores do reino no fim do século XV (os judeus) e no séc.XVIII (os jesuítas), a ignorância educacional da nobreza até o séc. XVIII, o desperdício no desenvolvimento das colónias (o esbanjamento do ouro e o tráfico de escravos). Os homens que foram contra esta maneira de ser, estranha, peculiar, estão presentes na lista final deste concurso. Foram eles os visionários e de mente ambiciosa e positiva para fazer e mudar Portugal. Salazar teve estas características de forma retrógada e negativa; Cunhal fazendo diferente não faria melhor. Os mitos destas duas faces da mesma moeda precisam de ser rompidos, mas os resultados obtidos domingo contrariam isso. Prolongam o efeito nefasto de ambos num Portugal que se pretende Europeu do séc.XXI. O problema é que se esqueceu - como sempre por cá - do passado. A memória curta deturpa. Um sinal de castigo para os políticos actuais com os 41% de Salazar é uma idiotice. O contra-voto em Cunhal não é mais que a contínua luta anti-fascista que nada traz de novo ao país. O ontem divido e pobre é que o fica deste concurso, não a glória ou a grandeza, a universalidade ou ambição, legados positivos para o futuro.


Outros resultados
Quem, de fora, for comparar os resultados de cá com o mesmo concurso nos EUA, no Reino Unido ou na França, espantar-se-à com o "regresso" do ditador. Pensarão eles que afinal não somos tão democráticos como parecemos? Curioso será verificar os resultados em Espanha: como se classificará o "Generalissmo" Franco?

Vejamos os resultados, curiosos, noutros países:
Reino Unido
1º Winston Churchill, 2º Isambard Kingdom Brunel [o Fontes Pereira de Melo britânico], 3º Diana, Princesa de Gales [a grande polémica de lá], 4º Charles Darwin, 5º William Shakespeare, 6º Isaac Newton, 7º Rainha Elizabeth I, 8º John Lennon, 9º Almirante Nelson, 10º Oliver Cromwell [a segunda polémica na BBC] [instituíu o Republicanismo no séc. XVII mas anti-democrático terminando com o Parlamentarismo, auto-intitulando-se Lord Protector, ditador vitalício, finalizando este periodo conturbado quando morreu em 1658]
Onde está a Rainha Victoria?

EUA
1º Ronald Reagan [ex-actor, 40º Presidente 1980-88], 2º Abraham Lincoln [16º Presidente 1861-65 aboliu a escravatura e enfrentou a Guerra da Secessão sendo assassinado], 3º Martin Luther King, Jr, 4º George Washington [fundador dos EUA, o 1º Presidente 1789-97], 5º Benjamin Franklin [co-fundador dos EUA], 6º George W Bush [porque foi no momento imediatamente pós-9/11], 7º Bill Clinton, 8º Elvis Presley, 9º Oprah Winfrey, 10º Franklin D. Roosevelt [32º Presidente 1933-45, autor do New Deal pós depressão 1929 e da transformação do país]
Onde está JFK e Thomas Jefferson [co-fundador dos EUA, 3º Presidente 1801-09 e autor da inovadora Constituição Americana]?

França
1º Charles de Gaulle, 2º Louis Pasteur, 3º Abbé Pierre, 4º Marie Curie, 5º Coluche [comediante], 6º Victor Hugo [escritor], 7º Bourvil [cantor e actor], 8º Molière [dramaturgo], 9º Jacques Yves Cousteau, 10º Edith Piaf

Alemanha
1º Konrad Adenauer [Chanceler 1949-63, liderou a nova Alemanha pós-2GM], 2º Martin Lutero, 3º Karl Marx [polémica], 4º Willy Brandt [Chanceler 1969-74], 5º Sophie e Hans Scholl [astrónomos e anti-nazis], 6º Bach, 7º Guttenberg, 8º Goethe, 9º Otto von Bismarck [unificador da Alemanha], 10º Albert Einstein


Conclusão
Como disse Eduardo Lourenço, este concurso nada vale, mas simbolicamente fica. Foram apenas 65 mil votos salazarentos, mas a imagem do país fica manchada, não há como evitá-lo. No momento em que se consegue finalmente conhecer e entender melhor a figura sinistra do velho, numa catarse finalmente saudável, o que menos se pretendia era sobrevalorizá-lo, jogando a sua identidade contra a democracia algo que sempre repudiou. Quando se festejam 50 anos do mais fascinante projecto político, a Europa - que Salazar rejeitou - é incrível como parte da população portuguesa assim se manifeste. Esperemos que daqui a 50 anos o país seja diferente de facto. Que termine a ânsia pelos homens providenciais e autoritários, e se manifeste no colectivo valores justos, democráticos e humanos como de Aristides de Sousa Mendes.
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2007-03-23

Grandes Portugueses-IV

Choque de titãs
Na edição deste mês da revista Atlântico, Rui Ramos no artigo "Manual do Eleitor dos 'Grandes Portugueses'" destaca que "o facto de Salazar e Cunhal não terem sido democratas não lhes tira o direito de serem Grandes Portugueses. D.João II foi um assassino, e Pombal o mais violento e ganacioso tirano da história portuguesa, e isso nunca conseguiu perturbar os glorificadores de cada um deles." Duas faces de uma mesma moeda, a némesis um do outro, Oliveira Salazar e Álvaro Cunhal marcaram quase todo o século XX. Fico curioso, terão eles se encontrado cara-a-cara alguma vez?

