2011-02-11

Renovar a Democracia


Democracia etimologicamente significa o poder do povo, e como tal, enquanto sistema político, não sendo perfeito, é aquele que melhor garante os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Como tudo na vida é política, tal sistema nunca é garantido por completo, pelo que cabe aos mesmos cidadãos velar pela execução, manutenção e melhoramento da democracia. Impende sobre os cidadãos o dever de intervenção e defesa desses tão intrínsecos valores, tal como objectivamente promover a ética, a responsabilidade e a defesa do bem comum. Porque é possível fazer melhor.

Por isso criámos o blog Renovar a Democracia, um espaço dedicado a todos os que no seu quotidiano, sentem a necessidade de reflectir sobre aquilo que os rodeia. Sobretudo em matérias como a condução do destino colectivo, a vida em sociedade e a necessidade de mudança que o presente teima em mostrar. É um espaço que procura a reflexão ética e responsável, independentemente da sua origem ideológica ou social.
Não fomos por arrasto de movimentos que entretanto foram surgindo. Trata-se de um projecto cuja idealização data alguns meses e que viu finalmente inaugurado o seu espaço público.

Porque achamos que a mudança começa em cada um de nós, desafiamos todos os que sentem essa necessidade de mudança a contribuir na procura de soluções que nos indiquem um futuro mais justo. Pensamos que a crítica das acções e a denúncia dos problema são relevantes, mas mais importante é contribuir com opiniões e propostas que possam ter efeito no decurso das nossas vidas. A vida de cada um de nós e a organização da sociedade é demasiado importante para só pensarmos profundamente sobre elas quando se marcam eleições. Ou julgar que apenas a alguns compete. Porque para contrariar um tempo de degradação é necessário um tempo de mudança.

Não nos movemos pela demagogia nem pelo populismo, não somos apolíticos quando tudo na verdade é objecto da política. Somos democratas e cidadãos que crêem na racionalidade e na verdade, na transparência e na pluralidade, no debate são de ideias construtivas e progressistas.

A Democracia é um projecto em curso, em continuada reformulação. A Democracia pode ser renovada. Defendemos a transformação do sistema: pela reforma da Constituição na diferenciação dos objectivos, poderes, checks and balances e responsabilidades partilhadas; pela reformulação do sistema eleitoral e a representatividade dos partidos; pela reorganização territorial; pela reafirmação da ética e valores democráticos e republicanos; pela fraternidade e o respeito da individualidade; pela justiça e a igualdade.

A luta por um amanhã brilhante está nas mãos de cada um. A audácia não pode sucumbir ao medo que nos comprime. A esperança num futuro sorridente é energia pura que nos fará vencer. Nenhum caminho é fácil de trilhar, mas é possível chegar ao fim. É possível acreditar. O tempo para mudar é agora, chegou o momento da lucidez. Por uma Democracia renovada, vamos criar a mudança.

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Victor Barreiras e Ivo Gomes
11.02.2011

The day of victory and joy

Khaled Elfiqi / EPA



Amel Pain / EPA


After 18 days of struggle and democratic urge for change, Mubarak at lasts resigns as President of Egypt.

Today is the day of victory, of joy. The victory of reason and the people. A victory for Egypt. A historic event as a beacon of hope that shines everywhere, meaning that change is possible, that freedom and justice can be met. That a new beginning is a bright tomorrow.
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Depois de 18 dias de luta e uma urgência democrática para a mudança, Mubarak finalmente demite-se.
Hoje é um dia de vitória, de alegria. Vitória da razão e do povo. Uma vitória para o Egipto. Um evento histórico que é um farol de esperança, significando que a liberdade e a justiça podem ser alcançadas. Que um novo começo é um amanhã brilhante.
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2011-02-10

2010 Best Documentary posters






2011-02-09

Voice of Freedom

2011-02-07

O país inteiro deve deixar de se sentir parvo


Têm feito de nós parvos. E tão parvos todos temos sido. Ano após ano. Governo após governo. Década após década. Crise após crise.
Mas finalmente, a percepção colectiva da urgência de actuar, da necessidade de mudança, está a alargar-se cada vez mais. Todos sentimos isto, e vai crescendo. Sinónimo disso é o surgimento de movimentos no facebook.
O sinal mais recente - e mais mediático - foi há dias quando Deolinda actuou no Coliseu do Porto com uma cançao inédita. Em menos de um fósforo, "Parva que eu sou", está a tornar-se num hino de verdade e de revolta. Quando Ana Bacalhau entoa “sou da geração do já-não-posso-mais / que esta situação dura há tempo demais” isto é um claro grito de raiva, é um clamar à acção.

O MediaMarkt tem como horrível campanha/slogan "Eu é que não sou parvo". Talvez agora, na reacção à verdade da canção dos Deolinda, na necessidade de intervir, gritar contra tantos responsáveis (ou irresponsáveis) também esta frase "eu é que não sou parvo" porque esta situação dura há tempo demais.
Não basta pedir a demissão do governo. Alternância em que nada muda não é solução. Há muito engano, muita mentira, muita demagogia. Há muita incompetência, muito deixa-andar, muita inoperância, muita desresponsabilização. Há muita desconfiança, muita crispação. Há muita impaciência, muita desigualdade, muita dificuldade, muita incerteza.

As manifestações pela mudança e pela democracia no Egipto são um óptimo exemplo a seguir. A coragem e a lucidez, a força e a capacidade colectivas demonstradas são alavanca primordial para agir, para mudar a situação.
A Democracia está doente, o país está enfermo. É preciso mudar! É necessário alterar o sistema político, afinar a sua representatividade e exigir responsabilidade.
Eu quero deixar de me sentir parvo.
O país inteiro quer deixar de se sentir parvo.
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2011-02-04

O princípio do fim



O fim da tranquilidade, do império, da paz. Há cinquenta anos atrás, Portugal entrava numa etapa crucial da sua existência. Pode ter sido uma acção fracassada, mas aquela madrugada de 4 de Fevereiro de 1961 foi o primeiro sinal de mudança.
Munidos de catanas e paus, centenas de angolanos, com o intuito de libertarem presos políticos das cadeias de Luanda, iniciaram a luta armada pela independência de Angola. A partir daqui, e com os horríveis massacres de Março, todo o império colonial tremeu.
Formaram-se três frentes de guerra que, como qualquer guerra, mostrou o melhor e o pior do ser humano


2011-02-03

VW: The Force



New Volkswagen Passat ad, by Deutsch Inc


Via Fubiz
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2011-02-02

2011-02-01

Cinema posters of 2010



2011-01-29

Revolution in progress



Is this a spreading revolution similar to 1989 in Eastern Europe? Is the end of Hosni Mubarak's regime a defining moment like the fall of the Berlin Wall?
The people of Egypt, with courage and determination, are taking action for freedom and change. Historic days are these, starting in Tunisia and spreading through most of the Magreb and Arab countries.
But the vital question is this: can the values and forces of democracy take its rightful place?
This is a revolution in progress, with an outsanding regional and worldwide relevance.
The "West" must show much more support.
Let's hope for a brighter future. Let's hope for their chance for change.

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Será esta uma revolução em expansão como no Leste Europeu em 1989? Será o fim do regime de Hosni Mubarak um momento tão definidor como a queda do Muro de Berlim?
O povo do Egipto tomou, com coragem e determinação, a acção nas suas mãos para obter a liberdade e a mudança. Dias históricos estes, que começaram na Tunísia espalhando-se pela maioria do Magrebe e países árabes.
Mas a questão vital é esta: podem os valores e a força democracia vingar?
Isto é uma revolução em curso, com uma relevância extraordinária na região e no mundo inteiro.
Esperemos por um futuro melhor. Tenhamos esperança para a sua oportunidade de mudança.
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2011-01-28

Special editions





2011-01-27

Live the language

The beauty and power of language, spoken and written.







Commercial for EF Language Schools.
Directed by Gustav Johansson
Typography by Albin Holmqvist

Via Fubiz
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2011-01-26

Reflexão pós-presidencial

1.
Portugal encavacou-se. Rejeitou uma proposta alegre. Não assumiu uma alternativa nobre. Tolerou (mais) um xico comunista. Engraçou-se com um coelho atrevido à moda da Madeira. Desprezou um defensor de nada para além de si próprio.
O país aprofundou a distância à política. Aumentou o desprezo aos políticos. Definiu-os longe da vista e longe do coração.
Os níveis de abstenção constragem. A não-participação do eleitorado tem várias culpas por distribuir, sendo a primeira dos próprios políticos e do sistema político vigente.
O aumento da quantidade de votos em branco (191.159) é um prenúncio objectivo de um protesto claro que parece finalmente modificar, ao olhos de cada vez mais gente, a real importância política de tal acção.