Consigo imaginar a cena, clássica, negra e intimidante. Cunhal está nos calabouços da prisão de Peniche. Escura, fria e húmida a confinante cela não reduz o líder comunista. As paredes transpiram a adversidade daqueles tempos negros da luta clandestina contra o Estado Novo, enquanto que a Europa se reconstruía sobre as cinzas terríveis após a luta pela liberdade contra a tirania nazi. Ouvem-se passos no corredor. Cunhal não levanta os olhos da mesa onde abundam desenhos de contornos vorazes e mensagens fortes. Ao seu lado esquerdo uma edição inglesa de King Lear aberto algures a meio. Com concentração escreve sobre folhas de papel de carta as mesmas palavras de Shakespeare no idioma de Camões. A porta abre-se e o guarda afasta-se para, de entre a penumbra surgir uma figura tão familiar quanto sombria, elegante quanto repugnante. É Salazar.
- Vejo que não cessa de trabalhar, meu caro.
- Não creio que o senhor tenha algum prazer em ver-me deste modo - responde-lhe Cunhal voltando os olhos novamente às palavras escritas
- Pelo contrário Senhor Doutor, pelo contrário; 'mente sã em corpo são' é o que eu defendo.
- Neste antro, pelo menos consigo que a mente se mantenha sã. Que me quer?
- Trata-se de uma visita de cortesia, tão somente.
- Duvido que a sua cortesia, que não nego, seja motivo suficiente para o tirar de São Bento para vir até aqui tão longe. E estes ares não lhe fazem bem.
- Meu caro Cunhal...
- Se lhe sou caro, deva-me mais respeito. Ou melhor, a Portugal.
- Mas é por isso que aqui está. Pelo país. A sua... como direi, eloquência é talvez um pouco nefasta para o povo.
- Pelo povo o Estado Novo nada faz. A opressão que lidera apenas o diminui.
- Ora, ora, não seja assim tão agressivo. No fim de contas ambos pretendemos o melhor para Portugal, embora de pontos de vista muito diferentes é claro.
- Creio que sabemos bem o quão diferentes somos. E não é a sua visita que me fará mudar de ideias.
- Nem nunca presumi que fizesse. Não me julgue assim tão ignóbil apenas por saber fazer contas e possuir algum faro político, se me é permitido dizê-lo. Não pense também que me dá prazer vê-lo aqui, nestas condições. Mas os factos falam por si. E eu não posso permitir que ponha fim ao que de tão difícil me levou a construir. Ponho em cheque a sua sobrevivência neste ambiente hostil, mas é pelo bem da Nação.
- A minha sobrevivência prende-se no amor à liberdade e às minhas convicções de que há um Caminho Novo para melhorar as condições de vida do povo português.
- Se for como o seu camarada Estaline tem feito, não auguro nada de muito melhor. Mal por mal, fiquemos cá pelo que temos, honradinhos e sossegados. Devo-lhe mais respeito e honra que muitos líderes europeus. A minha admiração por si não impede contudo, que tenha de fazer opções duras, mas necessárias.
- Os seus sentimentos a mim nada me interessam. Com elegância devo dizer-lhe que o repudio, e mais cedo ou mais tarde, estarei eu do outro lado destas paredes que o senhor e o seu regime construiram sobre Portugal. A sua inédita visita dá-me a oportunidade de ver claramente nos seus olhos que o senhor professor não é o salvador da pátria. Os seus olhos mentem. Os seus olhos são frios. Sinto-o mais aprisionado que eu. Eu sou livre! E enquanto for vivo livre serei sempre, nada nem ninguém me fará quebrar. Não serei o desejado D.Sebastião, mas eu e os meus camaradas acreditamos numa sociedade nova, livre, democrática e desenvolvida. Pode demorar anos, décadas até, mas eu estarei cá para ver as ruas cobertas de flores e alegria pela liberdade enfim chegada. E o senhor, Dr Salazar, cairá, terá o seu fim - triste, solitário e fatal.
- Não o via tão caústico. Acredite numa coisa: enquanto eu fôr vivo, eu condicionarei a sua vida. Não se esqueça disso.
- Todos os dias - contrapõe Cunhal olhos fixos no de Salazar. Mas não se preocupe, eu durmo sempre bem.
- Tenha uma boa noite então, Dr Cunhal. Espero vê-lo novamente.
- Não conte com isso.
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Grandes Portugueses-III

Ser ou não ser, eis a falsa questão
Esta última fase do "concurso" da RTP teve uma campanha publicitária que, directa e incisiva, é novamente redutora nos valores dos "finalistas" que se pretende confrontadores, mas igualmente, e talvez mais grave, insidiosa e insinuosa em contornos estranhamente depreciativos e básicos. Apela-se ao programa, investe-se na audiência do canal, mas transmitem-se ideias-adjectivo de mal ou bem, parvo ou herói, vai ou racha. Podemos vê-los nos MUPIs de todo o país o apelo ao "Decida você" num jogo semântico enganador e historicamente insólito, partindo de critérios genéricos que todos podemos pensar, mas relegando as figuras em questão a meros sinónimos desses dois adjectivos, condicionando afinal tudo aquilo que o programa pretendia ser: informar, discutir, esclarecer sobre indivíduos que fizeram a História de Portugal. Publicitariamente correcto e eficaz, mas historicamente e pedagogicamente errados. Afinal, será por estas duas alternativas que um ou outro terá mais ou menos votos? Juízos de valor, paixões ideológicas e votos militantes serão os condimentos para a votação final, fugindo sempre, aos contextos e factos históricos.