Este desfasamento crescente poderia ter tido um primeiro combate no discurso de vitória.
Mas não teve.
Assistimos porém, à prova oral de um presidente que de alegre e nobre nada possui. Perdidas duas excelentes oportunidades para ser inspirador, positivo, magnânimo até, mas foram substituídas por palavras de rancor e azedume, negatividade e vitimização, demagogia e populismo barato. Cavaco Silva pode oficialmente ser o Presidente de Portugal, mas não é decidamente - quer pelos votos (apenas 2,2 milhões) quer pelo conteudo demonstrado - o presidente de todos os portugueses. Esperará ele pela tomada de posse para comunicar esperança e mobilização? Conseguirá ele, lesado que está pelas polémicas recentes, um capital de confiança nacional que o país carece? A vir, que duvido, virá tarde e de forma inconsequente. Cavaco Silva é o prolongamento institucional da (podre) estabilidade vigente, mas promoveu a divisão e o afastamento, quando Portugal precisa do contrário.

2.
Tudo continuará num marasmo hipócrita. O país permanecerá encerrado em incertezas do tamanho de um rectângulo de 92 mil km2. Apesar da luta, do altruísmo e do estoicismo de muitos portugueses, o país prossegue, hoje como ontem, num caminho de cabras ladeado de campos abandonados e florestas disformes, sem meta e sem rumo, à espera de uma qualquer queda fatal. Somos um navio ancorado com correntes corrompidas, preso a equívocos, incapaz de flutuar pelos buracos no casco. O que nos impede de renovar, regenerar e partir de novo são as mesmas nulas políticas sem ideias que ano após ano nos cobrem de uma imobilizadora camada de ferrugem e fungo, diminuindo a energia individual e a beleza identitária colectiva de uma nação única.

3.
Mas estas eleições provaram que certas derrotas, também expectáveis, serão plataforma adequada para repensar estratégias. A (real) consequência delas estará por vir.
O resultado eleitoral de Manuel Alegre provou a essência de um candidatura construída de forma errada.

4.
A independência de Fernando Nobre foi a segunda grande vitória. A candidatura de uma alternativa da cidadania e da ética tiveram uma expressão contundente, com potencial de crescimento na proporção futura do descontamento e das propostas inteligentes e mobilizadoras que se apresentarem. Fernando Nobre foi um rosto livre de que a urgência de mudar o estado das coisas multiplica a vontade de participar.


5.
O caminho seguinte é provar que as ideias e a seriedade para mudar o sistema actual têm força suficiente para melhorar Portugal. As etapas do futuro próximo serão intervir e abrir o corpo à luta. Lançar ideias e propôr as mudanças. Debater alternativas e agir para melhorar.

Os valores e os princípios de liberdade, fraternidade, igualdade e justiça não podem sucumbir perante a passividade ou na falsa expectativa num sistema que já não corresponde à realidade e não responde aos desafios actuais.
Tal como o Presidente Barack Obama disse ontem no Discurso do Estado da União: "O futuro é nosso para vencer. Mas para lá chegar, não podemos ficar parados".
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2011-01-21

How to Design Web Apps People Love - by Kevin Hale

How to Design Web Apps People Love - Kevin Hale - Front End Conference 2009 from Nate Croft on Vimeo.

Crónicas de uma reflexão presidencial - III

Esta campanha eleitoral não ficará para a história. Um presidente-candidato que nada comenta e cinco opositores que barafustam. Pairou um conclave sobre o BPN, a crise e o FMI primeiro, e depois, entre disparates, enganos e parangonas paternalistas ignoraram-se eventuais ideias, perdendo-se oportunidades de discussão entre brumas mediáticas sem conteudo relevante.

A cumprir-se o resultado das sondagens, domingo não passará de um mero acto referendário. Contudo, a haver segunda volta, tudo mudará. E é aí que o desafio existe. Difícil sim, ainda para mais quando PR e Governo, por "tradição" da democracia portuguesa, são contrapoder um do outro. Mas qualquer que seja o vencedor, poderá o Presidente da República funcionar, em concreto, como um contrapoder?