Daí que diversos historiadores - entre os quais os respeitadíssimos José Mattoso e António Manuel Hespanha - se reuniram em baixo-assinado contra este programa. Colocar em dictomias quando em muitos casos foram ambas, e como diz Fernando Rosas (um dos subscritores iniciais) "é a anulação da própria História". O texto começa assim: "Custa a crer que alguém em seu perfeito juízo, se lembre de perguntar se Aristides de Sousa Mendes foi melhor ou pior que D.João II e proponha decidir o dilema por meio do sufrágio popular". Continua criticando a ideia, o formato, o objectivo, o custo." A RTP "difundiu o boato que o vencedor seria Salazar e que, nas finais, ele se defrontaria com o seu grande adversário, Álvaro Cunhal. O programa atrairia assim o máximo das audiências." Prossegue afirmando que a RTP "tratou de simplificar o quadro histórico e de diluir o rigor das referências". Conclui lamentando "a desinformação e a manipulação em curso. A História de Portugal, nas suas complexidades e contradições, nas suas grandezas e misérias, seguramente merecia outra coisa".


As frases:

Afonso Henriques: Bom rei ou mau filho?
Agredir a mãe terá sido o pior dos males deste rebelde? "Criei eu um filho para isto" terá pensado D.Urraca. "Nem conseguiram ganhar o Euro2004 e o Vitória está na segunda divisão".
O que é certo é que, reaccionarimente podemos hoje dizê-lo, iniciou um país, a primeira matriz de ser português. O primeiro português de sempre.

Álvaro Cunhal: Solidário ou totalitário?
O ideal comunismo visava a solidariedade entre os povos. Mas entre vizinhos ou membros do partido é que talvez não. Cunhal foi o último estalinista, mas o mais intelectual dos políticos. A sua luta de vida foi uma luta única e, nunca se desviando dela, forjou a resistência ao fascismo, o maior opositor do Estado Novo.
O 25 de Abril foi o início do fim do mito Cunhal. Na sombra e frontalmente tentou implementar o que sempre defendeu, mas todos sabemos dos malefícios dos regimes comunistas. O maior português de sempre, não. A némesis de Salazar.

Oliveira Salazar: Salvador ou ditador?
Dor. Eis o que une as duas palavras. Ainda hoje, de diversas maneiras. Um homem do seu tempo que fez o país permancer tempo de mais no seu modo. A redefinição psicológica e social da sociedade foi formatada com o Estado Novo, com consequências nefastas até hoje. Redução da escolaridade obrigatória, coacção silenciosa sobre a população, censura, polícia política, ditaura fascista sui generis, guerra colonial. O maior português de sempre, nunca. A némesis de Cunhal.

Aristides de Sousa Mendes: Consciente ou desobediente?
Conscientemente desobediente. Acreditava em valores contrários ao regime do seu país. Pagou duramente por isso. Pelos seus ideais e princípios. É um dos "justos" de Israel. Fará isso dele um mero reguila? O mais justo português de sempre.

Fernando Pessoa: Inspirado ou alienado?
Se a genialidade de um escritor de craveira universal lhe dá o epíteto de alienado, apenas por ter vários heterónimos, cada um com identidades literárias únicas, então também eu sou alienado por que me apetece. O mais universal português de sempre.

Infante D.Henrique: Empenhado ou interesseiro?
Como diz? Estratégia e visão de expansão.

D.João II: Visionário ou torcionário?
Era o Principe Perfeito mas também o Tirano. Papel primordial na História do país e das Descobertas. O Tratado de Tordesilhas e toda a política secreta de expansão são elementos extraordinários de gestão política e estratégica. No século XV ainda os fins poderiam justificar os meios.

Camões: Poeta ou aventureiro?
Pensava que era coisa boa ser-se aventureiro. Então e as histórias de capa e espada, corsários e donzelas, viagens e batalhas não podem ser objecto de poesia? Obras-prima da literatura mundial. O maior poeta português de sempre.

Marquês de Pombal: Iluminado ou sanguinário?
Ambas. Mas a sua "iluminação" não fez tudo sozinho. Hoje tão branqueado como a peruca da época. O mais poderoso político português de sempre.

Vasco da Gama: Descobridor ou corsário?
Os meios sempre justificaram os fins. Os fins perdoavam qualquer método. Outros tempos. Jack Sparrow nunca o conheceu. Mas o deu mais a Portugal e ao Mundo, que qualquer outro navegador antes dele, situando-se no pódio com Cristóvão Colombo e James Cook.



Documento ou propaganda?
Esta segunda etapa tem sido uma manipulação, particularmente quando se visionam os documentários coordenados e apresentados pelos seus "defensores". Não tendo visto todos, de dois posso dizer que foram quase abjectos. Mal realizados e filmados, pelo menos sem a qualidade que julgava exequível ao tipo de programa. A defesa de Afonso Henriques foi uma chatice (não consegui ver tudo) e, como li depois, com erros históricos e cronológicos. O de Salazar, apresentado pelo monocórdico Jaime Nogueira Pinto, igualmente fastidioso, foi chocantemente omissor de tanta realidade e factualidade, cinjindo-se apenas ao customeiro "salvou-da-bancarrota-e-da-guerra". Nada mais! Nem as eleições após a 2GM, nem a queda e a morte sequer! Isto não é expôr a História, é tão somente -afinal, defensores é mesmo o termo correcto - branquear a História. Como vem no texto do abaixo-assinado dos historiadores "mais parecia editado pelos serviços de propaganda do Estado Novo". E se isto se passou nestes programas, imagino nos restantes. Até onde terá Portas ido a defender D.JoãoII? Quanto terá Odete Santos "esquecido" sobre Cunhal? Terá Aristides de Sousa Mendes sido "endeusado" por José Miguel Júdice? Propaganda? No entanto tenho pena de não ter visto todos.