A dictomia política esquerda-direita, ao contrário do que muitos afirmam, não morreu. A sanidade do confronto ideológico e democrático viverá enquanto visões diferentes e alternativas da realidade coexistirem na sociedade. O problema surge quando a Esquerda incorre no habitual erro da multiplicação de candidaturas, fugindo a um denomindador comum, perdendo capacidades afirmativas (ao contrário da Direita) para definir um elemento federador da pluralidade deste campo político. Uma hipótese vencedora é substituída por redutoras vitórias de Pirro, algumas tão narcísicas quanto ridículas. O pragmatismo perde lugar para a demagogia. O ruído dos candidatos dá lugar ao silêncio dos eleitores. Fica tudo à espera de ganhar o seu quinhão, na esperança (vã) de forçar uma segunda volta, aí sim "federadora".

Repugna-me um pouco o voto para aumentar quotas de possibilidades. O voto no menos mau pode ser solução atraente, mas carece sempre de verdade e falta de livre escolha.
Cabe decidir em consciência, em liberdade. Agir por aquilo em que acreditamos, pelas nossas convicções. Tomar uma posição e uma acção responsável pela nossa escolha, no respeito da nossa integridade individual, e pela ideia de país e de futuro.

No fundo, para o PS de Sócrates até é preferível que ganhe Cavaco, pois Alegre, seria uma pedra no seu sapato. Este governo cairá mais cedo ou mais tarde e o próximo PM será Pedro Passos Coelho, pelo que o aspecto de um contrapoder, seja Cavaco ou Alegre, funcionaria de modos muito diversos.

Estas eleições são mais importantes que aparentam. O que nos comprime continuará a intensificar-se na segunda-feira, e no futuro próximo alterações sociais e políticas são expectáveis. Com isso em vista, o que o país precisa em Belém, afugentando-me o máximo dos clichés, é isenção, imparcialidade, integridade. A questão fundamenta-se em quem poderá corresponder, neste contexto, para além disso.
Porque um Presidente não pode ser vulnerável, mudo, discreto. Um Presidente não deve ser serôdio, inconsequente, falso.
O mais alto magistrado da nação deve ir além da razão e do pragmatismo.
O Presidente da República deve ser inspirador, enérgico, convicto, dialogante, livre, humanista. Um PR não deverá cruzar os braços face à (in)justiça, à errância, ao desvario. O Presidente deve apelar à cidadania, ao sentido de dever e comunidade, devolver a esperança e mobilizar para o futuro. Promover o patriotismo e a identidade. O Presidente da República deve defender o bem comum, a democracia universalista, promover a ética social e política.

Porque manter as coisas como estão na esperança que algo aconteça é um engodo.
Mudar por mudar não é opção.
Mesmo que não saia vencedor (desta vez), é preciso acreditar numa visão de futuro.
Escolher pela mudança é uma acção estratégica.

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O sábado de reflexão funcionou.
Pela cidadania, pela diferença, pelo desafio, pela mudança.
Voto Fernando Nobre.
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2011-01-20

Crónicas de uma reflexão presidencial - II

O óbvio dos últimos cinco anos concretizou-se, pois um economista sem alma, pouco pôde. Não é que esperasse algo, mas Cavaco Silva e a sua frágil condição de mito, demonstrou que permanece como um sol enganador. A insustentável situação a que chegámos em parte ocorre pela sua conduta. Pelo conluio dissimulado da atracção fatal ao governo Sócrates. Na concreta realidade da posição presidencial e do símbolo nacional que o actual presidente não tem sido. Pela incapacidade individual para a mobilização colectiva, pela fraca defesa da identidade lusófona, pelo vazio internacional da sua presença. A sua tão propagada honradez e conhecimento dos dossiers nunca possuiram força suficiente para ocupar o cargo de presidente da república. Continuamos a não saber quais as suas ideias para além das economicistas, ora porque não responde, ora porque não as expõe. (Sim, está no site dele, mas não é a mesma coisa). Este mundo actual é o local ideal para políticos da sua estirpe, perdidos que estamos no economês que nos devassa os sentidos e a bolsa.