Manual do Eleitor dos 'Grandes Portugueses'
Todos nós somos feitos de boas e más acções. Ninguém é perfeito, e por isso ninguém pode ser unicamente o maior português de sempre. Podem valores tão díspares colocar alguém acima de outrém? O concurso é uma exacerbação de preferências assentes em juízos de valor somente. Muitos considerarão Afonso Henriques como o melhor porque somos o que somos hoje, mas simultaneamente o pior por sermos o que somos hoje. Na edição deste mês da revista Atlântico, Rui Ramos no artigo "Manual do Eleitor dos 'Grandes Portugueses'" explica a determinado passo que "Todos foram 'grandes'. Mas talvez não pelas razões que nós atribuimos à sua grandeza. Ao votar neles, estaremos a votar em figuras que reduzimos a simples cabides dos nossos devaneios e sonhos, a projectar no passado as virtudes que hoje apreciamos. Ora a história, aquela que é feita pelos historiadores, é precisamente feita ao contrário, de distanciamento, da descoberta de diferenças."
Rui Ramos prossegue com muita acutilância, ironia e humor quando elabora um quadro "Diz-me que és, dir-te-ei em quem votas". Exemplos: Funcionário Público - colega Artistides de Sousa Mendes; Taxista - Salazar, porque no tempo dele não se via este trânsito que é uma vergonha; Antifascista - Salazar, para poder ir à TV denunciar o perigo fascista; Anticomunista - Cunhal, para poder ir à TV denunciar o perigo comunista; Paulo Portas - D.João II, porque quer mesmo ganhar e precisa de todos os votos; Alberto Caeiro - Pessoa; Devasso arrependido - Camões; Blogger - Salazar ou Cunhal, para se poder indignar; Mário Soares - nenhum, ingratos!

E eu? Admiro imenso Aristides de Sousa Mendes, aprecio bastante Pessoa e Camões. Cunhal e Salazar são figuras fascinantes. Estes e todos os restantes davam óptimos filmes e séries de TV, fosse Portugal levado mais a sério. Não voto. Nenhum. Com todo este palavreado todo acham que ainda iria gastar €60+IVA?
Mas quem poderá ganhar? Domingo à noite é a "Grande Final".

Grandes Portugueses-II

Eu votei Padre António Vieira
Ficou em 33º, abaixo de Luis Figo e Marcello Caetano... Foi um dos primeiros defensores dos direitos humanos e da diversidade e identidade cultural dos povos - nomeadamente os índios do Brasil para onde viajou 7 vezes. Com tenacidade, frontalidade, espírito livre e audaciosa clareza, esta figura maior do séc. XVII marcou com as suas acções e os seus históricos e famosos sermões, no seu tempo até hoje. Personagem fascinante como Fernão Mendes Pinto (88º) e Gil Vicente (83º), o Padre António Vieira é uma das maiores figuras da humanidade.

A lista dos 90+ contém nomes de extraordinário e valor. Na Política Rei D.Dinis (24º), Maria de Lurdes Pintasilgo (36º), Rei D.João I (37º), Rainha D.Maria II (71º), Afonso Costa (73º), Fontes Pereira de Melo (74º). Na Cultura Professor Agostinho da Silva (21º), Eça de Queirós (22º), Florbela Espanca (34º), Sophia de Mello Breyner (38º), José Saramago (44º), Bocage (78º), Natália Correia (86º) marcante também politicamente, Damião de Góis (92º), António Lobo Antunes (82º), Miguel Torga (85º). Nas Descobertas Fernão de Magalhães (35º), Afonso de Albuquerque (42º), Pedro Álvares Cabral (49º). Na Ciência Pedro Nunes (32º), António Damásio (41º), Manuel Sobrinho Simões (77º).


A subjectividade de ser Grande
A "eleição" do maior português tem outros motivos de curiosidade. À luz do nosso tempo, por exemplo, o Marquês de Pombal é quase um herói, com direito a estátua bem no centro da capital. Mas no seu tempo e nos anos seguintes terá sido assim? Ministro todo-o-poderoso do reino foi responsável por tantas boas medidas como por atrocidades. Um homem das luzes no empresariado e no desenvolvimento do país, na reconstrução de Lisboa. Um homem das trevas quando foi responsável por tantas mortes e conspirações, entre as quais a eliminação de praticamente toda a linhagem Távora, que com requinte e malvadez da época, foram chacinados em praça pública. Prodedimentos não muito diferentes da contemporânea Revolução Francesa, onde a execução se pretendia mais civilizada, mas não menos cruel. A morte de D.José foi a única hipótese para o seu afastamento imediato, relegado ao seu cantinho em Oeiras onde foi esquecido em ódio dos demais. Erguer-se-ia uma estátua então? Para o degredo quem ousasse tal sugestão. E esta linha de pensamento tem a ver com outro "candidato" mais próximo de nós: Salazar. Presente na memória de muitos e na matriz do país ainda, o líder da única ditadura não militar do século XX europeu terá, trinta anos após a Revolução dos Cravos teria direito a uma estátua? Todas as que haviam foram derrubadas ou armazenadas, e hoje é absolutamente certo que nunca verão de novo a luz do dia. Presos ao ódio ou ao formato politicamente oposto, essa possibilidade é inviável para Portugal. Mas, poderá sê-lo daqui a duzentos anos? Repetir-se-à o sucedido com Pombal? A História é por vezes vulnerável aos momentos políticos e a memória condicionada ou reformulada de acordo com contextos por vezes contrários à neutralidade histórica. Quando a memória do Salazar-ditador desaparecer, tornar-se-à ele num Grande Português sem quaisquer dúvidas?


O efeito Salazar
Mas as discussões mais inflamadas até ao fim deste primeiro escrutínio centraram-se na omissão/existência de Salazar nesta lista e na possibilidade de obter mais votos que o desejado/merecido. O que é certo é que obteve muito mais do que aqueles que em vida nunca recebeu. Os debates na TV tiveram quase todo o tempo sobre a memória e os ideais da democracia com a presença ameaçadora do velho de Santa Comba Dão. Recordo-me de Joana Amaral Dias do Bloco de Esquerda se afirmar indignadíssima e envergonhada se Salazar figurasse entre os 10+. O medo ainda existe, a sombra negra do Presidente do Conselho prosta-se sobre um país ainda marcado por 48 anos de Estado Novo, de ódio a um regime e à sua personificação opostos à actualidade. É notória que o país não soube reconstruir-se interiormente, fazer as pazes consigo próprio, enfrentar com mais serenidade um periodo histórico marcante e perturbante. E isso é tanto mais quanto mais votos Salazar obtiver. A memória curta é vulnerável ao branqueamento. A ignorância é susceptível ao imaginário. A frustração é permeável ao saudosismo. É ainda tão marcante a sua figura que dominou quase todos os debates e escamateou oportunidades de ouro para revelar as outras personagens. Mesmo que o modo de votação não seja universal como em qualquer eleição, ou numa representação por sondagem, a presença de Salazar paira ameaçadora nas consciências e nas memórias dos portugueses. Estarão estes tão esquecidos do que ele foi? Terão as novas gerações pós-25 de Abril noção do que representou a obscuridade do Estado Novo? Caiu a memória no lixo, ou será a mera ignorância dos nossos dias consequência da despolitização da sociedade e incompreensiva dos custos que a história recente teve sobre o país? Estas questões levantam sérias dúvidas sobre se o conceito de democracia é bem entendido, confrontado que está e contestado que é, na sua verdadeira e leal aplicação diária.


"se Salazar ou Cunhal não ganharem, o concurso há-de se esquecer duas horas depois"

Esta frase de Rui Ramos (in Atlântico) resume tudo. O desafio, a pertinência do debate, a perigosidade do resultado, a sedução do confronto, a ameaça da ideia, são chamarizes muito fortes para a conquista do espectador, das audiências, dos patrocínios. Afinal contra a lógica de uma real contextualização historiográfica, mas claramente a favor de um espectáculo televisivo de sucesso.
In the end there can be only one, eis a frase original retirada da série The Highlander/Os Imortais usada agora para rematar os cartazes de promoção. It's showbiz.

2007-02-28

Grandes Portugueses-I

Conceito de Grandeza
Como podemos definir alguém? Pelo que é, pelo que faz ou fez? Ou pelo que permitiu, induziu ou iniciou? Pela sua bondade, entrega e altruísmo? Pela sua destreza, pela sua coragem ou audácia? Pela sua ideologia, crença ou mero dogmatismo? E com cada um destes parâmetros poderemos nós alcançar uma hierarquia valorativa num contexto tão global quanto diversificado? Está para breve o final do concurso da RTP1 Os Grandes Portugueses. Mas até lá muita água já correu debaixo das pontes, e muita argumentação sobre o real significado quer do concurso em si (será válido?), quer dos "candidatos" (questionáveis, polémicos ou injustos) que competem por lugares num ranking de 1 a 100.
As nossas vidas são caminhos de muitos altos e baixos, de aspectos negativos e positivos. Qualquer um deles fará de nós melhor ou pior. Mas poderá fazer-nos maior que outro, mesmo de outra área ou outro contexto histórico? Regemo-nos por ideias, utopias e opções e isso condiciona o que somos e o que pensamos dos outros. Não seria mais lógico (ou mais fácil) eleger a partir de sectores específicos, como artes, ciência e política?

Mas como pode uma pessoa valer mais que outra? Serão as suas qualidades da mais diversa ordem classificáveis? Nos moldes em que este concurso está assente, juntam-se alhos com bugalhos, vejam-se alguns exemplos dos resultados. Em vigésimo lugar ficou José Mourinho, valerá ele mais que o Professor Agostinho da Silva (21º)? De uma forma que diria insultuoso a todos os que estão nesta lista, temos nomes que lá foram parar por óbvia militância, como Pinto da Costa (17º!); a ex-ministra da Educação no Governo Santana Lopes, Maria do Carmo Seabra (58º) que apenas lá esteve por 4 meses e com uma enorme barraca informática na colocação dos professores; e um actor de telenovelas chamado Hélio Pestana (79º). Como podem cada um deles, onde se presume "eleger" figuras que deram bom nome ao país, ter qualificação para integrar uma lista deste género onde Salgueiro Maia (11º), Fernão de Magalhães (35º) e Mariza (61º) são reconhecidos por todos como elementos muito importantes da História deste país? Pode um futebolista ser mais importante que um cientista, ou um estadista democrata (Mário Soares, 12º) ser menos que um estadista ditatorial (Salazar nos 10+)? É aqui que cai por terra uma real validação destes dados que nos é apresentada.

Num território de dez milhões de pessoas, 100 mil votos classificaram 100 entre quase 300 nomeados, ou seja, apenas 10% da população contribuiu para esta votação. Então, não podemos considerar sequer como uma estatística, uma representação do sentir português sobre os seus elementos mais destacáveis. Tal como nas sondagens no entender dos políticos, isto vale o que vale, e quanto a mim vale, de facto, muito pouco. Mais precisamente 10%. E portanto não podemos extrapolar em demasia o contexto desta "votação". Mas podemos e devemos questioná-la, para níveis de entendimento e desenvolvimento de ideias que vieram inovar o panorama nacional no seu todo. Ao fim e ao cabo quem são os Grandes Portugueses? Como os entendemos como tal? Como nos vemos enquanto Portugal? Essa é a conquista deste programa: a discussão sobre a nossa identidade, os nossos valores, os nossos ideais.