Há cinco anos atrás mobilizei-me a favor de Manuel Alegre. Pela inovadora candidatura de cidadania, pela fraternidade, pelos portugueses, por Portugal. Por aquilo que acredito que o poeta podia representar como impulsionador do património lusófono numa comunidade forte e global. Defendi com as palavras seguintes a crença num Presidente como "alguém íntegro e de espírito aberto, de convicções e livre, abrangente e fraterno, justo e patriótico (...) que seja símbolo do Estado mas acima de tudo da cidadania, da nacionalidade, capaz de representar todos dentro e fora do país com igual competência, serenidade e valor. Transmitir e invocar uma mensagem universalista e democrática, moderna e mobilizadora, os valores intrínsecos da nacionalidade e do respeito por todos, positivo e inovador."
Acontece que Manuel Alegre, em 2011, não se apresenta (tão) livre como afirma. As amarras que o prendem são lâminas traidoras de um projecto outrora feliz. A inevitabilidade do apoio PS e a "amizade" bloquista conferem politicamente a esta candidatura um estranho sabor de aliança conjuntural e hipocrisia escondida.
Na verdade, Manuel Alegre não deveria, como Mário Soares há cinco anos, ter refeito a sua candidatura. Por três razões muito concretas. Primeiro, pela posição que encetou na contenda anterior contra o PS. Segundo, pelo desbaratar do tão propalado "1 milhão de votos", plataforma fantástica para uma potencial regeneração da Esquerda. Terceiro, pela conveniência de um apoio partidário socraticamente envenenado.
Hoje, tão livre como o poeta, reconhecendo sempre o valor, carácter e simbologia política, não me vinculo (totalmente) à sua repetida candidatura presidencial.

Fernando Nobre, por todos conhecido, tentou levantar um movimento cívico à semelhança de Manuel Alegre. Tentando de certa forma ser um movimento grass-roots à maneira da candidatura de Obama, embora não tenha havido uma projecção generalizada, nem apoios, ideais para demonstrar com autenticidade uma proposta diferente. Em parte pelas fragilidades de comunicação do candidato e da sua equipa, em parte pela desvalorização elitista de uma candidatura alternativa. Não me constrange a sua inexperiência política, não duvido das suas intenções, aprecio mesmo algumas ideias e projectos, mas Nobre afirma a todos os ventos, por vezes em excesso, acções e políticas sobre os quais um presidente não tem controlo.
Mas como tenho tendência para a defesa de autonomias, desafios à norma, modos independentistas, alternativas e um profundo conceito de diferença, a sua candidatura apela a estes meus instintos. Agrada-me o desafio de outra barricada. Apraz-me a ideia de uma mudança inesperada.

E no entanto, permaneço absorto neste purgatório frio e cruel.


(Última crónica amanhã)
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2011-01-19

Crónicas de uma reflexão presidencial - I

Não consigo evitá-lo. Perco-me na busca da razão e do sentido. Entendo a pertinência do momento, mas fraquejo pela indecisão que me apoquenta a racionalidade. O tempo muda muito. Constroi desejos e futuriza alegrias que, no entanto, tendem a desfazer-se em inglórias existências, promessas fúteis e certezas diminutas. Depois o ciclo fecha-se para recomeçar outro, para se revalidar a esperança e a vontade, uns para solidificar a matéria, outros para projectar a mudança. Contudo a confiança é mutável, na implícita medida da realidade cruel que nos envolve. A projecção do amanhã bifurca-se entre uma insustentável percepção de um mundo que nos é alheio ao controlo e ao entendimento, e um caminho idealista de percurso inevitavelmente intransponível.
Não perdi todas as utopias, ainda reside em mim uma réstia de realidade. Pela primeira vez situo-me no purgatório campo dos indecisos. E é um lugar horrível.

Nestas eleições presidenciais qualquer visão apresentada afigura-se como uma consequência sem fundo, questionando de novo a valor da existência de um presidente, muito particularmente face ao desenlace há muito pressentido. Isto convida à inércia, a um movimento silencioso que afasta a participação. Na verdade, com os poderes actuais, um Presidente deveria ter um mandato único de sete anos, findo o qual a renovação obrigatória do detentor do cargo elevaria e mobilizaria a disputa e a participação política e civil. O próprio exercício do cargo nestas condições evitaria leituras ou atitudes da simples busca da reeleição, tornando mais livre e presente a sua acção.

O voto em branco, na situação presente, torna tão ineficaz como inútil porque há sempre algo a evitar e uma visão por defender. "No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise", escreveu Dante.
O exercício da abstenção activa - o voto em branco - como emergente arma democrática, encontrará noutra ocasião, palco maior e decisivo para a sua aplicação.

Das candidaturas em disputa tenho um claro contra (Cavaco) e, um estranho dilema por resolver (Alegre ou Nobre). Os dias seguintes me conduzirão a uma reflexão e, consequentemente fundamentado, à decisão final.

(Continua amanhã)
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