O Pior
Com pertinência e humor, o programa da SIC-Notícias "Eixo do Mal" e o suplemento do Público "Inimigo Público" ambos com equipa das Produções Fictícias fizeram a sua lista: "O Pior Português de Sempre". Aqui os que mais contribuíram para o mal do país, o que de pior representa ser português. O confronto Salazar-Soares quase dava uma inédita ao "pai da democracia portuguesa", mas a vitória coube ao velho ditador. E a mulher, Fátima Felgueiras. Mais uma vez militância eleitoral, mas esta iniciativa ainda menos é para levar a sério. É para rir. É bom remédio, expiamo-nos e desenvolvemos civilizadamente o nosso sentido de humor.

2007-01-17

O castigo como elemento definidor do espaço



Quando pensamos em prisões, lembramo-nos sempre daqueles espaços sujos e perigosos dos filmes ou séries de TV, ou mesmo das imagens degradantes vindas das sobrelotadas do Brasil, sempre ávidos para mais uma rebelião. Mesmo as de cá surgem-nos como ambientes hermeticamente estranhos e igualmente desumanizados. Todos estes aspectos constroem em nós uma ideia de local como castigo - que o é de facto - confinados que ficam os condenados, e bem (salvo os injustamente presos, mas isso é outra conversa). Mas quando um indivíduo é enviado para a prisão espera-se que esta, enquanto instituição do Estado, seja um local regenerador e reabilitador do condenado, onde a perca da liberdade seja o desafio para a sua consciencialização do mal que fez à sociedade e o pagar justo com a sua pena judicial. Numa época onde dinheiro não abunda nos meios mais necessários, a crescente sobrelotação das penitenciárias torna pertinente a edificação de mais e novos espaços. E é aqui que um pormenor, caindo na normalidade sem importância, se revela como a peça chave para a conceptualização de uma prisão: como criar um espaço prisional onde, obviamente confinador e penal, seja ambiente de castigo, mas igualmente digno? O que nos leva a uma série de outras interrogações. Como definir castigo numa sociedade mais civilizada? Como definir o castigo num ambiente arquitectónico? Como atribuir a uma pena, a reabilitação do indivíduo para a sociedade? Como conceptualizar um espaço, dentro dos modernos parâmetros da arquitectura, onde isso seja possível?



O exemplo de uma penitenciária na Áustria suscita estas e diversas outras questões. Umas pertinentes, outras até politicamente incorrectas. É, no fundo, uma transposição da essência da sociedade que temos, e do nível civilizacional que queremos atingir. O absoluto oposto de Abu Grahib, Guantanamo ou o Tarrafal, o Justizzentrum Leoben da autoria do gabinete Hohensinn Architektur, apresenta um projecto arquitectonicamente simples e fascinante, desde os conceitos técnicos e estéticos, que interferem claramente naquilo que é: um moderno espaço judicialmente punitivo e sociologicamente reabilitador. Não isento de críticas ou de óbvias divergências no seu conceito, todo o projecto advém daquilo que deverá ter sido pedido: através das instâncias judiciais e políticas austríacas. Contudo não devemos esquecer dos funcionários que lá trabalham. Também estes estão correlacionados com o espaço, e são a outra face da moeda que é o sistema penal.



Não entendendo alemão, não posso clarificar as minhas curiosidades e dúvidas quanto a este projecto, mas é claramente um assunto, delicado, mas sociologicamente notório de como a arquitectura, e o objectivo do seu uso, é definidor do espaço e das relações das pessoas com o espaço e, das pessoas entre si e em si mesmas.

2006-02-10

Democracia x Dogma VI

Desatentos
"As pessoas, mesmo atentas, não parecem dar-se inteiramente conta de que se está a passar, ou a evidenciar, algo decisivo e inédito: a entrada oficial em guerra contra o Ocidente. Tornou-se patente que o terrorismo se está a converter num habitus, numa segunda natureza, senão já na primeira, da alma árabe-muçulmana. Melhor dito, nem de terrorismo se trata: tornou-se patente que quem nos quer destruir não tem a menor ideia da justiça, ainda a mais frustre, está mundos atrás do próprio Talião: se acho que me ofendes porque troças da barba do Profeta (ou porque me olhas de viés, já está a acontecer), tenho automaticamente o direito de desejar a tua morte, assassinar-te, em qualquer circunstância - kill é o verbo que mais se lê nos cartazes -, sem qualquer consideração de proporcionalidade entre o mal que acho me fazes e a violência da minha resposta. Assiste-me ainda o direito não menos absoluto de convidar a minha tribo a amplificar o meu gesto. Em perfeita boa consciência, como estamos a ver, sem precisão de qualquer Al-Qaeda atrás. Para Portugal é um triste dia, já que o primeiro-ministro não parece disposto a demitir o seu ministro dos Negócios Estrangeiros."

Fernando Gil, filósofo


Senso comum
"Que algumas manifestações tenham sido organizadas não deve surpreender-nos, porque já se sabe como é fácil. E também não me surpreendeu a violência com que se deram. O que me apanhou mesmo desprevenido foi a irresponsabilidade do autor ou dos autores dos desenhos. Alguns opinam que a liberdade de expressão é um direito absoluto, o único direito absoluto que existe, enquanto todos os outros são relativos. A realidade crua impõe limites. Imaginemos que o desenhador dinamarquês, em vez de fazer um desenho a ridicularizar Maomé, faz um dizendo que o director do jornal é um imbecil. Seria muito corajoso, mas no dia seguinte estaria provavelmente na rua. [... Autocensura?] Não se trataria de autocensura, mas de usar o senso comum. Numa situação como a que vivemos, e conhecendo a susceptibilidade que há em redor destes temas, o senso comum ditar-nos-ia o que fazer. Alguém verdadeiramente responsável que tivesse consciência de que um desenho pode ser como lançar gasolina sobre o fogo, guardá-lo-ia para melhor ocasião."

José Saramago, escritor
Excerto de respostas ao El País

2006-02-08

Democracia x Dogma V


Assiti ontem à noite a um interessante debate na SKYnews. Por causa da sentença ao clérigo muçulmano aqui mostrado na primeira página do Guardian, Abu Hamza al-Masr, personagem terrífica (tem uma prótese em garra metálica a substituir uma mão perdida algures) condenado num tribunal londrino a sete anos de cadeia por incitamento a assassinatos e ao ódio racial. Ora no debate tínhamos num lado um membro da congregação de Hamza, vestido como um religioso, de língua afiada e viperina, de conduta intelectual radical e anti-democrática, de idealismo dogmático e intolerante. Do outro, um cidadão, igual a qualquer um de nós, igualmente muçulmano, defensor dos ideais democráticos e da livre expressão, contra o radicalismo e defensor da setença proferida contra Hamza. O muçulmano radical insurgia-se contra tudo e todos, calando-se poucas vezes, tão cego naquilo que acreditava, vociferando que Allah isto e o Profeta aquilo; que o Al-Quran dizia que o primeiro ser humano na Terra foi muçulmano - Adão - logo nenhuma outra religião tinha direito a existir; que não obedecia às leis do Estado Britânico, apenas a Allah e ao Profeta. O muçulmano cidadão democraticamente calava-se - mas nem é só uma questão de democracia, é de boas maneiras primeiro - e na sua vez, interrompido diversas vezes, explanava a sua opinião, verdadeira, justa e livre, em palavras semelhantes às aqui e em tanto outros locais defendidas.


Alguns excertos dos discursos de Hamza:
"We ask Muslims to do that, to be capable to do that, to be capable to bleed the enemies of Allah anywhere, by any means."
"You can't do it by nuclear weapon, you do it by the kitchen knife, no other solution. You cannot do it by chemical weapons, you have to do it by mice poison."

2006-02-07

Democracia x Dogma IV

O islamismo vive hoje, e em particular o Médio Oriente, tempos tão difíceis que a argumentação da vitimização e da bárbarie se afirmam sobre a racionalidade e tolerância. A encruzilhada em que mergulharam tem-nos arrastado cada vez mais fundo, e as reacções dos últimos dias são sintomáticas de quão volátil pode ser qualquer rastilho.

Nos editoriais e comentários de hoje selecciono as seguintes linhas:

"Primeiro, uma parte do mundo muçulmano está a travar uma guerra de civilizações, gostemos ou não desse facto. Segundo, o Ocidente ainda não decidiu se deve lidar prioritariamente com essa parte do mundo muçulmano ou com os que se comportam pacificamente."
Christhopher Caldwell, Financial Times

"Quando se queimam bandeiras dinamarquesas nas ruas de Gaza ou de Beirute não é por causa da maldade de Israel ou dos pecados do "Grande Satã" americano: é porque nessas ruas o que não se aceita é que a liberdade de expressão implica, como explicaram os grandes pensadores liberais desde o Iluminismo, que por vezes temos de suportar ofensas. De as tolerar, se preferirmos. A única coisa que não pode ser tolerada é a limitação da própria liberdade, é a destruição dos seus fundamentos."
José Manuel Fernandes, Público

"Haverá melhor forma de alimentar a islamofobia no Ocidente do que considerar justificáveis os actos dementes e de violência contra o Ocidente? É preciso mudar os termos da discussão e pôr fim de uma vez por todas ao politicamente correcto. (...) Mas é fácil de admitir que, depois dos atentados terroristas cometidos em solo europeu em nome de Alá e do seu profeta, estas imagens alimentem a islamofobia na opinião pública europeia. A questão excede, em muito, o debate sob a liberdade de imprensa."
Teresa de Sousa, Público

"Quando os caricaturistas dinamarqueses deformam a imagem de Maomé estão, em primeiro lugar, a pôs em causa a dimensão do sagrado. Independentemente do facto de ser Maomé, devemos pôs a questão: é legítimo caricaturar o sagrado? (...) a reacção muçulmana faz parte do confronto entre a cultura muçulmana e a cultura ocidental."
Eduardo Prado Coelho, Público

"Se alguma coisa tornou evidente o caso dos cartoons publicados pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten foi a reduzida visibilidade, margem de manobra e peso político dos chamados "muçulmanos moderados" não só nos países de maioria muçulmana, mas também nas diásporas dos países ocidentais.
(...) O que ficámos a saber foi que um número elevado de governantes, líderes religiosos, responsáveis políticos e órgãos de imprensa muçulmanos considera que os preceitos religiosos da sua religião devem ser impostos em todo o mundo e a todas as pessoas - mesmo àquelas que não professam a sua religião - com a força de uma lei universal e sancionados com penas de rigor medieval. (...) Estamos muito, muito longe de Voltaire.
(...) Tal como aos muçulmanos, vale a pena explicar aos políticos europeus que a liberdade de imprensa não se deita para o lixo, quando acontece estar ao serviço de ideias que não nos agradam."
José Vítor Malheiros, Público


Nota:
em comentário encontram-se textos retirados de jornais estrangeiros

Democracia x Dogma III

Durante séculos edificámos na Europa, e no Ocidente em geral, particularmente após as revoluções Francesa e Americana, uma sociedade assente na triáde liberdade-fraternidade-igualdade e na herança greco-romana. Árdua e conflituosa foi a construção de uma comunidade que se pretende designar como moderna e civilizada, onde o direito de cidadania, da liberdade de expressão, de imprensa, de culto, de reunião sejam tão intrínsecamente consagrados que o ódio, a vingança e a violência sejam considerados crime, julgados na imparcialidade da lei, evitados no paradigma da convivência e da paz. É isso que não existe no mundo árabe. O sentido e a compreensão destes ideais ainda não atingiu na verdade o pleno nesta imensa comunidade. São factores complexos e variados que não nos permitem estabelecer soluções imediatas ou tão pouco, acções e reacções injustificadas. Vejamos as comunidades residentes no nosso território ocidental - à parte o crescente fundamentalismo que se alimenta da ignorância - houve algum tipo de reacção semelhante ao Líbano, Síria ou Indonésia? Não. Porque os muçulmanos que vivem entre nós entendem e vivem a democracia e a liberdade, e é isso que os diferencia: não a cor da pele, não a língua.

No entanto o nosso legado civilizacional é ainda imperfeito, mas disfuncional e dilacerante são os estados e as sociedades de alguns países onde a religião islâmica é maioritária. Na Europa temos três países muçulmanos que muitos esqueçem e outros evitam inserir - a Bósnia, o Kosovo e a Turquia - onde a crescente influência democrática os tem colocado longe das confusões fundamentalistas. Porque o Estado e a Religião constituem-se como factores separados e independentes. O dogma religioso quando exponenciado à condição de orientação estratégica de um Estado condiciona a visão, a conduta e a vida das pessoas. E que tem levado a formas tão diferentes de interpretar o Al-Khoran, desde a loucura Taliban no Afeganistão até às ditaduras no Iraque ou no Sudão. Estas visões tem colocado no poder homens (nunca mulheres) que ostracizam o povo que é usado para odiar o Ocidente, colocando-os no prisma de cá como uma religião do ódio e da violência. Então, como conceber que no Paquistão e noutros países do Sudoeste Asiático, tenham havido condutas democráticas e mesmo mulheres como primeira-ministras e presidentes?

Sendo a religião uma forma de viver a vida, não é em si mesma a melhor maneira de fazer viver o Estado e uma comunidade, condicionando-a tanto na sua liberdade individual como no seu todo. O choque que presenciamos, é na sua essência óbvia uma questão (vasta) de liberdade, e com isso um ideal de civilização multicultural, e acima de tudo a paz.

2006-02-06

Democracia x Dogma II



A perigosidade destes eventos colocam-nos, europeus, sob a condição de xenófobos. O que é certo é que a "rua europeia" (em contraponto à "rua árabe") ou seja, o comum europeu, apenas verá estas colisões como mais razões para o ostracismo, o desprezo e em último lugar ao xenofobismo. O que nos diferencia hoje é o meio no qual vivemos, nós em liberdade e democracia, eles sob um jugo dogmático onde religião e política se (con)fundem perigosamente. Falta-lhes passar por processos de reforma e renovação como aconteceu por cá desde o séc.XV até o séc.XIX. Dos paradigmas da fé até aos conceitos de Estado e política.

Mas o que muita gente esquece (ou ignora) e que nos faz julgar mais que os outros é que a conflitualidade e o paradigma absoluta da fé colocou durante séculos os europeus em guerra e em actos de imperialismo. Também a Europa, enfrentou momentos infelizes na sua história e que o mundo muçulmano foi durante séculos a civilzação mais avançada do mundo. O que muita gente desconhece é que o desprezo e o isolacionismo, a incorrecta orientação política baseada na fé empurrou o mundo árabe-islâmico para onde hoje se encontra. Mas este mundo fascinante não é imune à liberdade e à democracia - vejam-se os exemplos da Turquia e o Iraque, e apesar da vitória do Hamas, do exemplo da Palestina. A ocorrência destes paradigmas que potenciam a paz e a concórdia são elementos primordiais para colocar esta região do mundo no centro das atenções. O fenómeno da globalização, no seu contexto sócio-cultural, não é recente, mas no seu contexto político-económico tem produzido diversos factores de desestabilização e inquietude.

Democracia x Dogma I



Onde existe democracia e liberdade existem comportamentos civilizados. Onde a religião é a âncora do Estado, esta é exacerbada para caminhos onde o dogma significa mais que o respeito pelo Homem, onde o fundamentalismo se pode alimentar da miséria e da ignorância provocados por essa mesma orientação teológico-política, e ser caminho aberto, com estas razões, no incitamento ao ódio e à intolerância, colocando dois mundos cada vez mais afastados. Quando a aproximação em tudo beneficiaria os povos em questão e o mundo em geral. Os cartoons foram uma acha para a fogueira, cuja cíclica e eterna incerteza no Médio Oriente seriam em tudo indesejáveis.

Tal como Luis Salgado de Matos afirma hoje no Público "Alguns dos outros desenhos dinamarqueses só não são ofensivos para os europeus. Como o resto do mundo é religioso, os europeus correm o risco de ofender sem repararem. Aliás, os europeus só repararam no que tinham feito depois da ameaça de boicote comercial" e acrescenta "O mundo islâmico protesta sem ter visto os bonecos, cuja reprodução é proibida. A rua árabe protesta porque tem sentimentos de inferioridade, porque se julga discriminada - pois os europeus, julga, proíbem ofensas ao Deus judeu, e por outras razões, menos honrosas. Os manipuladores da rua árabe querem fazer vergar os não islamitas."
As reacções são exageradas e injustificadas, alicerçadas na intolerância, na ignorância, na exploração maldosa destes factores, na falta de cultura democrática.

Sendo, acima de tudo, a liberdade de expressão um direito a defender, a reedição dos cartoons foi uma provocação desnecessária. Uma parte do problema coloca-se aqui: deveriam ou não ser mostrados as caricatituras de Maomé? Sim. Mas a gravidade da situção ultrapassa em muito isto: a reacção demonstra como o conflito civilizacional pode ser mais grave a cada rastilho, e para nós ocidentais injustificável e inqualificável o modo violento das reacções por todo o mundo islâmico.